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40% das suas primeiras memórias nunca aconteceram

Se você acha que lembra de alguma coisa de antes de ter uns três anos e meio, tem uma boa chance do seu cérebro estar te enganando.
Imagem: Shutterstock

A memória mais antiga que tenho quase certeza que é verdadeira é de quando eu tinha uns quatro anos. Estou na sala da casa do meu amigo de infância que morava do outro lado da rua, vendo o pessoal da mudança carregando móveis e caixas da casa da minha família para o caminhão. Não lembro onde meu amigo estava na hora ou como eu estava me sentindo. É uma memória simples, mas ainda é bem vívida mais de vinte anos depois.

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Em compensação, tenho algumas memórias de quando eu era ainda mais novo que não tenho certeza se são realmente minhas. Pensando agora, tenho certeza que a maioria delas foi “implantada” depois com vídeos caseiros, fotografias ou histórias de família, e internalizei essas experiências como minhas. E não estou sozinho: segundo nova pesquisa publicada no Psychological Science, por volta de 40% das nossas primeiras memórias provavelmente são fictícias.

Esses resultados foram tirados de uma pesquisa com 6.641 pessoas no Reino Unido, que descobriu que aproximadamente 2.560 dos participantes (38,6%) diziam ter memórias de quando tinham dois anos ou menos, e quase 900 dessas memórias eram de quando os participantes tinham um ano ou menos. Os participantes recebiam a instrução de que deviam ter certeza que a memória era genuína, e não baseada em uma foto ou qualquer coisa além de experiência direta.

Só tinha um problema: humanos não têm memórias de quando são mais novos que 3,5 anos na média. Para os autores do estudo, tantas pessoas relatando memórias vívidas de seus primeiros dois anos de vida vêm de uma credulidade expandida.

“Mais importante, a pessoa lembrando dessas coisas não sabe que elas são fictícias”, disse Martin Conway, diretor do Centro de Memória e Lei da Universidade de Londres, numa declaração. “Isso se deve em parte ao fato de que os sistemas que nos permitem lembrar as coisas são muito complexos, e só quando temos cinco ou seis anos formamos memórias como as de um adulto devido ao jeito como o cérebro se desenvolve e ao nosso entendimento mais maduro do mundo.”

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Análises da linguagem e detalhes descritivos dos participantes da pesquisa jogam uma luz em por que tantas pessoas parecem ter uma primeira memória fictícia. Segundo os pesquisadores, essas memórias fictícias provavelmente são montadas a partir de pedaços de experiências iniciais – como um sentimento em particular com um membro da família, seu brinquedo favorito e assim por diante – e são combinadas com conhecimentos sobre nossa infância que aprendemos depois.

Um tipo em particular de memória fictícia relatada por muitos participantes tinha a ver com seu andador ou carrinho de bebê.

“Para essa pessoa, esse tipo de memória pode ter surgido de alguém dizendo algo como 'sua mãe tinha um carrinho de bebê verde enorme'”, disse Conway. “A pessoa então imagina como o carrinho deveria ser. Com o tempo esses fragmentos se tornam uma memória e muitas vezes a pessoa começa a acrescentar coisas nela, como um cordão com brinquedos.” Com o tempo, esses fragmentos mentais vêm à mente quando adulto e são experimentadas como “memórias”, explicou Conway.

Tente lembrar o mais longe que a memória permitir. Se você tem uma memória de algo que ocorreu antes de você ter três anos e inclui muitos detalhes, há uma boa chance de ser só uma história que te contaram enquanto você crescia.

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