A youtuber que comanda uma seita suicida internacional

Conhece Teal Swan, uma youtuber que prova que vender a salvação a pessoas desesperadas é um oportunismo que não distingue géneros.

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ago 10 2018, 3:13pm

Teal Swan, imagem cortesia Youtube.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

“É sempre um gajo idiota”. Enquanto alguém que escreve muito sobre seitas (desculpem, pessoal!), este é um sentimento que, ultimamente, tenho ouvido muito. Assim de cabeça, quase ninguém consegue pensar numa seita liderada por uma mulher (Ma Anand Sheela não conta), mas a maioria consegue facilmente elencar um punhado de homens narcisistas que juntaram uma catrefada de seguidores. Alguns ficam mesmo a pensar se é, de facto, preciso um tipo especialmente maligno de masculinidade tóxica para alguém se declarar um profeta/guru/curandeiro e explorar seguidores vulneráveis para os seus propósitos bizarros.

Acontece que não são apenas homens a fazerem tal coisa. A investigadora de seitas e professora da Universidade do Estado da Califórnia, Janja Lalich, garante que há muitas mulheres líderes de seitas, algumas bastante destrutivas. Uma guru espiritual new age, chamada Teal Swan, desencadeou um debate particularmente acirrado, depois de um dos seus ex-estudantes cometer suicídio. Swan diz ter poderes super-sensoriais, ser capaz de ver o que acontece dentro do corpo das pessoas e ajudar a recuperar memórias reprimidas de traumas da infância. Recentemente, foi o tema de um podcast em seis partes do Gizmodo, intitulado The Gateway.

Apesar de Swan negar alegações de que comanda uma seita, a sua influência nas redes sociais e práticas polémicas em torno de depressão e suicídio – por vezes encorajando os estudantes a imaginarem a sua morte ao pormenor – colocaram-na no lado perigoso do radar de seitas de Lalich.

E, com quase meio milhão de seguidores no seu canal do YouTube e centenas de vídeos sobre assuntos que vão de cuidados de pele, relações, até criptomoedas, Swan não se encaixa imediatamente no perfil (datado) de líder de seita. No passado, gurus mulheres como Elizabeth Clare Prophet e Judy Zebra Knight foram notícia por construírem abrigos para o fim do mundo e dizerem que canalizavam espíritos antigos, mas Teal Swan faz-se valer de um novo tipo de conhecimento do século XXI da Internet, que usa o YouTube e SEO para encontrar pessoas desesperadas.

Para melhor entender como funciona uma seita actual comandada por uma mulher, liguei ao repórter do Gizmodo, Jennings Brown, que visitou o retiro de Teal Swan na Costa Rica. Brown tenta evitar o rótulo de seita nas notícias que cobre e reconhece que Swan atende a uma necessidade de diálogo sem culpa sobre assuntos tabus, como abuso sexual infantil e idealização de suicídio. Mas, o jornalista também se preocupa com as pessoas que devotam as vidas à “marca sombria de espiritualidade” desta mulher, sem supervisão profissional ou responsabilidade da parte da própria.

“Quando ela finalmente chega, é sempre de forma muito teatral”, recorda Brown sobre o primeiro encontro cara-a-cara com ela na Costa Rica, onde os estudantes pagam mais de dois mil dólares para trabalharem com Swan. E acrescenta: “Ela desce por uma escadaria de pedra, com dois seguidores próximos de cada lado e apresenta-se sempre mais alta que todos. E, uma das primeiras coisas que fazem, é uma meditação de morte, onde ela diz 'vamos todos ficar um pouco suicidas por um momento'”.

Brown diz à VICE que foi apanhado desprevenido quando Swan começou a instruir as pessoas a visualizarem como acabariam com a própria vida. Mas, os participantes pareciam acostumados com o exercício, já familiarizados com o estilo intenso dos vídeos de Swan. Em excertos ainda disponíveis no YouTube, ela sugere o suicídio como um botão de reset, um alívio e que pensamentos suicidas são uma reacção válida para situações más. Nos comentários, os espectadores expressam o medo e a vergonha de quererem agir sobre esses pensamentos.

Brown descobriu que a abordagem pouco convencional de Teal não se alinha com qualquer estudo sobre suicídio. Um novo estudo sobre contágio de suicídio recentemente divulgado, descobriu que menções a métodos de suicídio naos media aumentam as probabilidades de suicídios subsequentes. “Isso é uma coisa importante sobre Teal, ela diz às pessoas que têm de decidir se se vão comprometer com a vida ou não”, explica o jornalista à VICE. E salienta: “Isso não combina com a forma como os humanos se comportam... Os dados dizem que ninguém tem 100 por cento de possibilidade de se comprometer com viver ou morrer – mesmo no meio de uma tentativa de suicídio, há uma parte tua que quer viver”.

Lalich vê esse tipo de terapia dramática como uma forma de manipular pessoas vulneráveis. “Elas podem tornar-se muito instáveis e é com isso que ela conta. Líderes de seitas vão sempre dizer que as pessoas têm de fazer o que chamo de 'reenquadrares a tua vida'. As pessoas reinterpretam as suas vidas para verem tudo o que aconteceu antes da seita como mau e que só estando do lado do líder da seita podem consertar as suas vidas” (até hoje, muitos membros da “Tribo Teal” dizem que só estão vivos por causa dos seus ensinamentos).

Brown estava curioso sobre como esses seguidores encontraram Swan e muitos deles descreveram “um tipo de entrega cósmica”. “Colocaram as suas intenções no universo e os vídeos de Teal começaram a aparecer-lhes”, salienta Brown. Mas, Swan tem uma resposta mais directa para essa pergunta. “Ela diz que essas pessoas são basicamente o seu alvo, através de SEO e tags básicas do Google, portanto, quando alguém procura coisas como 'Quero matar-me', encontra encontra os seus vídeos”.

Teal Swan não respondeu aos pedidos da VICE para comentar este artigo, mas consegui algumas respostas de um representante do Google sobre como a empresa lida com buscas relacionadas com suicídio. O gigante da tecnologia não completa frases em buscas que indicam auto-flagelação e apresenta uma “caixa de resultados” no topo com números de telefone de organizações de confiança de cada país. Mas, com títulos directos como “Quero Matar-me (O que Fazer se és Suicida)” e “O que Fazer Quando Te Sentes Desesperado”, não é difícil encontrar os vídeos de Swan na busca do YouTube.

Lalich diz que há algum tempo que tem vindo a ouvir reclamações sobre Swan. “Na sua maioria, vindas de pessoas que se sentiram exploradas. Querem algum tipo de validação de que estão certas sobre sentirem-se dessa forma sobre as suas experiências”, diz. Mas, para cada um que diz ter-se sentido explorados, há muitos do lado da guru. Como outras personalidades a operarem no espaço da auto ajuda new age, Swan também tem muito conteúdo aparentemente benigno sobre definir objectivos, encontrar alegria e quebrar padrões destrutivos. Vídeos sobre “como ver auras”, “como activar e abrir o terceiro olho”, ou “como usar a intuição”, entre outros, juntam milhões de visualizações.

Quer os seus seguidores aceitem ou não o rótulo de seita, Lalich diz que há mais trabalho a ser feito para expôr gurus exploradores e lutar contra o estigma de seita. “Não vais querer chegar junto de alguém e dizer-lhe 'Olá, estás numa seita'. Tens que conversar com eles com muito tacto sobre o assunto”, explica. E acrescenta: “Acho que se pudermos divulgar mais informação sobre como as seitas realmente são, como elas enganam e como tiram vantagens, podemos impedir as pessoas de ter uma reacção tão negativa à palavra. Porque isso é útil para identificar o que há de errado nestes grupos”.

Brown diz que a comunidade online de Swan está mais activa que nunca – continua a crescer à mesma velocidade. Refere ainda que a sua grande descoberta é que figuras jovens e controversas que fazem grandes promessas como Swan, vão continuar a encontrar um público, enquanto ainda houver falhas nas fontes de esclarecimento sobre saúde mental. “Se digitas no Google algo sobre suicídio, provavelmente vais encontrar um número de uma linha de prevenção no topo, mas isso não é muito humano. É só um número”, justifica. E conclui: “Acho que precisamos de ter mais opções para pessoas que estão a sofrer, vindas de outras fontes que possam ser responsabilizadas”.


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