Saúde

Passámos um dia em Lisboa a acompanhar o trabalho vital da "carrinha da metadona"

Redução de riscos, despistagem e tratamento de doenças virais como as hepatites e o apoio crucial a pessoas que tentam mudar de vida. Fomos ao terreno conhecer o projecto da Associação Ares do Pinhal.

Por Madalena Maltez; fotos por Queragura
26 Julho 2019, 1:53pm

Todas as fotos por Queragura.

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São oito e meia de uma manhã fresca de inícios de Julho em Santa Apolónia e o dia acaba de começar para a equipa e utentes da carrinha da Associação Ares do Pinhal.

- "Hoje foi 6, amanhã 5. Podes dar-me prata?".

- "Claro, está aqui. Chega? Mas, então está a reduzir a metadona e quer a prata? Já sabe que isso não dá bom resultado...".

-"Não é para mim a prata. Eu não dou no pó. Dou pouco".

- [Risos]. "Olhe que não dar e dar pouco não é a mesma coisa! Repense lá na redução que isso não é boa ideia".

A fila estende-se ordenada e ainda sonolenta ao longo do passeio. São quase tudo homens, se bem que as mulheres são hoje 15 por cento dos utentes do programa desenvolvido pela Ares do Pinhal (AAP) - uma IPSS criada em 1986, que iniciou as suas actividades como Comunidade Terapêutica para toxicodependentes em Aldeia de Eiras (Mação) e que, desde então, criou mais duas Comunidades Terapêuticas, uma em Chão de Lopes Pequeno (Mação) e outra na Rinchoa (Sintra), um Apartamento de Reinserção em Caxias (Oeiras) e a partir de 1998 assumiu também a gestão de alguns Programas de Redução de Riscos e Minimização de Danos, no âmbito de uma parceria criada entre a Câmara Municipal de Lisboa e, na altura, o Projecto Vida, com supervisão técnica do Serviço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência, actualmente Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, do Ministério da Saúde.

Daquela que é conhecida informalmente como a "carrinha da metadona" saem dois psicólogos, um enfermeiro e dois monitores. “Bom dia Edgar!”, cumprimentam em quase uníssono ao verem chegar mais um homem que se posiciona no fim da fila. Este retribui com um “Bom dia” sorridente. Junta-se então à fila uma mulher, que traz jornais debaixo do braço e os distribui pelos monitores que estejam interessados em lê-los. Aqui todos se tratam pelo nome. Afinal de contas, vêem-se todos os dias e é com estas pessoas que os utentes partilham histórias de vida e o historial médico completo, sem esconderem as verdades mais obscuras nem sentirem a necessidade de mascarar os vícios.

O enfermeiro, sentado dentro da carrinha, abre a pequena janela e dá início à administração de metadona. O primeiro da fila diz o seu número – todos têm um, não só para facilitar a organização, mas também por motivos de confidencialidade – e aparece no ecrã toda a informação de frequência de tomas, quantidades e medicamentos que precisa de tomar. Todos, ou quase, começaram a utilizar este serviço ambulatório da Associação Ares do Pinhal por causa da metadona, substituto opiáceo da heroína, mas devido ao acompanhamento médico que o serviço lhes oferece, muitos acabaram por descobrir depressões, hepatites ou outras doenças para as quais agora se medicam.

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Estas unidades móveis são parte do projecto de redução de danos que começou em 1998. Em Lisboa, a viatura faz quatro paragens – Avenida de Ceuta, Praça de Espanha, Santa Apolónia e Bela Vista - duas vezes ao dia, todos os dias. Nesta carrinha, todos são bem-vindos e encontram ajuda e uma rede de apoio para o que precisarem. É um entorno em que os julgamentos não têm lugar e a abstinência não é exigida.

O objectivo do programa é ser de fácil acesso, dar resposta imediata aos problemas dos utentes, bem como apoio psicossocial, ajudando a conectar as pessoas aos serviços sociais de que possam necessitar, principalmente aos 10 por cento de sem-abrigos. Com o propósito primário dirigido aos consumidores de heroína, para controlo dos sintomas de privação e de craving, na carrinha fazem-se também consultas médicas duas vezes por semana, análises e vigilância de doenças transmissíveis (rastreio e seguimento) e cuidados básicos de saúde. “Há quem venha porque sofre de ressaca, ou porque quer deixar a heroína, ou para evitar recaídas”, diz-me Carolina Marquez, psicóloga.

-"Doutor, estou aqui com uma dor há três dias”, queixa-se um homem de expressão aflita ao enfermeiro do outro lado da janela aberta, após engolir a sua dose de metadona e deitar o copo de plástico para o lixo.

- “É na anca? Consegue andar?”, pergunta o enfermeiro enquanto sai da carrinha para dar uma vista de olhos. “Devia passar no hospital, o Nuno pode levá-lo agora. Podes, não podes?”.

Nuno, o monitor, responde que sim, encaminha o homem para o carro de serviço, estacionado imediatamente atrás da carrinha e seguem os dois para o hospital. O enfermeiro está ali para administrar os medicamentos e a metadona, mas acaba por ver desde conjuntivites a dores de costas nos dias em que o médico de clínica geral não está a dar consultas, o que acontece duas vezes por semana.

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Para entrar no programa basta querer. O segundo passo é submeter-se a análises ao HIV, Hepatite B e C e VDRL, todas feitas in situm. A partir daí trata-se caso a caso, porque cada pessoa terá os seus problemas e necessidades, que vão além da metadona e podem ser do foro físico ou psicológico. Na vida de uma Associação que presta serviços como estes, cada nuance é uma batalha. Cada acordo com um hospital, cada medicamento. Mas, hoje, numa altura em que em 2019 se celebra pela décima segunda vez o Dia Mundial de Combate à Hepatite, essa é uma batalha que se podem orgulhar de terem ganho.

“Há uns anos, ouvia-se muito a frase ‘Só tenho hepatite C.’ É uma doença que não tem sintomas e sobre a qual não havia tanto alerta, por isso os doentes não se davam ao trabalho de a tratar”, realça Cláudia Pereira, médica responsável pelos doentes de hepatite na unidade móvel. E acrescenta: “O sistema de saúde também não estava preparado e nós ainda não tínhamos encontrado o melhor processo. Quando se lida com pessoas que têm as vidas desorganizadas, como tende a ser o caso da comunidade que ajudamos, é fundamental tornar os processos o mais simples e rápidos possível".

Até 2014, o tratamento da hepatite era doloroso, durava cerca de um ano, tinha muitos efeitos secundários e a taxa de eficácia não era alta. Quando, na carrinha, diagnosticavam alguém, o processo consistia em encaminhá-los ao médico de família, o que não era a melhor maneira – nem todos tinham um, demorava-se meses a ter vagas para uma consulta, as horas de espera eram muitas e as pessoas, simplesmente, não queriam esperar. Em 2015, a AAP juntou-se ao Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge para fazer um estudo da sua população. “Descobrimos que, das 825 pessoas da altura, 307 delas tinham o vírus activo”, salienta a médica.

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Ao serem encaminhadas para os médicos de famílias e deixadas à sua sorte no que diz respeito a conseguirem consultas e acompanhamento, das 307 só 30 terminaram a cura. “Tínhamos 57 pessoas com cirroses hepáticas, que eram as que mais precisavam de tratamento, mas eram também as mais desorganizadas e este sistema não funcionava para elas”, recorda Cláudia Pereira. A AAP passou, então, os anos de 2015 e 2016 a bater às portas dos hospitais, pedindo-lhes que fosse possível encaminhar os doentes directamente para uma consulta. Em finais de 2017 o Hospital Santa Maria aceitou colaborar e passaram a receber, duas vezes por semana, aqueles que tivessem testado positivo, para consultas nas quais repetiam as análises e faziam um fibroscan para saber se o vírus está ou não activo.

E assim começaram os verdadeiros bons resultados. Hoje em dia, tudo é feito na carrinha. A médica vem dar a consulta, o carro de serviço leva os resultados aos hospitais e há agora 80 por cento de adesão, com 130 pessoas só neste ano e 80 delas já curadas. A evolução do tratamento também foi fundamental para este salto, dado que a nova medicação, aprovada em 2014, tem uma taxa de sucesso de 98 por cento e demora apenas 12 semanas. “A proximidade aqui é chave”, conclui a médica.

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Na paragem da Bela Vista José aparece para a sua dose de metadona. Calado, talvez por ainda ser de manhã. É quarta-feira, por isso o médico de clínica geral está a dar consultas e ele aproveita para ir. Deixa-me assistir. “Não tenho nada a esconder,” diz-me.

- “Já não falávamos há um tempo, tenho aqui umas análises para conversar consigo”, diz-lhe o médico. “Está connosco desde 2012, está em metadona e tratou-se para a hepatite. Há quanto tempo sabia da hepatite?".

- "Há anos que já sabia".

- "Já concluiu o tratamento?".

- "Já sim, há dois meses. Aqui e em Santa Maria".

- "Actualmente, já não consome?

- "Nada! Faço o teste surpresa quando quiser. Não gosto de haxixe. Cocaína nunca experimentei. Heroína comecei na prisão, foram dois anos de desgraça. E cigarros também".

- "Aqui não fazemos teste surpresa nenhum. Quanto está a tomar de metadona?".

- "Estou a reduzir".

O médico leu-lhe as análises, mediu-lhe a tensão, perguntou-lhe sobre todos os problemas de saúde antigos que constavam no seu historial. Examinou-lhe as marcas na pele causadas pela hepatite, a ferida feita numa querela com um segurança e perguntou-lhe se andava a comer bem. Depois da consulta, saímos os dois da carrinha. Eu e o José. Aproveitei para lhe perguntar sobre o tratamento para a hepatite.

- "Agora sinto-me bem. Já estou tratado. Continuo a vir aqui às consultas quando posso, porque se não tivesse sido por eles nem saberia que tinha que tratar a hepatite. Gosto muito deste apoio. É a melhor equipa, não há nada que não tenham feito por mim. Levavam-me ao hospital, esperavam comigo, ajudaram-me em tudo...".

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Uns minutos mais tarde, conheci o Nuno e a Sara, um casal na casa dos 40, de sorriso fácil, que também já terminou o tratamento da hepatite e que aceitam partilhar comigo a sua experiência.

- "As melhorias não foram imediatas, mas ao fim de um mês comecei a sentir-me menos cansado. Soube aqui que tinha que me tratar, quando me explicaram que agora iria ser mais fácil. Antes, a Sara teve várias consultas marcadas, mas nunca foi".

- "O apoio, até psicológico, que nos dão aqui é excepcional. Perguntam-me sempre se preciso de alguma coisa, se estou bem, é uma das melhores coisas que me podia ter acontecido. Interessam-se mesmo por nós. Contamos com eles".

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A médica Cláudia Pereira, que trabalha com a AAP desde 1998, confirma-me o sucesso do programa e explica-me que no caso da hepatite o tratamento tem sido muito bem sucedido e com muita adesão. “Os nossos utentes, de maneira geral, desvalorizam as questões de saúde. Por isso aqui fazemos ao contrário, em vez de terem eles que ir aos médicos, nós trazemos-lhos”, justifica. E acrescenta: “Fazemos aqui a consulta e a colheita – claro que, para exames mais específicos levamo-los ao hospital, mas vão no nosso carro de serviço e acompanhados. Se estiverem sozinhos é raro aguentarem a espera”. São as boas articulações com os hospitais, como o Santa Maria, o Egas Moniz e o dos Capuchos, que permitem que assim seja.

Olho para o lado e vejo que já não há ninguém nas consultas, por isso aproveito para entrar e falar um bocadinho com Carlos Gomes, o médico de clínica geral, que me conta que aqui é quase como um médico de família, “aliás, para muitos somos quase substitutos da família”, diz. E salienta: “São pessoas que não têm muitas rotinas, às vezes a única que têm é passarem por cá a tomar a dose de metadona. Por isso nós relembramo-los das coisas, das consultas, dos remédios, dos cuidados a ter com determinada questão. Mas, sem nunca dramatizar”.

E continua: “Não estamos aqui para os julgar, estamos para os apoiar e para minimizar os riscos a que estão expostos. Há muitos problemas comportamentais, o chamado aspecto regressivo, comportam-se como adolescentes ou crianças em certas coisas. Às vezes não querem contar que estão mal, porque têm um animal de estimação que teria de ficar sozinho caso eles fossem internados. Por isso é que, sem relação, não se consegue trabalhar com estes utentes. É preciso que confiem em nós”.

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Quando são internados ou presos, coisa que acontece regularmente e a vários por mês, a AAP assegura-se de que continuam com os tratamentos e com as doses de metadona. O Hospital de Santa Maria é o único que tem metadona, por isso para os outros hospitais e prisões é a AAP que envia as doses diárias necessárias e se encarrega da continuidade, para que os utentes não sofram ressacas e sintomas de privação.

Para além da distribuição da metadona, que é a motivação principal da carrinha e dos medicamentos para a hepatite, dos anti-depressivos ou sejam quais forem os tratamentos que os utentes estejam a precisar, há também outros cuidados a ter no que toca à minimização de riscos. Oferecem, por isso, kits de seringas novas, que contêm duas seringas e agulhas, dois filtros, dois toalhetes desinfectantes, duas ampolas de água bidestilada e carteiras de ácido cítrico, dois recipientes tipo carica e um preservativo masculino.

Têm também preservativos femininos à disposição e prata. Infelizmente não têm cachimbos, porque são feitos de vidro e, por isso, a produção é demasiado cara para os poderem conseguir.

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Já prontos para arrumar as coisas e darem como acabado o turno da manhã, Carolina Marquez, a psicóloga de serviço, recebe uma chamada. Era a polícia a avisar que as entradas do metro e as encostas por debaixo do viaduto na zona da Bela Vista estavam cheias de seringas, pedindo se as podíamos ir recolher.

As agulhas espetam-se e podem até furar solas de sapatos, chegando até ao pé. Ainda assim, não existe nenhuma equipa em Lisboa especializada em fazer recolha, nem sequer alguém que troque ou esvazie os contentores de seringas que a AAP deixa nos locais de consumo. Quando estes ficam cheios até cima, os consumidores deixam-nas no chão. É algo que tem que mudar; a equipa da carrinha da metadona não tem capacidade para se ocupar disto e é um problema de saúde pública a ter em conta, que requer pessoal especializado na recolha e despejo das seringas. “Às vezes a polícia apanha umas, mas deita-as no lixo normal, o que não se pode fazer. Têm que ser separadas e tratadas com cuidado, nunca se sabe quais podem estar infectadas”, realça Carolina.

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Só nos degraus do metro encontrámos cerca de 40. Mas, da parte da equipa não há lugar a queixas. A limpeza é feita e o dia chega ao fim, mas amanhã há mais, porque o trabalho da Ares do Pinhal é demasiado importante para parar por mais de umas horas.

Abaixo podes ver mais imagens captadas durante o dia que passámos no terreno com a "carrinha da metadona".

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