Sexo

O nosso maior medo já é uma realidade: a maior parte dos casais conhece-se online

Conhecer parceiros online é uma tendência que continua a subir e há cada vez menos casais que se conhecem no trabalho, na faculdade, ou através de amigos e família.
18.7.19
homem e mulher a olharem para os telefones

Este artigo foi publicado originalmente na VICE US.

Em 2017, 39 por cento dos casais de sexo oposto viam-se um ao outro como conjuntos de píxeis num ecrã, enquanto quase todos os outros métodos para encontrar parceiros - no trabalho, através de amigos, na escola - registaram um decréscimo, de acordo com uma nova análise de dados divulgada esta semana. Isso significa que a internet pode ter substituído, em grande parte, os amigos e a família como forma de casais se conhecerem.

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Os autores, dois investigadores de Stanford e da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos, recolheram dados de 3.510 casais heterossexuais, a quem perguntaram “Como é que se conheceram?”. Dos casais que se conheceram em 1995, dois por cento tinham-se conhecido pela Internet, uma fatia do bolo que subiu para cinco por cento em 2000 e disparou para cerca de 20 por cento para os casais que se conheceram em 2010.


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O estudo, ainda por ser publicado mas aceite provisoriamente no Proceedings da National Academy of Sciences, baseia-se num conjunto de dados que tem sido periodicamente actualizado desde 2009 e mostrou que os encontros pela Internet têm vindo a subir ao longo do tempo.

Esta versão não inclui casais do mesmo sexo ou não-binários, porque, segundo os autores, estes sempre tiveram mais motivos para usar a Internet para encontrar potenciais parceiros. O Pew Research Center também confirmou a subida da tendência do uso da Internet para encontros.

Durante esse mesmo período, a percentagem de casais do sexo oposto que se conheceram através de amigos caiu de 33 por cento em 1995 para 20 por cento em 2017 (antes, estava estabilizada em cerca de um terço desde 1980). Os casais que se conheceram através da família desceu de 15 por cento em 1995 para sete por cento em 2017, assim como os que se conheceram no trabalho baixaram de 19 por cento para 11 por cento. Os casais que se conhecem através de vizinhos, da faculdade, colégio ou igreja foram sempre percentagens baixas, mas esses números também diminuíram à medida que o Tinder e o Bumble ascenderam.

“O namoro na Internet retirou a amigos e familiares os seus antigos papéis de intermediários-chave na formação de novas uniões. Esta remoção ou subordinação do intermediário humano entre as duas partes, é um resultado social fundamental da Internet ”, conclui o estudo. E as estatísticas nem sequer captam completamente o grau do impacto: após mais questionários feitos aos participantes, os autores descobriram que alguns casais que se encontraram num bar ou restaurante (a única categoria para além do online que também aumentou desde 1995), na verdade só o tinham feito depois de terem alguma ligação online.

Os investigadores adiantam quatro possíveis razões pelas quais o namoro oscilou tanto para encontros online e para longe de situações e dinâmicas sociais da vida real: uma oferta de selecção mais ampla; um local sem amigos ou familiares, onde preferências ou actividades específicas de relações podem ser expressas sem julgamento; informações actualizadas sobre quem está disponível e a procura e a promessa de compatibilidade através de perguntas e preferências de pesquisa, como a percentagem de marcadores de correspondência do OKCupid ou o exaustivo teste de personalidade do eHarmony (é claro que há muitos cépticos em relação à "ciência" do online dating). Basicamente, é mais fácil em muitos sentidos.

Mas, a aparente facilidade também se torna irónica quando se tem em conta que, mesmo quando as pessoas estão a ter mais sucesso com os encontros através da Internet, também estão a ficar muito mais frustradas, isto se o fluxo interminável de memes e críticas servir de indicador. Todavia, em relação a isto não precisamos de adivinhar: um estudo de 2018 no Reino Unido descobriu que apesar de 45 por cento dos participantes terem dito que as utilizaram em algum momento, 37 por cento identificaram as aplicações de encontros como sendo o seu método menos preferido para encontrar um novo parceiro.

Ainda assim, o namoro online também pode parecer atractivo mesmo quando não dá resultados: um estudo do ano passado mostrou que as pessoas tendem a procurar potenciais parceiros online que sejam 25 por cento mais atraentes do que elas, o que sugere que o “sucesso” dessas aplicações assenta, pelo menos em parte, numa espécie de ilusão de que a oferta online é de maior qualidade, ainda que não esteja a dar frutos.


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