Eu tive câncer infantil
A jornalista e atriz Fernanda Gonçalves durante a infância. Foto: arquivo pessoal
Relato

Eu tive câncer infantil

A jornalista e atriz Fernanda Gonçalves relembra o diagnóstico de câncer ainda na infância.

Eu estava com quase 11 anos quando apareceu um nódulo no meu couro cabeludo. Um nódulo grande, uma coisa meio esquisita. Minha mãe me levou a alguns médicos. Fui ao pediatra, pronto-socorro, dermatologista e eles achavam que podia ser um cisto. Ninguém sabia, na verdade. Cogitaram até que fosse berne, aquele bicho que entra na pele. Um dermatologista sugeriu que eu fizesse uma cirurgia pra retirar o nódulo e, em seguida, uma biópsia para ver ver o que era. Até então, tive uma infância comum e muito saudável. Nunca tinha tido uma doença grave ou sequer tomado antibiótico.

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Nasci e moro em São Paulo. Sou filha única. Meus pais são atores, então, sempre tive amigos, mas fui uma criança que conviveu muito com adultos. Hoje, tenho 27 anos. Sou formada em jornalismo, mas trabalho como atriz. Estou no CPT (Centro de Pesquisa Teatral), dirigido pelo Antunes Filho, ensaiando uma peça. Faço cinema, TV, teatro, publicidade.

"Nunca tinha tido uma doença grave ou sequer tomado antibiótico"

Na época, eu não tinha sintoma nenhum. Não tinha dor, cansaço, fadiga, tosse, nada. Só esse nódulo. Lembro da minha mãe muito apreensiva, assustada. Fui encaminhada para fazer a operação com um cirurgião plástico. Fiz e, depois de uma semana, fui com os meus pais retirar os pontos e buscar o resultado da biópsia, que indicou células malignas. Era câncer.

Foi uma surpresa porque eu não tinha sintomas. E eu era uma criança. Ninguém espera que uma criança vá ter uma doença grave assim.

Foto: arquivo pessoal

Minha mãe ligou no convênio, que indicou uma clínica de oncologia pediátrica. Quando cheguei lá, um médico especialista me examinou e viu que tinha mais dois nódulos. Um atrás da orelha, do mesmo lado da cabeça que tinha aparecido o primeiro, e outro no pescoço. Na hora, meu pai ficou chocado e falou: "Vou ao banheiro". Ele levantou da cadeira e desmaiou. Entrou em choque. Foi muito assustador.

"Eu não tinha sintoma nenhum. Não tinha dor, cansaço, fadiga, tosse, nada. Só esse nódulo"

Talvez, por ter sido uma criança sem problemas de saúde até aquele momento, não fiquei em pânico, não fiquei com medo. Pensei: "Bom, vou fazer um tratamento e ficar boa".

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Passei uma semana fazendo um monte de exames, que indicaram ser um linfoma não-Hodgkin, que é um câncer das células linfáticas. Eu não tinha nem gânglios inchados, um sintoma clássico.

Esse linfoma geralmente aparece no estômago, no fígado ou no baço. Costuma ser dentro do abdome, dentro do corpo. E e o meu não, o meu apareceu externamente. O que por um lado foi bom, porque foi descoberto logo.

"Eu não achava que ia morrer"

As pessoas sempre me perguntam: "Você fez quimioterapia? Você ficou careca?". Lembro que, quando o médico falou que o tratamento consistia em quimioterapia, comecei a chorar porque não queria perder o cabelo. Depois, comentei com os meus pais: "Ah, o cabelo é o de menos".

Tudo foi falado na minha frente. Tudo era muito bem explicado. Em nenhum momento houve uma conversa particular dos médicos com os meus pais. Eu sabia de tudo, como ia ser, o que era, o que não era. Eu entendia a gravidade, sabia que era uma doença grave, mas acreditava que ia ficar bem. Eu não achava que ia morrer. Até porque só fui me sentir doente quando comecei o tratamento, que é muito agressivo, principalmente quando é feito em criança, que tem um metabolismo muito rápido e está em desenvolvimento.

"Foi durante o tratamento que comecei a me sentir mal, a me sentir uma pessoa doente"

Foi durante o tratamento que comecei a me sentir mal, a me sentir uma pessoa doente. Tinha enjoos e muita fraqueza. Tive de fazer transfusão de sangue várias vezes porque quimioterapia é um veneno, ela mexe com as suas células sanguíneas. Comecei a ter muita anemia. E não adiantava nem comer melhor, tinha que fazer transfusão. Mas eu entendia que isso era parte do tratamento. Lembro dos amigos dos meus pais muito preocupados comigo, me dando presentes, querendo me agradar, minhas tias também. Isso, às vezes, me fazia pensar: "Nossa, tô passando por uma coisa muito grave mesmo".

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Certa vez, fiquei muito anêmica. Minha hemoglobina foi para um nível muito baixo. Estávamos no elevador para ir até a clínica fazer transfusão de sangue e eu desmaiei. Isso foi meio chocante.

Tudo bem era bem chato. Os enjoos, passar mal, ficar horas na cadeira recebendo um negócio na veia… Os médicos não quiseram colocar um catéter em mim porque precisaria fazer uma cirurgia para colocar e outra para tirar. Eles achavam que no meu caso não valia a pena. Então, toda semana tinha que pegar uma veia nova e fazer exame de sangue. Era sempre aos domingos. Na segunda, eu recebia a medicação. Ou seja, pelo menos duas vezes por semana tinha que pegar uma veia. Tem uma hora que elas não aparecem mais e começam a ficar machucadas. Era difícil, doía.

"A imunidade cai muito com a quimioterapia. Tive caxumba e pedra nos rins"

A imunidade cai muito com a quimioterapia. No meio do tratamento, tive caxumba e pedra nos rins. Mas não estava relacionado e não mudou nada. E a quimioterapia dava muita afta, muita.

Na época, eu já gostava muito de comida japonesa e não podia comer nada cru. Não podia entrar em piscina, mar, não podia tomar sol. Tinha que ter muito cuidado pra não pegar infecção, por isso não podia fazer a unha, tirar a cutícula. Essas coisas me incomodavam. Essa coisa da piscina e do mar não foram só nos meses de tratamento, mas acho que durante dois anos. E era uma coisa que eu tinha muita vontade de fazer. Não me fazia chorar, nem nada, mas eu tinha vontade. Também queria que meu cabelo crescesse.

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Foto: arquivo pessoal

Os prognósticos sempre foram muito bons. Logo na primeira sessão os dois nódulos sumiram. Eu tive muita sorte, talvez por ter descoberto logo no início. Mas, na clínica em que eu fazia tratamento, a doença reaparecia em algumas crianças ou era resistente e não ia embora.

"Na época, não queria o estigma de ser uma criança pesada, sofrida"

Continuei indo à escola. Faltava bastante por problemas do tratamento, mas minha mãe evitou ao máximo que isso acontecesse. Passei de ano normal, não repeti nem nada. Lembro que existia uma certa curiosidade com relação a mim. "Ah, aquela menina que tá doente, fazendo tratamento". Era um pouco chato isso, mas nada que tenha me afetado profundamente. Dois anos depois eu acabei mudando de escola e não contei que tinha tido essa doença porque não queria ficar estigmatizada. Hoje, não é algo que eu escondo. Mas, na época, não queria o estigma de ser uma criança pesada, sofrida. Não queria. Eu queria ser uma criança leve, uma criança. E, por conviver muito com adultos, eu já tinha uma postura mais madura.

Por mais que eu tenha vivido uma vida normal dentro do possível, eu também sentia que uma parte da minha infância tinha sido perdida. Era um momento de transição. Lembro que menstruei um pouco antes de começar o tratamento e logo depois a menstruação parou. Era um período em que meu corpo estava mudando. Tive de tomar corticoide e fiquei muito inchada, meu corpo ficou diferente. Foram muitas transformações ao mesmo tempo.

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"Comecei a desenvolver um certo pânico em ter a doença de novo. Fiquei hipocondríaca, toda hora ia ao médico, achava que estava doente"

O tratamento duraria quatro meses, mas, por conta dessas fraquezas, acabou durando um semestre. Depois, passei mais dois anos tomando remédio via oral.

Eu não tinha medo. Não tinha. Em nenhum momento me passou pela cabeça que eu ia morrer. Comecei a ter uma consciência maior da gravidade de tudo isso quando eu era adolescente, anos depois. Começou a me cair essa ficha de "tive uma doença muito grave quando criança. E se ela voltar? E se ela acontecer de novo? Será que eu passaria por aquele tratamento tudo de novo?".

Tive até de fazer terapia. Comecei a desenvolver um certo pânico em ter a doença de novo. Fiquei hipocondríaca, toda hora ia ao médico, achava que estava doente de novo, ficava procurando nódulo na minha cabeça, no pescoço. Achava que podia ser câncer. Fazia um monte de exames. Fiquei um certo período muito noiada e paranoica com o fato de a doença voltar.

Mas ela nunca voltou.

Não reclamo de ter ficado doente. Claro que é algo que eu não gostaria de passar de novo, mas acho que aprendi coisas, amadureci, vivi coisas que outras crianças não viveram. Desenvolvi uma força interior, mesmo que tenha sido num grau muito subconsciente. Isso moldou minha personalidade, me preparou para outras coisas que passei na vida.

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