mitologia de quebrada
"Em que momento eu vejo que isso foi uma consequência? Eu tento colocar isso em direção do passado com o agora. Um cara dando grau de fuzil na mão é consequência do racismo." Ilustração: PV.
arte

Mitologia de quebrada: ilustrações afrofuturistas da história brasileira

Conheça o paraense que mistura reis da antiga África e meninos dando grau pela favela em suas narrativas.
16.1.19

Nas andanças pela rua, o artista Paulo Victor para uns minutos do seu dia e tira uma foto da paisagem periférica que vê e vivencia todos os dias: barrancos, casas de tijolos, asfaltos esburacados. No final do dia, munido de referências históricas, ele usa o contexto atual e urbano das periferias de Belém do Pará e do Rio de Janeiro como palco para narrar a história afro-brasileira.

Das fotos que tira no celular, ele fabrica uma narrativa artística que levanta questões e causos sobre grandes reis da antiga África, revolucionários e quilombolas. "Eu quero trazer um recorte histórico para que as pessoas tenham conhecimento sobre nosso povo, que tem muitas coisas apagadas", diz.

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E o contexto da quebrada, como plano de fundo dessas histórias, tem tudo a ver com isso. É como se fosse uma versão atualizada e afirmativa de toda uma narrativa que tentam deixar pra trás, mas que não pode ser esquecida. Desde as ruas de terra de Belém até as areias quentes das praias do Rio de Janeiro, PV coloca no papel tudo aquilo que vivencia como artista negro e periférico e aprende nos livros da Biblioteca Nacional no Rio, para traduzir pra molecada, que até então está em desvantagem e distante de narrativas formais e acadêmicas.

PV tem um traço desprendido das regras duras do classicismo que, somado ao cenário do cotidiano dos jovens das periferias, atrai e encanta aos olhos de quem raramente se vê nas pinturas tradicionais e nos livros escolares. A história que até então estava somente em isolados ambientes universitários, hoje é assunto nas conversas cotidianas dos vizinhos de Paulo e os lugares que sua arte chega.

A ideia de juntar um cenário atual com um personagem antigo e importante da história surgiu quando ele estava ouvindo uma discussão sobre figuras que foram apagadas pelo tempo. “Diante de vários reis e quilombolas que eu não fazia ideia de quem era, comecei a estudar e tentar contextualizar pra hoje em dia”, explica. Sempre que Paulo tira uma foto, ele pensa em incluir um personagem que consegue transmitir o que ele pensa diante aquela realidade.

No Instagram, a arte de PV tenta encaixar o contexto das periferias brasileiras com a história de segregação racial presente no mundo, como a intervenção que fez usando o Rei Haffon, que recebia armas e navios para incentivar a venda de escravos na África. "Até quando os de pele clara vão continuar nos armando em troca de seus interesses? Fazendo guerra para vender a paz, e quem morre ainda são os nossos", escreve.

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Rei Haffon, último rei do reino Ouidah. Ilustração: PV.

"O que eu faço não é perfeito, mas é muito meu", reflete PV, que saca que, às vezes, o olhar de um homem negro diante de uma situação ou contexto é o mesmo de outros que vivem a mesma realidade, e é daí que vem a identificação pelo trampo e pela mensagem que o ilustrador quer passar.

Há dois anos, ele saiu da cidade do Pará, Igarapé-miri, lugar-casa de artistas como Dona Onete, Pinduca, o rei do carimbó, e mestre Vieira, para tentar um espaço no mercado artístico no Rio de Janeiro. E graças às referências vibrantes e culturais do norte, o seu traço imperfeito, colorido e atual se encaixa perfeitamente no background das favelas do Rio.

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Ilustração: PV.

"Essa experiência e vivência amazônica está muito ligada ao meu trabalho", conta o artista, que se identificou como sujeito negro a partir da identidade visual que coloca em suas ilustrações. "Eu queria explorar isso, queria botar isso pra fora. Eu só frequentei meios brancos minha vida inteira e sempre fui o único negro da minha equipe de quase todas as agências que trabalhei. Então, esse descobrimento que eu tive, de me ver como negro, veio junto com uma vontade gigantesca de por isso pra fora, de me expressar." Por meio dessa auto identificação, PV acha importante explorar cada vez mais a história e os personagens africanos dentro de uma narrativa linear, do ato e consequência que transita entre o hoje e o amanhã.

Saque mais ilustrações do PV abaixo e também no Instagram.

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Releitura da obra de Debret. Ilustração: PV.

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Releitura de arte sacra do Anjo Renascentista. Ilustração: PV.

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