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saúde mental

Pressão pode levar jovens a tentar o suicídio

Os pais devem ensinar os filhos a fracassar.

Por Elisabete Cruz
09 Março 2018, 7:15am

Foto por Ricardo Graça/Jornal de Leiria

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

Quem lida de perto com crianças e jovens começa a ver cada vez mais estudantes com sintomas incapacitantes a recorrerem a médicos ou psicólogos. Na pediatria do Centro Hospitalar de Leiria, quase diariamente, há jovens que aparecem com ansiedade ou distúrbios gastrointestinais fruto do stress.

Se estes sintomas já são difíceis de suportar, pior serão as tentativas de suicídio, que são mais frequentes do que se possa imaginar. “Temos jovens que querem chamar a atenção, que administram drogas e que tentam o suicídio. São situações recorrentes. Muitas não passam de chamadas de atenção, mas que devem ser valorizadas por pais, docentes e profissionais de saúde.


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"Por vezes, há aqueles que cometem mesmo suicídio, como sucedeu com uma jovem de 15 anos, no ano passado”, revela Bilhota Xavier, director da Pediatria do Centro Hospitalar de Leiria. O pediatra alerta que maus comportamentos, rebeldes, ou comportamentos de oposição “não passam de pedidos de ajudas e os professores põem-nos fora das salas de aula ou penalizam-nos com dias de suspensão”.

“Ultimamente é cada vez mais frequente vermos crianças ansiosas por irem para a escola. De manhã têm vómitos, ficam stressadas. Tem a ver com a exigência dos pais, que querem que os filhos tenham 5 a tudo”, critica Bilhota Xavier.

As crianças precisam de brincar

Bilhota Xavier constata que os pais, com dificuldade de horário, “colocam as crianças na escola de manhã e, depois, têm os tempos livres, actividades não lectivas e há crianças com um regime de horário que ultrapassa as 40 horas semanais”. Para piorar a situação, “os pais ainda querem que façam mais deveres” quando chegam a casa, o que coloca em causa o bem-estar das crianças, que ficam sem tempo para brincar.

“As crianças precisam de brincar sem orientação de um adulto. Sob as suas próprias regras, onde idealizam jogos e desenvolvem a sua criatividade. Já basta a concorrência com os tablets. Vejo crianças com auto-estimas preocupantes por serem muito criticadas e obrigadas a uma competitividade extrema. O prazer em aprender é transformado numa situação de angústia”, acrescenta o especialista.

Por isso, aconselha a que pais e docentes olhem para as “coisas boas que cada criança tem e deixem de passar o tempo todo a criticar”. O mesmo tem de suceder com os mais velhos, a quem, “muitas vezes os pais transmitem as suas expectativas” e esperam que sejam aquilo que não foram. “Há jovens que não são eles que querem ir para Medicina”, salienta o especialista. A competitividade torna-se tão acérrima que “há jovens que eram amigos próximos e que deixaram de se falar porque se candidataram ao mesmo curso, ou seja, estão a competir pelo mesmo lugar”, revela ainda o pediatra.

O psicólogo Paulo Costa acrescenta que, não só Medicina como também Engenharia, são as áreas para que são ‘empurrados’ os excelentes alunos. “No fundo não se valorizam as competências emocionais e sociais, que deveriam ser trabalhadas muito a par do ensino formal”, explica Costa.

Jovens sentem culpa e incapacidade

Cristina Marques, psicóloga escolar, alerta ainda para “casos de jovens que têm crises de pânico, ansiedade e depressão profunda que os obriga a tomar anti-depressivos”. “São situações que têm aumentado nos últimos anos. Os miúdos sentem culpa e incapacidade. Não estão habituados a lidar com o fracasso e não sabem ter compaixão pelos seus erros. Eles não se permitem errar, porque é uma vergonha”, constata.

Paulo Costa entende também que, hoje, a forma como se lida com o fracasso é diferente. E explica: “As pessoas vão sendo cada vez menos resilientes, não é só em relação à escola, mas em relação a tudo. Vão-se perdendo uma série de competências que eram quase intuitivas nas gerações anteriores e que se construíam pela via da exposição às adversidades. Hoje, não se desenvolvem porque as pessoas não têm experiência para as desenvolver”.

Portanto, continua, “na escola, vai acabar por se reflectir em inaptidões e numa reacção adversa”. As pessoas encaravam o insucesso “como uma coisa que fazia parte da aprendizagem” e hoje faz-se “uma exacerbação desnecessária, o que depois leva a que o sentimento de frustração, inaptidão e incapacidade seja muito amplificado”.

“O cérebro desenvolve-se até aos 28 anos em termos daquilo que é o processo de maturação, mas não é equitativo para toda a gente. Se há miúdos que estão muito mais aptos para determinado tipo de competências há outros que não. A escola não atende a nada disso. Há miúdos que conseguem acompanhar até ao 9.º ano, mas chegam ao secundário e o patamar de exigência é cada vez maior e já não conseguem”, informa o psicólogo.

Paulo Costa aconselha ainda a ter-se em conta “o ritmo de cada aluno, não exacerbar o insucesso, porque faz parte do processo de aprendizagem e transmitir que, o que importa, é realmente o esforço e o empenho como força motriz da mudança e transformar aquilo que teria que ser feito num determinado tempo, em tempo extra”.

“O que não foi possível fazer num ano pode fazer-se em dois. Não importa como começa, importa como acaba. Temos exemplos de figuras notáveis que não tiveram um percurso escolar linear e que conseguiram obter sucesso. A escola não pode ser a única actividade em que o aluno se envolve”, frisa.Já Bilhota Xavier prescreve a sua receita: “temos de elogiar as crianças em todas as pequenas coisas. É mais fácil criticar do que valorizar, tanto na escola como em casa. Elogiar, elogiar, elogiar. Se o fizerem a sua auto-estima melhora e consequentemente têm melhores resultados escolares.”


Elisabete Cruz é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

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