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Como é confrontar Trump depois que seu melhor amigo morreu num atentado de escola

Sam Zeif emergiu do massacre do colégio de Parkland radicalizado, aparecendo na Casa Branca e na mídia para exigir ações.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Esquerda: Foto por Chip Somodevilla/Getty Images. Direita: Foto por Xinhua/Ting Shen via Getty Images.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Sam Zeif tinha acabado de terminar uma prova de matemática quando ouviu os tiros. Era o Dia dos Namorados, e o aluno de 17 anos do Colégio Marjory Stoneman Douglas em Parkland, Flórida, tinha combinado um piquenique mais tarde com a namorada. No começo, alguns dos garotos ao redor dele sugeriram que o barulho podia ser algum tipo de treinamento, ele disse – alguns achavam que os tiros não eram reais. Mas Zeif sabia que não, e se abrigou onde estava com os colegas enquanto mandava mensagem no celular para o irmão mais novo, que estava um andar acima dele.

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Zeif e seu irmão saíram com vida. Mas no dia seguinte – em seu aniversário de 18 anos – Zeif descobriu que seu melhor amigo, Joaquin Oliver de 17 anos, tinha morrido.

Desde que o atentado que matou 17 pessoas fez de Parkland a última cidade a testemunhar um espetáculo unicamente norte-americano de carnificina, a nação tem assistido os sobreviventes adolescentes tomarem o controle do debate sobre o controle de armas. Com raiva e devastados com as perdas de pessoas próximas – e de sua escola como uma zona ostensivamente segura – os adolescentes estão aparecendo na televisão, tuitando, organizando manifestações e fazendo lobby com legisladores. A mensagem deles é simples: isso não pode continuar acontecendo. E enquanto esses novos ativistas sabem que o Congresso norte-americano pode nunca conseguir garantir que pessoas perturbadas coloquem as mãos em armas letais, eles acreditam que podemos tornar isso muito mais difícil do que é hoje.

Ainda é cedo, mas há evidências de que tudo isso está tendo um efeito na consciência do público: A CNN divulgou uma pesquisa semana passada que mostrava que o apoio para leis mais severas de controle de armas de fogo chegava a 70%, a maior marca em décadas e bem acima dos 52% que a mesma pesquisa registrou logo depois do massacre num show em Las Vegas em outubro.

Junto com a vizinha Emma Gonzáles, cujo discurso apaixonado pelo controle de armas a tornou uma estrela desse novo movimento, Zeif está no meio da coisa toda, rodando pelo circuito dos jornais da TV a cabo. Ele também compareceu a uma audiência com Donald Trump na Casa Branca com os sobreviventes semana passada, onde pôde dizer na cara do presidente que impedir um maior controle sobre as armas, por fidelidade ao NRA ou qualquer outra razão, é simplesmente inaceitável. Falei com Zeif por telefone na sexta, quando ele fazia uma pausa para descansar de sua primeira semana como um ativista pelo controle de armas. Ele falou sobre sua transformação de um garoto normal relativamente apolítico para uma voz poderosa na nação sobre a praga devastando os EUA – e como ele está lidando com isso.

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VICE: Você pode me contar como foi o momento daquele dia em que você percebeu que tinha algo errado?
Samuel Zeif: Eu estava assistindo uma série na Netflix. Ouvi – achei que tinha ouvido, mas pude sentir através do prédio – sete ou oito tiros. Eu sabia o que estava acontecendo. Havia rumores nas últimas semanas de que algo assim podia acontecer – tivemos um treinamento de código vermelho para se um atirador entrasse no campus. E graças a Deus tivemos, porque de outro jeito o número de mortos seria o triplo.

Aí a fumaça da arma disparou o alarme de incêndio, e nos disseram para não sair do lugar. Meu professor manteve todo mundo calmo. Desligamos nossos celulares para deixar a sala na escuridão. No treinamento aprendemos a bloquear a janela da classe, para que ninguém pudesse nos ver.

Você conhecia o atirador, ou pelo menos tinha ouvido algo sobre ele?
Nunca falei com ele, mas já tinha visto ele pela escola e ouvido histórias. Frequentamos as mesmas escolas desde que eu tinha 12 anos.

Muita gente tem falado sobre todos esses sinais de alerta que o atirador estava dando. Essa falha em responder aos alertas é quase uma questão separada do controle de armas de fogo, uma falha no sistema.
Sim. Sabe, tem toda uma outra página em que já deveríamos estar. Não entendo como alguém pode ver essa pessoa entrando numa loja de armas e não ver que era alguém perturbado. Você consegue ver que essas pessoas têm problemas. Já tínhamos tido problemas com esse garoto. Não entendo como você vê o problema naquela pessoa e ainda vende uma arma para ela. Quanto mais uma AR-15. Qualquer arma.

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Sei que você ouviu sobre o anúncio do xerife dizendo que havia um policial armado no campus naquele momento, mas que ele não entrou.
Com certeza. Ele podia ter impedido isso. Ele não deveria esperar por reforço. Ele viu os seguranças desarmados correrem para salvar vidas enquanto ele ficou escondido atrás de um muro. [Nota do editor: Depois desta entrevista, foi noticiado que três policiais de Broward County ficaram fora da escola enquanto o atentado ocorria.]

Você conhecia ele ou já tinha visto ele na escola?
Eu tinha visto ele. Ele só queria causar problemas para os meus amigos e garotos que usavam cigarros eletrônicos na sala de aula. Quando realmente precisávamos dele, ele não nos protegeu. Ele só queria nos causar problemas, e foi exatamente isso que ele fez.

Você perdeu seu melhor amigo. Você pode falar sobre o momento em que percebeu isso e como isso te influenciou?
Éramos do mesmo time de basquete, então tínhamos um chat de grupo, e o pai dele estava no grupo porque é o treinador. Quando tudo aconteceu, rastreei meus amigos pelo Find My Friends. E o pai dele disse: “Alguém teve notícias do Joaquin?”. Vi que ele estava do outro lado da escola, então fiquei aliviado. Mas acho que deu algum problema no serviço porque rastreei ele mais tarde e o celular dele estava no prédio. E aí recebemos a notícia na manhã seguinte.

Tudo que estou fazendo é por ele. As pessoas veem tudo que estou fazendo e dizem que estou tendo impacto. Não consigo imaginar o impacto que ele teria se ainda tivesse uma voz. Acredito que é ele quem está tendo um impacto. Não acho que sou eu. Acho que é ele comigo.

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Antes de tudo isso, você pensava em si mesmo como um ativista ou uma pessoa engajada politicamente?
Nunca. Se eu via alguma coisa no Twitter, no Instagram ou no Facebook, eu dava minha opinião, mas eu achava que era como todo mundo. Ainda me sinto como todo mundo. Nunca me imaginei envolvido com política.

Violência armada era um assunto sobre o qual você ouvia muito localmente?
Não, eu só ouvia falar disso em outros lugares. Parkland é – era – uma das dez comunidades mais seguras da nação. Foi por isso que meu amigo Joaquin se mudou para cá. Os pais dele se mudaram da Venezuela porque aqui é mais seguro. Agora – não me sinto mais seguro.

Acho que as pessoas de fora do estado ouviram falar sobre a Flórida em termos de defender suas próprias leis e outros aspectos da cultura serem muito pró-armas. Você tinha uma consciência disso na sua parte do estado?
Não havia uma cultura de armas na minha comunidade. Meu pai teve uma pistola muito tempo atrás – 20 anos, antes de eu nascer. Ele tinha planejado uma experiência para meu irmão mais velho, Jacob, e eu nos últimos meses, mas não nos contou até recentemente. Ele queria nos levar a um estande de tiro. Minha mãe contou que ele a levou num estande muito tempo atrás. Ela deu um tiro e não conseguiu mais, porque viu o que aquilo podia fazer com uma pessoa. Não é certo.

Você teve a chance de ir para a Casa Branca e falar com o presidente diretamente. Assisti o encontro. Fiquei emocionado. Acho que muitas pessoas no país ficaram também. Houve muita conversa sobre quanto disso foi coreografado. Você sente que foi algo encenado em algum sentido, ou você pôde dizer o que queria?
Eu não sabia que iam filmar, quanto mais transmitir ao vivo. Não, não foi nada coreografado. Dissemos o que queríamos dizer. Não tive chance de me encontrar com meu grupo de Parkland antes, então não discutimos nada disso. Vi alguns deles com seu discurso escrito. Eu não tinha nada. Eu queria dizer algo que viesse do meu coração.

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Você ficou nervoso? Como foi antes de vocês poderem fazer as perguntas na Casa Branca?
Eu estava extremamente nervoso. Eu não tinha ideia do que esperar. Era muito tenso representar minha comunidade e me certificar de dizer as coisas certas naquela hora.

O que você achou da resposta do presidente?
Ele ficou sentado lá como uma criança, com os braços cruzados, concordando com a cabeça, dizendo “Estou te ouvindo”. Depois que a conversa começou, com palavras como “saúde mental” e “checagem de antecedentes” – ele não tinha que dizer nada disso, porque era óbvio. Isso já devia ter acontecido desde Columbine, antes. Não era o que eu queria ouvir. Eu quero mais controle para armas. Quero me sentir seguro em qualquer lugar. Ele está indo na direção certa com os bump stocks – é a direção certa, mas não é o suficiente. Por isso espero mais. Tudo leva tempo. Mas espero ver alguma movimentação logo.

O que você acha de como o presidente está se comportando desde o atentado no geral?
Entendo o ponto de vista dele como homem de negócios, de não querer recusar dinheiro. O NRA é uma organização livre para tentar fazer lobby. Mas o trabalho dele como líder do país é tomar a decisão certa, baseado no dinheiro ou não. Ele já é uma das pessoas de maior sucesso no mundo. Não entendo por que ele precisa de mais dinheiro deles. Ele poderia ter financiado sua campanha sozinho. Ele queria poupar seus milhões? Não entendo. [Nota do editor: O NRA gastou mais de US$ 11 milhões apoiando Trump e quase US$ 20 milhões se opondo a Hillary Clinton em 2016.]

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Obviamente você é a favor de controle de armas. Mas especialmente proibir fuzis de assalto? Quais você acha que são as soluções possíveis aqui?
Proibir os fuzis de assalto. Respeito totalmente a Segunda Emenda. As pessoas têm o direito de ter pequenas armas de fogo para se defenderem. Mas em Maryland, eles provaram que a Segunda Emenda não protege esses tipos de armas. Eles proibiram mais de 45 tipos de fuzil de assalto, incluindo a AR-15.

Tem muitas coisas que precisamos fazer. Não acho que idade é o problema. Quantas vezes adolescentes já deram festas com álcool, mesmo não podendo ter acesso a bebidas até os 21 anos? Se eles querem conseguir alguma coisa, eles conseguem.

Tenho certeza que você ouviu a mentira escrota de que os sobreviventes do atentado – pelo menos alguns deles – são atores.
Conheço Emma Gonzáles desde que tinha seis anos. Vejo David Hogg na escola todo dia há anos. Não entendo. Eu estava na Califórnia no mesmo dia em que ele estava com a minha família nas férias. As pessoas querem nos calar porque vamos fazer elas se calarem.

Te garanto que não somos atores de crise. Essa é a coisa mais ultrajante que ouvi, e ouvi muitas.

É estranho ter uma plataforma tão grande? Como você descreveria a sensação?
Estou honrado em poder falar. Como eu disse, estou fazendo isso pelo Joaquin. Se eu tivesse a opção, eu desistiria de tudo – toda essa mídia, toda essa atenção.

O que você espera que faça esse atentado diferente dos outros do passado?
As crianças de Sandy Hook, que descansem em paz, não tiveram uma voz. Eram só crianças. Seus amigos eram só crianças. Elas não sabiam o que fazer. Tenho certeza que elas estão traumatizadas até hoje. Os garotos de Columbine – aquela era uma época diferente. Como vimos com a mensagem que mandei para meu irmão, é muito mais fácil espalhar o aviso. Acho que é por isso que estamos aqui, porque muitas pessoas conseguem interagir conosco e ver sobre o que estamos falando. Os garotos de Columbine não tiveram essa chance. Era 1999 – eles podiam ter se manifestado, mas quem ia ver?

O que você diria para outros adolescentes sobre como eles podem se envolver, e o que você aprendeu fazendo isso? Que conselhos você tem para eles?
Fale alto. Continue forte. Mesmo se você está do outro lado do país, temos estudantes e famílias que sabem como é essa situação. Somos uma família agora. Não vamos parar até todo mundo estar seguro.

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