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Saúde

Este cientista está a deixar um insecto crescer nas suas próprias costas

“É meio estranho, consegues senti-lo a mexer-se, por isso brinco com a minha mulher e digo que 'está a dar pontapés', como se fosse um bebé dentro de mim”.

Por Mack Lamoureux
26 Março 2019, 2:44pm

As costas e a larva. Fotos via Phil Torres.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Para a maioria das pessoas, ter uma larva enterrada nas costas não seria motivo para comemorar. Mas, a maioria das pessoas não é entomologista (cientistas que estudam os insectos), e, aparentemente, alguns entomologistas adoram quando isto acontece. Segundo Phil Torres, um biólogo tropical e entomologista, é como se fosse um ritual de passagem para aqueles que estudam insectos.

Vamos ter que aceitar a palavra dele – é ele que está a deixar que uma varejeira (uma mosca parasita que planta os seus rebentos na doce carne humana e que em zonas como a Amazónia é conhecida como mosca-berneira) coma lentamente o interior das suas costas. “Conheço alguns entomologistas mais velhos que fizeram exactamente isto e que, quando eu ainda era universitário, me contavam histórias sobre a vez que apanharam uma larva de varejeira e esperaram para ver quanto tempo aguentavam ficar com ela no corpo”, explica Torres à VICE. E acrescenta: “Podes dizer que é uma espécie de ritual de passagem”.

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Torres diz que deve ter sido picado pelo insecto no início de Março – alguns dias depois de fazer 33 anos. Não é totalmente de espantar que o cientista tenha uma pequena criatura de pesadelo nas costas, já que Torres passa muito tempo na floresta tropical. Viveu dois anos na Amazónia, onde trabalhou em investigação e conservação – e fez algumas descobertas importantes – e já trabalhou em vários programas educativos para a televisão. O seu actual projecto atual é o canal do YouTube The Jungle Diaries e planeia fazer um vídeo da sua experiência com a varejeira.

Ainda assim, depois de tanto tempo passado na selva, é a primeira vez que apanha uma destas larvas – algo que, na verdade, é bastante raro, portanto não te metas já a cancelar a viagem que tens marcada para a Amazónia por causa desta história. E ele está a curtir.

Depois de perceber que não era “uma borbulha estranha”, escreveu uma publicação no Twitter empolgado com descoberta e, como diz, recebeu “muitas respostas de colegas entomologistas dizendo-lhe que estavam com inveja”. E não é mentira, uma pessoa tuitou dando-lhe os parabéns e perguntando-lhe quando era “baby shower”. Outra garantiu: “Estou há anos a tentar apanhar uma”. E outra desabafou: “Que sorte!!! Há 10 anos que quero uma!”.

Decidi ligar a Torres para lhe perguntar o que raios se passa na comunidade de entomologia, como é ter uma pequena criatura devorando lentamente suas costas, e se ele pretende levar essa história até o fim.

VICE: Então... para começar, o que é uma mosca-varejeira?
Phil Torres: A varejeira é um insecto grande que tem uma história natural muito interessante. Temos uma versão nos EUA que é igualmente nojenta – mas essa espécie geralmente não afecta humanos. Nos Trópicos tens o que se chama de mosca-berneira e é algo que vês muito quando, por exemplo, trabalhas com macacos. Às vezes os macacos têm umas pústulas vulcânicas na pele e é geralmente aí que são encontradas, mas os humanos também podem apanhá-las.

Bem, agora que sabemos um pouco mais sobre o insecto, podes contar como é que acabaste com uma larva no corpo? Acho que usaste o termo “um bebé nas costas”?
A mosca-berneira é interessante, porque a criatura não tende a deixar ovos em pessoas, a mãe na verdade apanha um mosquito fêmea, prende-o e deixa os ovos no mosquito. Agora, um desses mosquitos pousou nas minhas costas e o calor da minha pele fez com que os ovos chocassem e as larvas rastejassem pela minha pele, algo em torno de uma dezena, tentando encontrar um ponto de entrada. Parece que uma delas encontrou o buraco da picada do mosquito.

Depois, a larva enterrou-se nele e começou a comer. Foi assim que acabei com uma. Não é segredo que entomologistas procuram oportunidades como esta. Vemos isto quase como uma medalha de honra. No mundo dos trópicos há duas conquistas: ser picado por uma formiga-cabo-verde e apanhar uma destas larvas. Consegui a picada da formiga há alguns anos. É a picada mais dolorosa do Mundo, dói demasiado, mas é uma experiência interessante – podes aprender mais sobre a natureza que estudas de modo muito íntimo, por assim dizer. Sempre imaginei como seria ter uma varejeira. Claro que esperava que fosse num braço, um lugar mais conveniente para observar. Esta larva está perto do ombro nas minhas costas, portanto é mais difícil, mas já arranjei um tripé e uma câmara para documentar tudo.

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Uma larva (tipo a que está nas costas de Phil). Foto via Wikimedia Commons.

Espero ficar com ela o máximo de tempo que puder. Já ouvi dizer que é mais fácil falar do que fazer, porque pode ser bastante doloroso, dar picadas. Umas duas ou três vezes por dia parece que estás a ser picado por uma abelha. A dor dura um minuto. É meio estranho, consegues sentir quando se mexe, por isso brinco com a minha mulher e digo-lhe que “está a dar pontapés”, como se fosse um bebé dentro de mim.

Meu Deus.
Sim! Ela mexe-se. Vendo fotos da larva, nota-se que tem uns espinhos nas costas. E é esse o problema, não se pode puxar porque a larva crava esses espinhos na carne. Então, quando se move, esses espinhos de alguma forma puxam-te os nervos. É bastante doloroso às vezes.

Bem, não vou dizer que entendo totalmente essa ideia, mas, como disseste, é tipo uma medalha de honra? Do género quando fazes uma viagem do caraças nas férias e regressas com uma tatuagem ou algo assim?
Exacto! Tipo isso. Como entomologistas que passam muito tempo nos Trópicos e acabam por apanhar uma larva de varejeira. Quando vês alguém com uma pensas, tipo, “respeito”. Isso significa que a pessoa passou anos na floresta e fez coisas suficientemente malucas para acabar numa área onde podes apanhar uma. É quase inédito alguém conseguir na primeira viagem. É possível, mas geralmente precisas de muito tempo para que um mosquito aleatório deixe os seus ovos em ti e a larva consiga entrar.

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Nojento, mas uma parte primitiva de mim entende.
Não é? A minha mulher já não aguenta, porque sempre que falo disso, fico de sorriso nos lábios, não consigo evitar. É emocionante! É uma experiência muito interessante que posso ter com os animais que estudo. É muito bom ter esta coisa dos trópicos nas costas enquanto ando pelo Brooklyn. O ideal seria deixá-la crescer até sair sozinho. Umas quatro ou cinco semanas para amadurecer o suficiente – tal como a borboleta precisa de uma crisálida. Esta larva não faz isso dentro de ti. O que faz é sair e cavar o chão para o fazer aí. Vai doer muito quando estiver a sair, portanto vou saber que está a acontecer e espero apanhá-la, colocar na terra e esperar que o bebé se torne um adulto.

Já tiveste insectos anteriormente? E se sim, achas que terás uma conexão mais forte com este? Do género, vais olhar para ele e pensar “isto saiu de mim”?
Sim, claro. Crio insectos desde criança, besouros, borboletas. Tive uma tarântula de estimação. Mas, isto é diferente. No outro dia, falei com uma grávida e consegui fazer com que ela concordasse que estou a passar por 0,1% do que uma mulher passa para ter um filho; disse-lhe “ouve, sinto-a a dar pontapés às vezes, ela reage a diferentes actividades que estou a fazer, ela é literalmente feita da minha carne e sangue” e ela respondeu “OK, dou-te essa pequena percentagem”. Sei que isto é questionável, mas esta é a única vez que eu, como homem, posso experimentar algo parecido com dar à luz.

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Há algum efeito colateral negativo, ou só a dor?
Dor é a principal. Há casos raros em que se pode transformar numa infecção pior. As pessoas dizem que têm dificuldade para dormir, portanto pode acabar por ser um desafio psicológico tanto como um desafio de dor, se não conseguir dormir e a larva me incomodar constantemente. Estou a ser cuidadoso. Se parecer que está a infectar ou a piorar, vou ao dermatologista da minha rua e peço-lhe para remover a larva cirurgicamente.

Há muitos remédios caseiros para isto. Algumas pessoas dizem para soprar fumo de cigarro, porque a nicotina é um insecticida e dizem que isso pode fazer com que saia. Algumas pessoas cobrem o buraco com vaselina ou fita adesiva por 24 horas, até o bicho se agarrar a ela com os tubos esféricos por onde respira. Quando essa parte sai da pele, podes pegar-lhe e tentar remover a larva. Outros remédios, tipo colocar carne no buraco, não recomendaria. Sendo que a ideia é que o bicho vai rastejar para a carne, mas ouvi falar de pessoas que apanharam infecção estafilocócica por colocarem carne crua numa ferida.

Provavelmente, vou deixar a coisa desenvolver-se por si e, se se tornar muito doloroso, procurar um médico para remover da forma correcta. Mas, o ideal é que daqui quatro semanas eu tenha uma linda varejeira em casa e a dor passe.

Achas que as varejeiras são incompreendidas? Porque é que a maioria das pessoas vai ver isto e dizer "que nojo"?
Vejo-as como um insecto fascinante, com uma história natural muito interessante. O facto de não porem ovos em ti, mas usarem um mosquito e deixarem o calor da pele chocar os ovos, é fascinante. Acho mesmo muito fixe e é por isso que vou deixar a larva e fazer um vídeo sobre ela, porque quero que as pessoas conheçam esta história.

Não é como se esta coisa fosse passear pelo meu corpo e acabar no cérebro, como outros parasitas podem fazer. Fica no seu sítio. Quando precisa de respirar, coloca o seu respirador esférico para fora. Tipo, quando estou a tomar banho e a água passa pelo buraco, o bicho não consegue respirar, certo? É quando sinto um pouco mais de dor, porque está a colocar o respirador para fora. É um animalzinho catita a viver dentro de mim... é o meu pequeno.

A entrevista foi editada para melhor entendimento.


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