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O que os indígenas pensam sobre quem se fantasia de índio no Carnaval do Brasil

"Chega de hipocrisia e de dizer que é homenagem".

Por Marie Declercq e Julia Reis
03 Março 2019, 11:57am

Os indígenas David Karai Popygua (à esq. / Foto: Felipe Larozza/VICE), Katú Mirim (no meio / Foto: Muriel Xavier/reprodução/Facebook) e Yuninni Terena (Foto: reprodução/Facebook). 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Muito se discute (e se reclama) sobre as fantasias que pegam mal no Carnaval brasileiro. Numa época em que a criatividade e o bom humor deveriam reinar, muitos foliões ainda optam por sair à rua com adereços e fantasias que podem ofender muitas pessoas – especialmente as "maiorias minorizadas" deste país. Sair mascarado “de índio” no Carnaval era, outrora, encarado como algo corriqueiro, mas hoje em dia não há mais desculpa para alegar que se trata de uma homenagem ou que é apenas uma fantasia.

A população indígena no Brasil foi fadada à extinção desde a chegada dos portugueses que sistematicamente exploraram, violaram, descaracterizaram e extinguiram diversas etnias. Da colonização até ao século XXI, a causa indígena continua a ser uma das mais urgentes no país e quem tem raízes indígenas ainda luta para sobreviver à constante ameaça de grileiros, latifundiários, autoridades e da própria população cheia de preconceito.

Portanto, sair fantasiado de “índio” não é uma homenagem ou apenas uma piada. É a maior prova de insensibilização para com as raízes do próprio país. Para saber mais sobre o assunto, pedimos a indígenas do Brasil para nos darem a sua opinião sobre a fantasia que o pessoal não s cansa de usa a cada Carnaval. Vê abaixo.

David Karai Popygua, 31, Aldeia Tekoa Ytu - São Paulo

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Foto: Reprodução.

"Estamos num momento de muitos retrocessos por parte do governo. As afirmações do novo presidente têm inspirado e também motivado muitos crimes de ódio que estão a acontecer no Brasil. Hoje, nós que somos indígenas, temos a sensação de que estamos a ser caçados, perseguidos e atacados em todos os lugares.

Temos o exemplo do caso do cacique Francisco de Souza, de 53 anos, que foi assassinado esta semana com cinco tiros dentro de casa, ou o caso do familiar indígena de São Carlos que foi brutalmente atacado por três homens e acabou por ter o braço amputado.


Vê: "O Carnaval de Máscaras de Leme, no Brasil"


Ou seja, nós, que somos indígenas, estamos com receio de sair para este carnaval por causa desses ataques. Portanto, estamos a viver momentos muito tensos. Enquanto as pessoas estão a curtir o Carnaval vestidas de índio, nós estamos a ser atacados nas nossas aldeias e a perder os nossos direitos. Ser um indígena hoje não é motivo de festa e sim de luta e de resistência. Os povos indígenas estão a ser mortos e atacados em todos os sentidos".

Yuninni Terena, 21 anos, Aldeia Limão Verde - Mato Grosso do Sul

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Foto: Arquivo Pessoal.

"Nós lutamos contra a caracterização como indígena no Carnaval e em bailes de fantasia, porque essa é também uma das formas de opressão vividas pelos povos originários, pois pegam em elementos sagrados da nossa cultura, enraizados com fortes significados, pinturas e grafismos com definições, pré determinados para rituais ou momentos específicos e usam-nos como fantasias, adereços de beleza e simples acessórios para diversão.

Legendam as suas fotos com "índio por um dia" ou "virei índio" e esquecem-se deles no resto do ano, ou não se importam com as mazelas sofridas pela etnia e nem querem somar forças e juntar-se à luta.

Proponho o velho exercício "coloca-te no meu lugar". Pegar nos nossos símbolos e desrespeitar desta maneira seria o mesmo que alguém se caracterizar com elementos do cristianismo e sair por aí a divertir-se".

Katú Mirim, 32 anos, Boe - São Paulo

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Katú é rapper e youtuber e foi uma das activistas que levantou o movimento #Índionãoéfantasia em 2018. Foto: Reprodução/Facebook.

"A fantasia de 'índio' é um assunto polémico. Mas, antes de pensar em qualquer discussão sobre o assunto, vamos esclarecer desde já: não estou a falar sobre apropriação cultural e sim sobre racismo.

Porque é que a fantasia é racista? Partindo da ideia de que a população nos conhece como 'alegoria nacional', acham que somos atrasados, selvagens, primitivos e que não sabemos falar bem português, porque é que não é racista? Não é okay pintar algo na cara, colocar um cocar, falar 'mim', vestir uma fantasia de 'índio' enquanto nós, indígenas, somos invisibilizadas, assassinadas e violadas. Para mim e muitas etnias, o cocar é um símbolo de resistência. É sagrado e não deve ser usado de qualquer maneira. Quando eu vejo a fantasia, a réplica barata de um cocar, só penso que esse racismo é aplaudido enquanto o meu povo morre.

Chega de hipocrisia e de dizer que é homenagem, sinceramente, há formas óptimas de nos homenagearem... Principalmente quando falam sobre nós de maneira realista e não caricaturada. Quando dão visibilidade, quando fazem trabalhos pedagógicos que trabalham com as nossas questões, quando se tem um processo educativo... Não é preciso que te mascares de nós para nos homenagear.


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