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Saúde

Pessoas com doenças graves falam sobre os sintomas que não deveriam ter ignorado

Se achas que podes estar doente, fica com esta ideia: vai ao médico, pá. Já!

Por Ruth Faj
06 Março 2018, 5:13pm

Foto de estoque de um cara espirrando. Foto: Andriy Popov / Alamy Stock Photo.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Ignora que vai passar - esta costuma ser a abordagem de muitas pessoas face a sintomas vários e àquela comichão estranha que, ultimamente, têm sentido nas extremidades. Obviamente, não é uma abordagem espectacular. Se achas que tens algo que não está bem, vai ao médico. Pode ser a diferença entre uma recuperação rápida e algo muito pior. Claro que esta é, também, a razão para muitos de nós escolhermos não fazer nada: negação é mais fácil que aceitação.

“Aguentar os sintomas [sem saber que doença tens], pode parecer uma coisa do género 'ignorância é uma benção'”, explica Julie Scheiner, psicóloga especialista em terapia comportamental. E acrescenta: “As pessoas têm medo do que não entendem, portanto, ignorar os sintomas é mais fácil que lidar com o potencial de sofrimento que pode advir de alguma coisa que pode ser pior. É um mecanismo de defesa”.


Vê: "Matar o cancro"


Falei com quatro pessoas que fizeram exactamente isso e depois foram diagnosticadas com doenças graves.

Christine Coppa, editora de investigação, cancro da tiróide

"Para ser honesta, tinha alguns sintomas, mas só quando a minha voz ficou rouca, na Primavera de 2014 – com uma tosse a acompanhar –, é que comecei a reparar mais no que estava a sentir. Não sentia dores, portanto achei que era alguma alergia, do tipo sazonal. Estava sempre no campo de beisebol com o meu filho, ou no parque, porque o Jack é uma criança muito activa.

Foi um choque que me tirou o fôlego quando o médico disse que sentia um caroço no meu pescoço. E, depois de todos os testes, agulhas e raios-X, quando ouvi a palavra com C pareceu-me surreal, como se não fosse realidade. Como é que podia? Aconteceu tudo tão rápido que não tive tempo de processar – mas, o meu filho estava sempre na minha cabeça. Sentia culpa por estar longe do meu menino de cinco anos. Graças à minha família, que me deu muito apoio, Jack ficou salvaguardado e eu fui directamente para o meu plano de tratamento.

A tristeza veio depois da minha primeira ronda de radiação, quando estava a tomar Levotiroxina, um medicamento que vou ter que tomar o resto da vida. Estava de luto pela minha antiga vida. A vida com a qual estava acostumada. Foi então que fui apanhada por uma onda de raiva. Raiva com o meu peso flutuante, com o estar sempre cansada; num minuto estava com calor, no outro com frio. Com o meu humor que variava muito – e como isso estava a afectar as pessoas mais próximas de mim. Cancro da tiróide não é algo que seja divertido. E não é OK dizerem que é o melhor cancro para se ter, ou que é um 'cancro bom'. Toda a minha vida mudou.

Não fui ao médico porque estava doente; fui para fazer o meu check-up anual. Se tivesse ido ao médico quando a rouquidão e a tosse persistiram, o tumor não teria crescido vários centímetros. Cobriu todo o lado direito da minha glândula tiróide. Sinto que, se tivesse descoberto mais cedo, pelo menos metade da minha tiróide poderia ter sido poupada e talvez não precisasse de passar pela radiação e ter que tomar medicamentos o resto da vida. Mas, claro, não podes pensar “e se”; estou grata por estar viva.

O meu conselho é: vai ao médico. Também aconselho as mulheres a examinarem o pescoço com regularidade. Se o tivesse feito, teria de certeza sentido o caroço. Sentiria algo como uma uva dura. Se me visse ao espelho quando estivesse a falar ou a engolir, teria visto o caroço no meu pescoço a mexer – mas, ninguém o faz".

Nicole Green, vice-directora do Gabinete de Saúde da Mulher dos EUA (OWH), doença de Lyme

"Lembro-me que era manhã de domingo de Páscoa, de 2007. Acordei, mas não conseguia mexer-me. Nada se movia do pescoço para baixo. Pode parecer estranho, mas não fiquei com medo na altura – achei que estava com alguma gripe. Lentamente, fui ficando mais doente, mas não achava que fosse alguma coisa grave. Finalmente, acabei por ir ao médico. Fiz exames para lúpus, fibromialgia, síndrome de fadiga crónica, esclerose múltipla, anemia falciforme e outras coisas. Deu tudo negativo, excepto o exame para doença de Lyme.

Nunca tinha ouvido falar da doença. Disse a mim própria e ao meu médico que não era possível. 'Não sou uma pessoa de espaços abertos', afirmei. A negação inicial foi forte, até me lembrar que, seis anos antes, um amigo tirou-me uma carraça da cabeça e atirou-a para a sanita. Nem vi o bicho - o que mostra como a coisa era inconsequente na época.

A doença de Lyme é uma infecção bacteriana. Desenvolve-se a partir da picada de uma carraça infectada. Sintomas mais sérios podem desenvolver-se semanas, meses e até anos depois se a doença de Lyme não for diagnosticada mais cedo e foi isso que me aconteceu. Sintomas como dores de cabeça severas, artrite e dor nas articulações, tonturas, dor nos nervos e problemas de memória são apenas algumas das coisas que os infectados podem enfrentar Depois do diagnóstico, senti-me vazia e disseram-me que estava com uma depressão. Fazia sentido – via o mundo à minha volta cinzento.

Receitaram-me antibióticos imediatamente. Os medicamentos baixavam-me a energia; poucos dias depois já não conseguia ir trabalhar. Sair à rua deixava-me exausta. Durante quase um ano perdi muita coisa. Tempo com a minha família e amigos, aniversários, comemorações e despedidas de pessoas que faleceram. Aquele ano foi um inferno. Mas, só quando comecei a tentar ter o meu segundo filho é que descobri que a doença de Lyme afecta a fertilidade. Tive duas gravidezes ectópicas. Só com a ajuda da minha rede de apoio consegui superar tudo isro. Tive que mudar drasticamente a minha dieta e os meus níveis de energia nunca mais foram os mesmos, mas quando me sinto bem, sinto-me bem.

Sei que há por aí gente a sofrer e não sabe porquê. Se achas que há alguma coisa errada, não desistas. Pesquisa, pesquisa e pesquisa, depois procura um médico. Pede uma segunda opinião se for preciso, uma terceira. Não deixes que a tua dor e angústia sejam ignoradas. Sei que é difícil manteres-te optimista – confia em mim, já passei por isso – mas tenta, por favor. E é fundamental ter uma rede de apoio forte, seja a tua família, amigos ou grupos de apoio".

Max Tuck, autor de "Fatigue Solution", síndrome de fadiga crónica e vírus Epstein Barr

“'Porquê, porque é que ignorei a minha exaustão?', costumava perguntar-me com frequência. É isso que acontece quando és diagnosticado com uma doença que te altera a vida como a conheces. Para mim, foi porque estava ocupado. Ocupado a trabalhar. Não era altura de estar cansado. Por isso, continuei, mesmo com o meu corpo a dizer-me o contrário.

Quando o meu médico finalmente me disse que tinha síndrome de fadiga crónica e Vírus Epstein Barr, decidi que não ia enfiar a cabeça na areia – ia lutar. Coloquei de lado o medo e o choque iniciais que engolfaram o meu corpo e concentrei-me em melhorar. No meu caso, é difícil dizer se, se tivesse ido ao médico antes, o meu prognóstico seria diferente, porque demorou algum tempo até o meu desperdício muscular se tornar aparente e as mudanças que ocorriam nas células brancas aparecerem. Mas, se tivesse descoberto mais cedo sobre o VEB, teria começado a trabalhar arduamente para melhorar o meu sistema imunológico. Ainda assim, estou grato por ter descoberto quando descobri.

O Vírus Epstein Barr pode matar: febre glandular e vários tipos de cancro já lhe foram associados. Disseram-me que o vírus era incurável. Ouvir uma coisa destas parece uma facada no peito. Enquanto estava sentado no consultório do meu médico, a ouvir as palavras que mudaram a minha vida - “Infelizmente tens poucas células brancas restantes no teu corpo e tens de entender que a maioria das pessoas nunca se recupera totalmente disto” - a minha cabeça começou a girar. Ouvi sobre as experiências cada vez mais debilitantes de pessoas diagnosticadas com a condição; muitas acabam em cadeira de rodas. Mas não eu, prometi a mim próprio.

Se tens um sintoma – qualquer sintoma – vai ao médico. E rápido. O tempo é essencial. Mas, nunca acredites que nada pode ser feito, mesmo se o médico te disser isso. O corpo é uma máquina maravilhosa".

Charis, endometriose

"Endometriose é quando as células, como as do teu útero, são encontradas em outras partes do teu corpo. Todos os meses essas células agem da mesma maneira que aquelas no teu útero – acumulando-se, depois desfazendo-se e sangrando. Ao contrário das células no teu útero que abandonam o teu corpo na forma de menstruação, o sangue não tem para onde ir. Nem toda a gente experimenta dor crónica ou infertilidade – pelo menos pelo que li.

Eu tinha as piores dores na menstruação. Parece óbvio que devia ter procurado um médico, certo? Só que achava que era normal – uma parte normal e dolorosa de ser mulher. Acontece que não sentia dores tão fortes na menstruação quando era adolescente, mas risquei isso como coisas da vida, entendes? Todavia, todos os meses as dores tornavam-se mais fortes e duravam mais. Era tão debilitante que comecei a faltar muito ao trabalho. Andei três anos a insistir com médicos para fazer uma laparoscopia.

Sei que dizem para nunca procurares os teus sintomas na Internet, mas, mesmo assim, fiz a minha própria pesquisa e conclui que tinha endometriose. E estava certa. No fundo, conhecemos o nosso corpo, sabemos quando há algo errado. Três anos de tormento pode parecer muito, mas em média, mulheres [no Reino Unido] podem esperar entre sete a oito anos por esse exame. Passei por todos os estágios de luto. A negação, a raiva – tudo. Basicamente perdi a minha antiga vida. Os últimos anos foram infernais, mas agora estou a tentar aceitar e focar-me em melhorar.

Ter sido diagnosticada cedo pode ter ajudado, mas, por melhor que seja o sistema de saúde pública no Reino Unido, não acho que me teriam aceite a laparoscopia se os meus sintomas não tivessem piorado muito mais. No final de contas, quanto mais demora a seres diagnosticada, mais altas são as probabilidades de infertilidade e piores as dores se tornam. Se o meu diagnóstico tivesse sido feito um pouco mais tarde, os meus ovários poderiam ter sido seriamente prejudicados, assim como outras partes do corpo onde o tecido estava a comportar-se de maneira anormal.

Não interessa quão mundanos os vossos sintomas são, chateiem o médico. Se realmente achas que há algo que não está bem, não deixes que os teus sintomas sejam desconsiderados. Se mesmo assim o médico o fizer, procura uma segunda opinião. Demora e é muito frustrante, mas é algo que tem de ser feito. A tua saúde – a tua vida – é importante".


@Shaydakisses

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