Saúde

Pessoas com doenças sérias falam sobre os sintomas que não deveriam ter ignorado

Se você acha que pode estar doente, aqui vai uma ideia: procure um médico, bicho.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Foto de estoque de um cara espirrando. Foto: Andriy Popov / Alamy Stock Photo.

Matéria originalmente publicada na VICE UK.

Ignore e vai passar — essa costuma ser a abordagem que muita gente tem para sintomas, males nascentes e a coceira estranha que você está sentindo ultimamente nas extremidades. Obviamente não é uma abordagem lá muito boa. Se você acha que tem algo errado, vá ao médico, pode ser a diferença entre uma recuperação rápida e algo muito pior. Claro, essa é a razão para muitos de nós escolherem não fazer nada: negação é mais fácil que aceitação.

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“Aguentar os sintomas [sem saber que doença você tem], pode parecer uma coisa de 'ignorância é uma benção'”, explica a Dra. Julie Scheiner, psicóloga especialista em terapia comportamental. “As pessoas têm medo do que não entendem, então ignorar os sintomas é mais fácil que lidar com o potencial de sofrer com alguma coisa que pode ser pior. É um mecanismo de defesa.”

Falei com quatro pessoas que fizeram exatamente isso, depois foram diagnosticadas com doenças sérias.

Christine Coppa, editora de pesquisa, câncer de tireoide

Eu tinha alguns sintomas, sendo honesta, mas quando minha voz ficou rouca na primavera de 2014 – com uma tosse acompanhando – comecei a reparar mais no que estava sentindo. Eu não sentia dor, então achei que era alguma alergia, do tipo sazonal. Eu estava sempre no campo de basebol com meu filho, ou no parque, porque o Jack é uma criança muito ativa.

Foi um choque que me tirou o fôlego quando meu médico disse que sentiu um caroço no meu pescoço. E aí, depois de todos os testes, agulhas e raios-X, quando ouvi a palavra com C pareceu surreal, como se não fosse realidade. Como podia? Tudo aconteceu tão rápido que não tive tempo de processar – mas meu filho estava sempre na minha mente. Eu sentia culpa por estar longe do meu menino de cinco anos. Mas graças à minha família, que me deu muito apoio, o Jack foi bem cuidado e eu fui direto para o meu plano de tratamento.

A tristeza veio depois da minha primeira rodada de radiação, quando eu estava tomando Levotiroxina, uma droga que vou ter que tomar para o resto da vida. Eu estava de luto pela minha antiga vida. A vida com a qual eu estava acostumada. Aí fui lavada por uma onda de raiva. Raiva com meu peso flutuando, com estar sempre cansada; num minuto eu estava com calor, no outro com frio. Com meu humor que variava muito – e como isso estava afetando as pessoas mais próximas de mim. Câncer de tireoide não é divertido. E não é OK dizerem que é o melhor câncer para se ter, ou um “câncer bom”. Minha vida inteira mudou.

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Não fui ao médico porque estava doente; fui para meu check-up anual. Se eu tivesse ido ao médico quando a rouquidão e a tosse persistiram, o tumor não teria crescido vários centímetros. Ele cobriu todo o lado direto da minha glândula tireoide. Sinto que se tivesse descoberto mais cedo, pelo menos metade da minha tireoide poderia ter sido poupada e talvez eu não precisasse passar pela radiação e ter que tomar remédio para o resto da vida. Mas você não pode ficar pensando “e se”; estou grata por estar viva.

Meu conselho é: procure um médico. Também aconselho as mulheres a examinar o pescoço rotineiramente. Se eu tivesse feito isso, eu teria sentido o caroço com certeza. Eu sentiria algo como uma uva dura. Se eu olhasse no espelho quando estivesse falando ou engolindo, eu teria visto o caroço no meu pescoço se mexendo – mas ninguém faz isso.

Nicole Green, vice-diretora do Escritório de Saúde da Mulher dos EUA (OWH), doença de Lyme

Lembro que era a manhã do Domingo de Páscoa de 2007. Acordei mas não conseguia me mexer. Nada se movia do pescoço para baixo. Pode parecer estranho, mas não fiquei com medo na hora – achei que estava com alguma gripe. Fui lentamente ficando mais doente, mas não achava que era nada sério. Finalmente, procurei meu médico. Fiz exames para lúpus, fibromialgia, síndrome de fadiga crônica, esclerose múltipla, anemia falciforme e outras coisas. Deu tudo negativo, exceto o exame para doenças de Lyme. Eu nunca tinha ouvido falar dessa doença. Eu disse a mim mesma e ao meu médico que não era possível. “Não sou uma pessoa de espaços abertos”, eu disse. A negação inicial foi forte, até eu lembrar que, seis anos antes, um amigo tinha tirado um carrapato da minha cabeça e jogado na privada. Eu nem tinha visto o bicho – isso mostra como a coisa era inconsequente na época.

Doença de Lyme é uma infecção bacteriana. Ela se desenvolve da picada de um carrapato infectado. Sintomas mais sérios podem se desenvolver semanas, meses e até anos depois se a doença de Lyme não for diagnosticada mais cedo, e foi isso que aconteceu comigo. Sintomas como dores de cabeça severas, artrite e dor nas juntas, tontura, dor nos nervos e problemas de memória são apenas algumas das coisas que os infectados podem encarar. Depois do diagnóstico, me senti vazia e me disseram que eu tinha depressão. Fazia sentido – eu via o mundo ao meu redor cinza.

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Imediatamente me receitaram antibióticos. Os remédios baixavam minha energia; em alguns dias eu não conseguia ir trabalhar. Sair na rua me deixava exausta. Por quase um ano perdi muita coisa. Tempo com minha família e amigos, aniversários, comemorações e adeus para pessoas que faleceram. Aquele ano foi um inferno. Mas só quando comecei a tentar ter meu segundo filho que descobri que a doença de Lyme afeta a fertilidade. Tive duas gravidezes ectópicas. Foi só com ajuda da minha rede de apoio que superei tudo isso. Tive que mudar drasticamente minha dieta e meus níveis de energia nunca mais foram os mesmos, mas quando me sinto bem, me sinto bem.

Sei que tem gente por aí sofrendo e não sabe por quê. Se você acha que tem algo errado, não desista. Pesquise, pesquise e pesquise, depois procure um médico. Peça uma segunda opinião se for preciso, uma terceira. Não deixe sua dor e angústia serem ignoradas. Sei que é difícil se manter otimista – confie em mim, já passei por isso – mas tente, por favor. E é fundamental ter uma rede de apoio forte, seja sua família, amigos ou grupos de apoio.

Max Tuck, autor de 'Fatigue Solution', síndrome de fadiga crônica e vírus Epstein Barr

“Por quê, por que ignorei minha exaustão?”, eu costumava me perguntar com frequência. É isso que acontece quando você é diagnosticado com uma doença que altera a vida como você conhece. Para mim, foi porque eu estava ocupado. Ocupado trabalhando. Não era hora de ficar cansado. Então continuei, mesmo com meu corpo me dizendo o contrário.

Quando meu médico finalmente me disse que eu tinha síndrome de fadiga crônica e vírus Epstein Barr, decidi que não ia enfiar a cabeça na areia – eu ia lutar. Coloquei o medo e o choque iniciais que engolfaram meu corpo de lado e me concentrei em melhorar. No meu caso, é difícil dizer se, se eu tivesse ido ao médico antes, meu prognóstico seria diferente, porque levou um tempo para meu desperdício muscular se tornar aparente e as mudanças ocorrendo nas células brancas aparecerem. Mas se eu tivesse descoberto mais cedo sobre o VEB, eu teria começado a trabalhar pesado para melhorar meu sistema imunológico. Mas ainda sou grato por ter descoberto quando descobri.

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O vírus Epstein Barr pode matar: febre glandular e vários tipos de câncer foram ligados a ele. Me disseram que o vírus era incurável. Ouvir uma coisa assim parece uma facada no peito. Enquanto eu estava sentado no consultório do meu médico, ouvindo as palavras que mudaram minha vida: “Infelizmente você tem poucas células brancas restantes no seu corpo e precisa entender que a maioria das pessoas nunca se recupera totalmente disso”, minha cabeça começou a girar. Ouvi sobre as experiências cada vez mais debilitantes de pessoas diagnosticadas com a condição; muitas acabam em cadeira de rodas. Mas não eu, prometi a mim mesmo.

Se você tem um sintoma – qualquer sintoma – vá ao médico. E rápido. O tempo é a essência. Mas nunca acredite que nada pode ser feito, mesmo se o médico te disser isso. O corpo é uma máquina maravilhosa.

Charis, endometriose

Endometriose é quando as células, como as do seu útero, são encontradas em outras partes do seu corpo. Todo mês essas células agem da mesma maneira que aquelas no seu útero – se acumulando, depois se desfazendo e sangrando. Diferente das células no seu útero que deixam seu corpo como menstruação, o sangue não tem para onde ir. Nem todo mundo experimenta dor crônica ou infertilidade – pelo menos pelo que li.

Eu tinha as piores dores na menstruação. Parece óbvio que eu devia ter procurando um médico, certo? Mas eu achava que era normal – uma parte normal e dolorosa de ser mulher. Acontece que eu não sentia dores tão fortes na menstruação quando era adolescente, mas risquei isso como coisas da vida, sabe? Mas todo mês as dores se tornavam mais fortes e duravam mais. Era tão debilitante que comecei a faltar muito do trabalho. Levei três anos insistindo com médicos para fazer uma laparoscopia.

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Sei que dizem para nunca procurar seus sintomas na internet, mas fiz minha própria pesquisa mesmo assim e conclui que tinha endometriose. E eu estava certa. No fundo, conhecemos nosso corpo, sabemos quando tem algo errado. Três anos de tormento pode parecer muito, mas na média, mulheres [no Reino Unido] podem esperar de sete a oito anos por esse exame. Passei por todos os estágios de luto. A negação, a raiva – tudo. Basicamente perdi minha antiga vida. Os últimos anos forma infernais, mas agora estou tentando aceitar e me focar em melhorar.

Ter sido diagnosticada cedo pode ter ajudado, mas por melhor que seja o sistema de saúde pública da Inglaterra, não acho que teriam me pedido uma laparoscopia até meus sintomas terem piorado muito mais. No final das contas, quanto mais demora para você ser diagnosticada, mas altas são as chances de infertilidade e piores as dores ficam. Se meu prognóstico tivesse sido um pouco mais tarde, meus ovários poderiam ter sido seriamente prejudicados, assim como outras partes do corpo onde o tecido estava se comportando de maneira anormal.

Gente, não importa quão mundanos seus sintomas sejam, vá encher o saco do seu médico. Se você realmente acha que tem algo errado, não deixe ele desconsiderar seus sintomas. Se mesmo assim ele fizer isso, procure uma segunda opinião. Demora e é muito frustrante, mas é algo que precisa ser feito. Sua saúde – sua vida – é importante.

@Shaydakisses

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