Saúde

Este cara deu o seu pé amputado pros amigos comerem

“Um deles teve que cuspir pedacinhos de mim num guardanapo.”
12.6.18
Imagens: IncrediblyShinyShart/Reprodução.

Caso você pudesse experimentar carne humana de maneira ética, você o faria? É o tipo de coisa que a gente acaba se perguntando depois de assistir O Silêncio dos Inocentes chapado. Não importa a sua resposta, você não espera que alguém vá fazer com que você leve a coisa adiante e é aí que você se engana: em postagem recente no Reddit, o usuário IncrediblyShinyStart compartilhou o causo de um acidente de moto que o colocou diante desta hipotética e macabra situação. Um carro atingiu sua moto e o lançou para um bosque próximo, resultando em um pé destroçado a ponto do coitado não mais poder andar. Quando o médico questionou se poderia amputá-lo, sua única reação foi perguntar “mas eu posso ficar com os restos?”.

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O bom doutor disse que sim e então no dia 10 de julho de 2016, três semanas após o acidente, Shiny, que prefere manter o anonimato, convidou 10 de seus amigos mais cabeça-aberta para um brunch único. No cardápio: strüdel de maçã, quiches, tortinhas de fruta e bolo de chocolate. As bebidas: ponche de gim com limonada e mimosas. O prato principal? Tacos feitos com o membro amputado de Shiny.

Os EUA não tem uma lei federal que proíba o canibalismo. Idaho é o único estado em que o ato de comer carne humana pode te levar pro xilindró. Há sim leis contra o assassinato e comércio de carne humana, bem como contra a violação de corpos que acabam por dificultar o canibalismo, este sim tecnicamente legal em outros 49 estados. É raro que alguém decidido a ser comido tope com alguém disposto a devorá-lo, mas até mesmo um cenário aparentemente favorável como este acaba por levantar sérios questionamentos éticos. Um belga chamado Detlev Gunzel foi condenado a oito anos e meio de prisão por ter carneado e comido um executivo polonês, mesmo com seu consentimento.

Shiny apresenta um raro caso de canibalismo não só ético como legal. O processo todo foi documentado, mas por conta da natureza explícita das imagens, optamos por omití-las deste artigo, ao menos em partes. O material todo pode ser conferido aqui.

Batemos um papo com o homem de 38 anos para entender porque ele resolveu alimentar os amigos com partes de si mesmo, que gosto ele tinha e como a experiência como um todo o afetou. A entrevista a seguir foi editada para fins de clareza.

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VICE: Por que você fez isso?
Shiny: A ideia original era empalhar ou secar a frio. Quão animal não seria ter meu pé em casa sendo usado como abajur ou peso de porta ou sabe deus o que? Essas ideias todas vieram do fato de que se trata do meu pé. Não vou cremá-lo e jogar numa cova qualquer; é parte de mim e eu o quero de volta.

Como você convenceu o médico a te devolver a parte amputada?
A maioria dos hospitais tem essas normas que permitem a você levar partes do corpo consigo por conta de algumas religiões que exigem que você seja enterrado inteiro, então foi só assinar uma papelada lá. Minha mãe, que estava ajudando a me reerguer, digamos, me levou lá pra ir buscar. Ela não faz ideia de que acabei comendo a parada porém. Entrei no hospital e me deram o pé embalado em um saco de lixo biológico vermelho, assim que voltei pro carro já meti o bicho num cooler. Foi bem esquisito.

Como você preservou a carne até o dia da refeição?
Cheguei em casa e o congelei. Não encontrei nenhum taxidermista que levasse meu pedido a sério e a secagem a frio sairia cara demais, coisa de uns 1.200 dólares. Eu teria ido adiante com a ideia se tivesse dinheiro. No final, tinha decidido fazer um molde da coisa pra usar como peso de porta e então encomendaria uma renderização 3D daquilo pra fazer uns chaveirinhos.

Quando chegamos em casa e eu vi o pé, bicho, que nojeira. Coberto de sangue e com iodo pra tudo que é lado. Depois que o limpei, fiquei bastante surpreso com o quão preservado estava. Digo, não é como se a coisa tivesse ido pro formol, mas quando se para pra pensar em carne bovina, que pode ser maturada por meses, creio que faça algum sentido o pé estar daquele jeito.

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Outros quatro amigos estavam ali comigo e foi tudo bem surreal. Ficamos brincando com o bagulho, como se não fosse um pé e sim um objeto qualquer, não um pedaço que veio de alguém. Não havia nenhuma ligação emocional com aquilo. Até poderia me passar pela cabeça que era meu pé ali, mas nada naquilo me incomodava e o que foi mais esquisito na situação inteira é que simplesmente não havia nada de estranho nela.

Como você preparou o pé?
Antes de fazer o molde, peguei uma faca na cozinha e tirei um pedaço da canela. A pele já estava meio solta por conta da cirurgia, então dava pra ver bastante do músculo. Peguei só o músculo mesmo, coloquei num saco plástico e congelei.

Sabe aquela cena de Férias Frustradas com o Chevy Chase em que ele só fica repetindo “Isso é loucura, isso é loucura, isso é loucura”? Foi assim que me senti. Eu pensava, “Provavelmente esse é o auge de bizarrice da minha vida. Espero que não piore daqui pra frente”.

Depois de fazermos o molde da perna acabei tirando um monte de fotos, a coloquei numa caixa com flores e a cremamos.

Como você convenceu 10 amigos a comerem o pé com você?
Convidei 11 pessoas, lembro de ter dito algo como, “Lembram como a gente sempre conversava sobre comer ou não carne humana caso houvesse uma maneira ética de fazer isso? Bem, estou cobrando isso aí. Vamos lá ou não?” Dez das pessoas toparam. Acho que a gente é um bando de esquisitões mesmo.

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Diversos grupos de amigos foram envolvidos nessa, mas um topou logo de cara, porque né, quando que você vai ter outra chance de fazer uma coisa dessas? Uma amiga até comentou que ia pedir pro namorado dela, que é chef, pra cozinhar a parada. Tudo perfeito.

No final das contas quem estava lá era o chef e sua namorada, minha ex, um amigo da faculdade, dois amigos mais recentes, dois de uma amizade de mais de 10 anos e a filha de um deles, que havia me ajudado a tirar o molde do pé. Era uma galera bem próxima.

E como foi o processo de cozinhar o pé?
Contei ao chef minha ideia e depois de uns dias ele chegou e disse, “Beleza, vamos lá. Vou prepará-lo e vocês chegam aí amanhã”.

Ele deixou a carne marinando durante a noite e salteou com cebolas, pimentões, sal, pimenta e suco de limão, servindo então em tortilhas com molho de tomatillo. [A receita toda pode ser conferida aqui.]

E agora a questão mais óbvia de todas: como era o gosto?
As pessoas acham que tem gosto de porco porque em filmes vemos a carne sendo chamada de “porco comprido”, um termo originado em Papua Nova Guiné, onde comem javali selvagem. Os caras não conhecem nossos porcos gordos e domesticados de carne clara. A carne do javali não é clara. Eu lembro de comer um porco selvagem e foi uma das carnes mais vermelhas e saborosas que já experimentei, semelhante à carne de veado. Então acho que o que comemos naquele dia era mais próximo disso.

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Este corte em especial tinha um gosto bem forte e pronunciado de carne, o músculo era duro e bastante resistente. O sabor em si era bom, mas a experiência não foi das melhores.

Você comentou no Reddit que “Um amigo teve que cuspir pedacinhos de mim num guardanapo”. Como foi o restante da refeição?
Tinha essa ansiedade com um misto de náusea no ar. A gente se olhava meio que pensando “Vamos em frente com isso? Vamos”.

Rolou um tanto de humor negro também, coisa que sempre tivemos de sobra e acho que foi exatamente por isso que a coisa deu tão certo. Fazíamos piadas o tempo todo, e em determinado momento disse, “Bem, hoje estive dentro de 10 de meus amigos de uma só vez”. No dia seguinte me ligaram dizendo, “Pô bicho, te caguei. Desculpa”.

Ficou no ar a sensação de que esta foi uma experiência que nos aproximou, tivemos a oportunidade de viver algo único juntos. Também foi o jeito que encontrei de encerrar aquele capítulo da minha vida.

Você comentou que esta refeição ajudou a lidar com o acidente. O que você quis dizer com isso?
Foi uma merda. Lembro de ser atirado pelo ar, de ter sofrido com a batida. Lembro de estar no meio do mato, tirar meu capacete e sentir uma dor lancinante. Olhei pra baixo e lá estava meu pé pendurado. Aquela foto do pé todo arrebentado, imundo e deformado foi feita na ambulância.

De qualquer forma, tive sorte de estar em um lugar movimentado. Tive sorte de uma jovem que agora está terminando o ensino médio ter aparecido e feito um torniquete na minha perna. Ela tinha acabado de fazer um curso de primeiros socorros. Tive sorte de que um paramédico que estava de folga acabou aparecendo em 15 minutos.

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Muitas coisas rolaram da melhor forma possível. Não tive nenhum outro ferimento. Era só minha perna e um cortezinho na nuca, nada além disso, bicho! Tempos depois dei uma olhada no lugar e voei entre árvores quase que coladas, cara. Eu estava a uns 70 km/h quando rolou o acidente, então não faço ideia de como só tivesse esse ferimento grave quando poderia ter morrido com facilidade.

Lembro de acordar diversas vezes no hospital e chorar, não tendo ideia de como minha vida seria dali por diante. Conversei com o médico sobre o que poderia ser feito, o que dava pra recuperar, e ele me disse que faltavam ossos e o resto era lixo mesmo. Nunca mais poderia andar. Em uma semana decidi prosseguir com a amputação.

Vivi toda uma experiência, foi um momento de transição essencial. Eu sou um cara branco de classe média, nunca sofri com nada na vida, nada nunca havia me testado. Não entrei pro exército, nunca fui pobre nem tive dificuldades pra me manter alimentado e ter um teto sobre a minha cabeça. Tudo foi fácil até então e eu reconheço isso. Antes do acidente eu não dava lá muita bola pra minha vida e quem estava ao meu redor.

O tanto de compaixão e empatia que recebi de meus amigos e entes queridos me ajudou muito a lidar com o desafio que foi essa enorme mudança na minha vida. Então eu estava cuidando desta parte do corpo que cuidou de mim por tanto tempo. Era como se estivesse prestando uma homenagem a ela e lhe proporcionando uma despedida adequada.

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As cinzas estão em uma urna no altar que minha namorada tem na sala e irão comigo para o túmulo. É parte de mim, assim como essa experiência.

Tudo acabou dando certão depois. Minha vida melhorou muito. Deixei para trás a cidade em que morava e um emprego de 10 anos que estava me matando por dentro. Mudei de estado e hoje tenho um emprego melhor que curto horrores. Conheci uma mulher com a qual estou junto há mais de um ano e meio e ela é a melhor coisa em minha vida. Vivo muito mais feliz do que esperava antes e tudo isso porque minha vida foi ameaçada e eu sobrevivi a isso. Comer meu pé foi uma maneira engraçada, bizarra e interessante de seguir em frente.

Tudo isso aconteceu há dois anos. Por que contar essa história agora?
É uma boa história pra se contar pra alguém que já te conhece, mas assusta uma galera. Levei um tempo pra ficar a vontade com isso, é um negócio bem doido né? Postei no Reddit porque é um local que permite o anonimato. Eu gosto das loucuras que as pessoas postam ali e senti que esse seria um jeito adequado de contribuir com a comunidade. Além do que, o que eu fiz tecnicamente não era ilegal. Não vendi a carne, não a servi sem o consentimento das pessoas. Era parte de mim. Não conseguimos encontrar nenhuma lei contra uma bizarrice dessas.

Eu não estou nada preocupado com questões legais, só não quero ser conhecido como o esquisitão canibal, esse rótulo não me representa.

Como a situação mudou a forma como você encara o canibalismo?

Olha, é algo que carrega consigo um estigma, muitas vezes associado a culturas que não são tidas como civilizadas ou em situações de sobrevivência extrema. Tem quem encare como algo bárbaro e fica se perguntando porque diabos fazer isso assim, sem mais nem menos. Mas tem quem coma a placenta de recém-nascidos, o que também é canibalismo, não tem pra onde correr.

Acredito que é possível praticar o canibalismo de maneira ética em determinadas situações. Não sinto necessidade de caçar gente e sair mordiscando seus rostos. Esta foi uma experiência única em que pude fazer algo de maneira saudável e ética. Foi tudo bem legal e divertido, fora que me rendeu uma excelente história.

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