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Cultura

Como a Rússia de Putin se tornou um paraíso da máfia

Por dentro da longa e estranha história do crime organizado na antiga União Soviética – e como a Rússia o voltou contra o Ocidente.

Por Seth Ferranti
01 Junho 2018, 1:33pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Mark Galeotti sempre se interessou por tudo o que fosse russo. O autor e especialista em crime internacional nascido na Grã-Bretanha, que escreve regularmente para o Moscou Times e vive actualmente em Praga, é formado em História. O interesse pelo submundo russo vem desde 1988 – pouco antes da queda da Cortina de Ferro –, altura em que estava a fazer o doutoramento sobre a União Soviética.

No decurso da sua investigação, Galeotti encontrou-se com veteranos da guerra soviética no Afeganistão assim que eles regressaram da frente de combate – visitou-os também um ano depois, para ver como eles se tinham ambientado à vida normal. Enquanto alguns se adaptaram, reparou que, por outro lado, um número alarmante parecia ter-se voltado para as sombras, trabalhando para empresários obscuros que desviavam recursos do Estado. A ideia de que o crime organizado pudesse proliferar no que, à época, continuava a ser um estado policial, fascinava Galeotti. A situação comportava uma trivialidade que se aplicava tanto a Nova Jérsia como a Moscovo: só porque não vês a máfia na rua, não quer dizer que ela não esteja lá.


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Graças aos seus contactos na Rússia, Galeotti – que já escreveu para a VICE – embarcou num projecto que haveria de durar 30 anos. The Vory: Russia's Super Mafia, lançado pela Yale University Press, é o resultado. Galeotti desenterra as origens dos notórios vor-v-zakone russos, explora a sua ascensão com o colapso da URSS, investiga como os seus valores e práticas influenciaram a Rússia de hoje, realça como Putin os manteve sob controlo e toca nas ligações, se é que existem, entre Donald Trump e esse vasto submundo.

Liguei-lhe para falar sobre uma história que, mesmo para um ex-presidiário obcecado pela Cosa Nostra como eu, tem muitos episódios bizarros e surpreendentes.

VICE: Uma coisa que me fascinou foi a extensão do arco desta história. Podes contar-me mais sobre de que forma os gulags de Estaline moldaram os homens que se tornariam "ladrões na lei" e cimentaram a estrutura que se tornaria a Máfia Russa?

Mark Galeotti: Já havia uma cultura de submundo anteriormente, o chamado Vorovskoy Mir, o Mundo dos Ladrões. Tinham tatuagens e gírias próprias, mas foi a experiência de serem arrastados para esse vórtex de horror que era o sistema dos campos de trabalhos forçados conhecidos como gulags [que desencadeou tudo]. Estaline queria comandar esses campos sem gastar muito e ofereceu um acordo aos Vory: aqueles dispostos a colaborar com o Estado teriam uma vida muito mais fácil [dentro dos brutais gulags].

Estaline já tinha trabalhado com gangsters antes da revolução, organizando assaltos a bancos e até pirataria para angariar dinheiro para os revolucionários bolcheviques. Basicamente, eles tornaram-se seguranças e capatazes que mantinham a população prisional – os prisioneiros políticos – a trabalhar. Agora, isso ia contra um dos elementos fundamentais do velho código Vory, que é nunca, nunca cooperar com as autoridades.

Mas, muitos deles acharam que era um bom negócio e tornaram-se os chamados “sukas”, [ou] “vadias” aos olhos dos tradicionalistas. Durante os anos 1930 até à primeira metade da década de 1940, esses dois grupos criminosos não interagiam muito. Os colaboradores sabiam que não era boa ideia meterem-se com os tradicionalistas e os tradicionalistas sabiam que se se metessem com os colaboradores, o Estado iria atrás deles.

Já estive preso e essa parece uma situação de explosão iminente. Aliás, foi exactamente isso que aconteceu, certo?

Depois da Segunda Guerra Mundial houve uma mudança repentina no equilíbrio de poder. Tinhas mais prisioneiros a entrar e, basicamente, essa guerra fria que existia entre os dois grupos não podia continuar. Houve uma explosão de violência, uma autêntica guerra civil dentro do Vory no sistema gulag no final dos anos 40, começo dos 50 – uma guerra sangrenta de linchamentos e pessoas a transformarem qualquer objecto pontiagudo em armas. No final, os colaboradores venceram, em grande parte porque foram apoiados pelo Estado, que lhes deu a oportunidade de vencer.

Estaline morreu em 1953 e os gulags foram abertos. Todos esses criminosos saíram – esses novos colaboradores/criminosos – e, basicamente, colonizaram o resto do submundo soviético. Era toda uma nova cultura de Vorovskoy Mir. “Somos gangsters, somos duros, temos a nossa própria cultura, o nosso código e tudo o mais. Como o Estado é muito poderoso, vale a pena colaborar – quando é do nosso interesse”. Era, essencialmente, isto.

Eles eram os juízes, os líderes comunitários, os altos sacerdotes do mundo criminal. Não necessariamente líderes de gangs, mas o tipo de pessoa que podia resolver disputas e fazer a lei, de forma bastante literal. Isso era essencial, porque todos os submundos funcionam através da resolução de disputas. Seja as reuniões da Cosa Nostra ou qualquer coisa do género. Os russos fizeram isso com um elenco de criminosos altamente respeitados que podiam ser os juízes.

Porque é que o colapso da URSS alimentou esse crescimento de maneira tão astronómica?

De repente, tinhas um novo país, criado com um golpe de caneta. A Rússia era um país dominado pelo Partido Comunista, com a economia planeada centralmente e, do nada, era uma democracia – um sistema capitalista de livre mercado. Todas as antigas regras pareciam já não se aplicar. As antigas estruturas de poder estavam em crise. Foi um período de caos total. Do ponto de vista do crime organizado, esta era uma gigantesca oportunidade.

Os vários gangs que já existiam nas sombras, quando ainda se preocupavam com o Estado e a KGB, agora podiam ascender. O que quisesses, era só tomar: indústrias, recursos, propriedades, controlo sobre territórios. Não havia um sentido de linhas de território ou de quem era mais poderoso que quem e houve uma grande explosão de violência. Todos os gangs estavam a tentar tomar o que podiam com as próprias mãos, antes que outra pessoa o fizesse. Foi mais ou menos uma guerra de todos contra todos.

Desse caos darwiniano, o que emergiu foram meia dúzia de grandes alianças. Não eram gangs formais – não como a família do crime de Nova Iorque, com um único chefe –, mas alianças com várias gangs mais pequenos. Eram os grupos de Moscovo contra o resto. Eles consideravam-se a elite e tinham muito mais dinheiro e poder. No final dos anos 1990, começámos a ver uma divisão de territórios. Uma hierarquia foi estabelecida e a violência começou a cair, mesmo antes de Putin subir ao poder.


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Parece-me que a diferença-chave entre o Vory e a máfia nos EUA – além da sua relativa força no momento actual – é a influência sobre o resto do país. Os americanos adoram filmes de máfia e Sopranos, mas a Rússia parece estar noutro nível, onde valores, códigos e práticas do crime organizado meio que “mafializaram” a nação. Como explicas isso?

O Vory estava entre as pessoas à frente da criação de um novo sistema político e económico nos anos 1990. Honestamente: a Rússia é comandada por pessoas que estão a roubar por todos os lados. É uma cleptocracia. Não o fazem isso da forma habitual das máfias, a "abanarem" pessoas numa esquina. Fazem-no através de contratos governamentais e acordo corruptos. Há uma sobreposição considerável entre como os gangsters operam e como a elite opera. As fronteiras entre os dois grupos são bastante permeáveis.

O capitalismo surgiu no meio de uma guerra de gangs na Rússia e a ideia era: o fundamental é fazer dinheiro. Sabemos que o capitalismo funcional depende de instituições, leis, direitos de propriedade e confiança no sistema. Mas, não era assim que a Rússia via isso. Eles só pensavam no dinheiro e se apenas estás interessado nisso, há vários métodos criminosos que podem parecer atraentes. Fico impressionado com a extensão com que vês coisas como chantagem e extorsão serem usadas como tácticas de negócio na Rússia.

O que é comportamento aceitável dentro das classes política e empresarial é, claramente, influenciado por tácticas que dizem que as leis não importam – o que importa é fazer o trabalho. Quase posso dizer que todo o empresário russo é um gangster. O Vory está entre os accionistas – os fundadores da Nova Rússia. Não é surpresa que os seus valores tenham sido consagrados no país.

É frequentemente descrito como estando envolvido com criminosos financeiros de todos os tipos, mas Vladimir Putin, apesar da sua história com gangstrs, manteve o Vory sob controlo. Porquê?

Quando Vladimir Putin era vice-presidente da Câmara de São Petersburgo, em meados dos anos 90, o seu trabalho era ser a ligação entre todas as pessoas com quem era preciso falar: estrangeiros, empresários ou o crime organizado. Tinha de se certificar que tudo estava a correr tranquilamente na cidade. Havia alguma interacção com Vladimir S. Barsukov, conhecido como "Governador da Noite". A ideia era que de dia as autoridades estavam no comando, mas à noite Barsukov comandava São Petersburgo. Depois, a carreira de Putin descolou, foi para Moscovo, tornou-se primeiro-ministro e depois presidente.

Isso não era necessariamente um problema desde que Barsukov soubesse os seus limites, soubesse as regras do jogo. O problema é que, depois de certo ponto, ele era demasiado visível e começou a ser um embaraço para Putin. Era tipo um esqueleto ambulante do armário de Putin. Em 2007, decidiram derrubá-lo. Foram de helicóptero de Moscovo. Foi, basicamente, uma operação militar para apanhar Barsukov e levá-lo directamente para Moscovo. Queriam mostrar que não importava quão grande fosses, o Estado estava de volta e podia derrubar-te.

Descreves a Rússia como uma cleptocracia, onde não há distinção entre crime, política e forças da lei. O que é que isso significa para os EUA e para o Mundo daqui para frente?

É um problema porque a Rússia é um grande jogador no mundo da política e da economia global. A cleptocracia russa e as ligações entre Kremlin, negócios e crime organizado significam que a Rússia pode infestar outros países com as suas próprias práticas. Putin já está envolvido com esse tipo de guerra política com o Ocidente – está a tentar usar o crime organizado russo como uma arma.

Já vimos organizações criminosas russas usadas para matar inimigos seus, conseguir informação, mover espiões pelas fronteiras e angariar dinheiro para Putin, apoiando grupos ou meios de comunicação de que ele gosta e que são bons a espalhar desinformação.

São problemas sérios, mas há alguma esperança. Acho que há essa pressão a aumentar lentamente para algum tipo de mudança dentro da Rússia. Acho que temos uma população cada vez mais cansada de corrupção e uma elite que superou os gangstrs e os acha uma vergonha. Não acho que vamos ver alguma coisa enquanto Putin estiver no Kremlin, mas depois de ele sair, pode ser em dois anos ou seis anos, ou mais, mas vamos ver algo a acontecer. Há uma boa hipótese de vermos uma luta contra o crime organizado na Rússia. Mas, por enquanto, esse é claramente um problema para todos nós.

Achas que a investigação sobre os supostos laços do presidente Trump com a Rússia vai descobrir algo em relação ao Vory? Trump tem um histórico de ligações à máfia italiana nos EUA e alguns dos seus lacaios, como o consigliere Michal Cohen, seriam próximos de mafiosos russos.

De Donald Trump a Michael Cohen, o que vejo a acontecer nos EUA não é tanto uma história sobre o crime organizado quotidiano na Rússia, mas mais uma história da típica ganância americana, de falta de moral e da crença deprimente de que qualquer negócio é um bom negócio, independentemente de quem o conduza.

Não vi nenhuma prova séria de qualquer ligação explícita entre Trump e mafiosos russos. O que vejo é evidências de quão longe a Organização Trump está disposta a ir com investidores e compradores duvidosos – russos ou de outros lugares – com quem corporações mais respeitáveis não se meteriam. No processo, é provável que tenha havido lavagem de dinheiro de fontes questionáveis, mas isso não é o mesmo que laços directos com mafiosos. Acima de tudo, esta é uma história sobre corrupção, enquadrada em termos morais e legais, e sobre uma horrível falta de ética e transparência.

Esta entrevista foi editada e condensada para maior clareza. Sabe mais sobre o livro de Galeotti aqui.


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