Tecnologia

Inteligências artificiais também poderão sofrer de depressão

O neurocientista que lidera o Programa Champalimaud de Neurociências, diz que uma função parecida com a da serotonina poderia ser uma solução (e um problema) para as IAs que pensarão como humanos.
16 April 2018, 4:13pm
Crédito: Shutterstock

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

É comum ouvirmos as pessoas comentarem que as Inteligências Artificiais vão assumir o controlo de tudo o que é nosso. Até agora, temos IAs que podem vencer-nos em jogos de tabuleiro, na redacção de guiões, na selecção de alvos em imagens de drones e na condução dos nossos carros.

A maioria destes sistemas de IA são redes neurais. É uma espécie de arquitectura computacional baseada no cérebro humano. De momento, estas redes são compartimentalizadas e optimizadas para lidar com uma única tarefa específica – o que significa que a IA que consegue escrever uma série não sabe conduzir um carro e assim por diante. São sistemas monotasking, digamos assim.

A ideia é que, um dia, esses sistemas limitados se transformem numa espécie de Inteligência Artificial Geral (AGI, na sigla em inglês), isto é, um computador capaz de desempenhar uma ampla gama de tarefas tão bem como um ser humano, ou talvez melhor.


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Ainda assim, a situação da IA levanta uma questão interessante ao neurocientista Zachary Mainen: se um computador passar a pensar como um ser humano, terá os mesmos problemas de saúde mental? Mainen é investigador da Fundanção Champalimaud, em Portugal, e passa boa parte do tempo a pensar sobre depressão, um fenómeno relativamente comum que afecta 300 millhões de pessoas pelo Mundo e está intimamente ligado ao neurotransmissor serotonina.

Como comentado por Mainen durante uma apresentação no mês passado no âmbito da Conferência de Computações Canónicas em Cérebros e Máquinas, realizada em Nova Iorque, nos EUA, a serotonina é um neuromodulador, um tipo específico de neurotransmissor utilizado para enviar mensagens ao longo de grandes áreas do cérebro. De acordo com o especialista, investigações em torno da serotonina revelaram que esta tem um papel essencial na capacidade do cérebro de se adaptar a diferentes situações.

“As pessoas pensam na serotonina como algo relacionado com a felicidade, mas os neurónios ligados à serotonina aparentemente enviam uma mensagem que não é boa ou má, mas sim algo que se parece mais com uma surpresa”, comentou Mainem em entrevista à Science após a apresentação. E acrescentou: “Parece especialmente importante ao romper ou suprimir crenças datadas”.

Seguindo esta linha de raciocínio, Mainen afirma que a depressão pode ser encarada como uma incapacidade do cérebro de se adaptar à mudança. Como exemplo, cita o caso de alguém que sofre um acidente sério e se encontra incapaz de lidar com as novas dificuldades. De acordo com Mainen, drogas como inibidores de serotonina, ou mesmo psicadélicos como psilocibina, podem aliviar sintomas de depressão ao promoverem uma plasticidade cerebral.

Por isso, inteligências artificiais podem precisar de algum mecanismo de controlo embutido, semelhante à serotonina no cérebro humano, considera Mainen. Tal mecanismo permitiria às máquinas adaptarem-se rapidamente às situações. Por outro lado, também poderia levar ao enraizamento de certos padrões mentais, resultando em depressão também nas máquinas.

“A psiquiatria computacional presume que podemos aprender sobre um paciente deprimido ou com alucinação ao estudar algoritmos de IA como reforço de aprendizagem”, disse Mainen à Science. E concluiu: “Invertendo a situação: porque é que uma IA não poderia estar sujeita aos mesmos males que atingem os pacientes humanos?”.


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