Saúde

Trocar do anal para o oral não é tão sujo quanto você pensa

Comer seu próprio cocô, surpreendentemente, não faz tão mal assim.
27.3.18
Crédito: Emojipedia/Apple

A SITUAÇÃO

Uma amiga sua (vamos chamá-la de Mi) é a gostosérrima gerente de uma hamburgueria. Apesar de gente boníssima, gata e com a cabeça no lugar, ela morre de amores por um cara indeciso e zoadinho, o Beto. Beto e seu parça Daniel tem opiniões bastante contundentes sobre jamais, sob quaisquer circunstâncias, saírem do anal direto pro oral – ou seja, jamais retirar o pipi do popô e partir pro oral com a mesma pessoa. Mas Mi se pega pensando: e se, no calor do momento, na real não teria treta nenhuma. Estaria ela certa?

A REAL

Ao chupar um cara que esteve ali pelo seu rabo, que pode não estar lá muito limpo, é óbvio que traços de fezes podem estar ali na pirrola do rapaz – o que quer dizer que você pode muito bem estar transferindo pedacinhos de cocô para dentro da sua linda boquinha. Mas isso é tão nojento assim? Talvez não. Lógico que as fezes são carregadas de bactérias, incluindo uma tal shigella, que pode levar a diarreia e disenteria. Há um risco envolvido nesse lance de transferir organismos do reto pra boca e por conseguinte seu sistema gastrointestinal. Mas desde que você esteja ingerindo suas próprias fezes – e não as do seu parceiro – o risco de acabar ficando doente é, veja só, minúsculo.

Timothy Sly, um epidemiologista e especialista em saúde pública da Ryerson University do Canadá, explica que quando falamos da transferência no mesmo corpo de patógenos intestinais NORMAIS – os que causam gastroenterite – não é esperado nenhum risco maior. “Se você tem bactérias do tipo E. Coli enteroemorrágicas (aquelas que podem causar diarreia ou coliote) ou Campylobacter (tipo de bactéria que causa intoxicação alimentar) em seu intestino, colocar mais dessas ali não afeta o canal alimentar”, diz. Assim sendo, o único obstáculo mesmo é o seu reflexo faríngeo. Beleza, então? Mais ou menos.

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O PIOR QUE PODE ACONTECER

Não é provável, mas bactérias e demais organismos no reto poderiam ser transferidos para a boca. “Há algum risco de infecções por E. Coli ou parasitas intestinais”, afirma June Gupta, diretora associada de normas médicas da Planned Parenthood Federation of America, mas, como explicado por Sly, o risco é mínimo, geralmente. “Ao passo em que a prática de sexo anal seguida por sexo oral por parte do parceiro passivo dificilmente seria danosa, é melhor evitar colocar qualquer coisa – dedos, pênis, apetrechos sexuais e por aí vai – que passou por dentro de um ânus, diretamente na boca”, disse.

Os riscos são maiores para determinados indivíduos e em certas situações. Sly afirma que, apesar de parecer óbvio, pessoas com doenças imunossupressoras ou que acabaram de passar por um transplante, portadores de HIV ou que estejam recebendo tratamento para algum tipo de câncer podem reagir com diversos tipos de infecções às novas espécies nunca antes encontradas para além da densamente populada (ainda que equilibrada) população bacteriana do intestino. Ou seja: os organismos que vivem normalmente no intestino podem não reagir bem ao serem transferidos para a boca, via traseiro. A mesma lógica pode ser aplicada a pessoas sob o efeito de antibióticos que normalmente eliminam as bactérias amigáveis do intestino. Isso possibilitaria com que bactérias danosas tomem conta do pedaço.

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Alguns vermes parasitas podem também causar autoinfecções. E quando falamos de infecções associadas ao sexo, é possível se reinfectar com herpes, por mais incomum que isso seja, tendo em vista que envolveria transmitir o vírus de uma ferida em uma parte do corpo para outra. Erin Basler, educadora sexual do Center for Sexual Pleasure and Health, comenta que “fissuras retais causadas por penetração anal aumentam o risco de infecções sanguíneas sexualmente transmissíveis serem transmitidas por meio de microabrasões causadas pelo escovar de dentes”. O uso de lubrificante pode ajudar nestes casos.

Por fim, alguns poucos estudos sugerem que gonorreia pode ser transmitida entre reto e faringe, como postulado em 2017 por pesquisadores da Melbourne University. A gonorreia faríngea tende a ser assintomática, de acordo com o Centro de Controle de Doenças norte-americano, apesar de possivelmente causar dores de garganta. Dito isso, não significa que a doença seja inofensiva, visto que a gonorreia na garganta pode ser repassada a parceiros.

No geral, como apontado pelo CDC, “é possível ter uma DST em mais de uma região simultaneamente”. Resumindo: infecções e reinfecções são possíveis se uma ou mais das pessoas envolvidas já tem algo, além de serem mais prováveis caso alguém esteja com a saúde fragilizada.

O QUE DIZER PARA SUA AMIGA

Olha, acho que não precisa jogar essa de amiga pra cima da gente, até porque aos vinte e tantos é complicado demais ter amigos – tão complicado quanto quando se falar de higiene apropriada nos malabarismos entre anal e oral.

De qualquer forma, avisa pra Mi que ela pode ficar sussa: se ela e seu parceiro não tem infecção alguma, dificilmente a prática causará algum problema. E por questões de paz de espírito, é uma situação fácil de ser contornada. O cara pode muito bem limpar o pau ou meter uma camisinha ali antes de adentrar a boca dela. Mais especificamente, Basler sugere, “uma medida adicional de segurança de quem quer ter a experiência sem nenhum risco bacteriano é usar um preservativo interno. Tais preservativos – com o anel interno removido - podem ser usados no sexo anal e não incomodam nenhum dos envolvidos”.

Ou isso ou Mi e seu namô podem mandar ver e pronto. Não parece lá muito sexy organizar atas sexuais assim. Sly reconhece que no calor do momento todo cuidado vai pras picas; riscos podem ser minimizados caso “planejados e limitados de forma apropriada, mas se isso vai mesmo acontecer como planejado já depende dos participantes em seu momento de excitação”.

Mas como Ruth Neustifter, professor assistente e educadora sexual da University of Guelph em Ontario já disse, “a bactéria do bumbum tem que ficar lá, que é o lugar dela”.

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