Sociedade

Portugal tem um problema de sono e a "Lisbon Sleep Summit" quer explicar-nos porquê

“Criou-se a ideia de que uma pessoa tem de estar sempre disponível, sempre on, sempre online, sempre activa e, se não está, sente culpa”.

Por Madalena Maltez
07 Maio 2018, 12:08pm

Foto por Kinga Cichewicz no Unsplash.

Recentemente, o sono - mais precisamente a falta dele - tem sido um tema muito falado quer por cientistas quer por psicólogos. Com o avanço do ritmo de vida, e-mails do trabalho a chegarem-nos à mesa de cabeceira às três da manhã, uma avalanche de informação constante a apitar nos nossos bolsos e uma tecnologia que avança a cada segundo numa vida frenética de trabalho, trabalho, Trump, guerra da Síria, Rússia, ataques terroristas e mais trabalho, tirar tempo para dormir fica, muitas vezes, para segundo plano. E, para alguns, no meio de todas estas preocupações e horários definidos a marcador permanente, há ainda filhos a quem dar banho e adolescentes a quem ensinar - pela milésima vez - a não mexer no telemóvel à mesa.

Por ser considerado um dos grandes problemas de saúde desta nossa época tão agitadamente maravilhosa, entre os próximos dias 16 e 19 de Maio, Lisboa será palco do Congresso Internacional "Lisbon Sleep Summit - Sleep in Women". Organizado pelo Centro de Electroencefalografia e Neurofisiologia Clínica - Dra. Teresa Paiva e pela Universidade Católica, entre outras entidades, o objectivo passa por aumentar o conhecimento sobre as consequências e os motivos, quer biológicos quer psicológicos, de termos hábitos irregulares de sono - especialmente nas mulheres.

Não é novidade que, nos dias de hoje, a nossa vida é gerida pelo stress e por um fluxo imparável de informação a chegar e de coisas para fazer. O facto de estarmos sempre contactáveis e sempre contactados aumenta o nosso nervosismo e ansiedade; já não é preciso estar no trabalho para o fazermos ou para estarmos a par do mesmo, ele persegue-nos até ao mais íntimo dos nossos lençóis, escondido dentro dos telemóveis, computadores e iPads.

E, quando já estamos mesmo quase a adormecer - já demasiado tarde porque o bebé fez uma birra e o adolescente teve um ataque de mau humor e só acabámos de arrumar a cozinha toda e de fazer os almoços para o dia seguinte por volta da uma da manhã - toca o telefone e entra um e-mail com mais três projectos em que vamos ter que trabalhar ainda nessa semana.

E assim se vão as oito horas de sono recomendadas por noite, passadas entre insónias e pesadelos, entre putos que choram e pré-adolescentes que não nos olham nos olhos, entre preocupações de trabalho e lidas da casa, entre o novo bromance Trump/Macron e a nossa sogra que vem de visita daqui a três dias.

O foco principal do "Lisbon Sleep Summit" será o sono das mulheres, porque os estudos são bastante mais escassos que os dos homens, dada a interferência dos ciclos hormonais no processo de dormir. Para além disso, as insónias nas mulheres são três ou quatro vezes mais prováveis, não só pela menstruação e pelas gravidezes, mas também, segundo a neurologista Teresa Paiva, porque o papel social das mulheres e a desigualdade na distribuição de tarefas domésticas e de tratamento social leva a que os níveis de stress e de culpa sejam mais altos no sexo feminino, trazendo maiores dificuldades na hora de dormir.

Hoje em dia, a mulher tem de desenvolver vários papéis, sendo ao mesmo tempo trabalhadora/profissional, ser mãe, realizar tarefas domésticas, ser esposa e ser mulher. Há 50 anos a mulher não enfrentava tantos desafios e é impossível ser perfeita em tudo”, explica a especialista. E sublinha: “Se alguém trabalha 10 horas por dia fora de casa e acrescenta mais duas ou três de trabalho doméstico, tem um total de 60 ou 65 horas em cinco dias da semana, sem contar com o fim-de-semana, que muitas mulheres usam para levar a cabo as tarefas mais pesadas”.

Ter hábitos de sono irregulares aumenta os riscos de depressão, de comportamento violento, de stress, diminui a produtividade e, no caso dos rapazes pré-adolescentes, aumenta ainda o risco de excesso de peso. Por ser tão imperativo dormir para o bom funcionamento da nossa cabeça e corpo, os hábitos de sono irregulares tão vigentes neste século tecnológico têm sido objecto de estudo e debate. De tal forma que o Prémio Nobel da Medicina de 2017 foi atribuído a três cientistas pela sua descoberta sobre o funcionamento do nosso relógio biológico, que conta o tempo tão bem como o Big Ben e o divide em ritmos de 24 horas.

Portugal está na linha da frente no que toca a maus hábitos de sono. Acordamos e começamos a trabalhar tão cedo como nos outros países, mas deitamo-nos bastante mais tarde - temos das médias de sono mais baixas da Europa em todas as idades.

Portanto, quanto mais conhecimento tivermos sobre o funcionamento destes relógios biológicos e dos ciclos de sono, melhor podemos adaptar as nossas vidas e dar a devida importância à coisa. Dormir não tem de ser algo em que pensamos quase com nostalgia, como se fosse tão raro como um bom orgasmo - quando foi a última vez que dedicaste tempo a fechar os olhos e a deixar-te ir, sem pressas para acordar e sem batalhas com o despertador?

No "Lisbon Sleep Summit" estarão presentes experts na matéria, nacionais e estrangeiros, assim como médicos de outras especialidades, de forma a que se gere uma conversa em busca de respostas, perguntas e soluções, para este que é um dos grandes problemas de saúde do século XXI.


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