Não consigo falar com meu pai, mesmo que ele esteja prestes a morrer
O autor e seu pai no Natal de 1988.
Relato

Não consigo falar com meu pai, mesmo que ele esteja prestes a morrer

Quando o cara que te colocou no mundo se prepara para adentrar uma sala cirúrgica, tudo fica muito difícil.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor

É o primeiro dia realmente quente do ano quando meu pai é hospitalizado. Ele ainda está internado, ligado a máquinas e soro.

Chegando na casa dos meus pais, é como se nada de diferente estivesse acontecendo. Minha mãe me conta tudo sobre os vizinhos (“Uma família negra mudou pra nossa rua!”, diz, orgulhosa) enquanto meu pai passa pelos canais da TV. Ele parece bem e saudável para um cara de 82 anos assistindo TV.

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Nas próximas 24 horas, a sensação de que devo falar com meu pai sobre o que está acontecendo começa a se insinuar. Na noite antes dele ser internado no hospital, o silêncio entre nós começa a ficar pesado. Sei que eu deveria dizer alguma coisa pelo bem dele, se não pelo meu; se algo der errado – e tem muita coisa que pode dar errado; já fui avisado que devo me preparar para a possibilidade de algo dar errado – esse vai ser meu arrependimento mais imediato e provavelmente mais durador.

Desenvolvo a ideia de que vou entrevistá-lo para algum projeto e aí, com um gravador entre nós, falar com ele sobre a vida. Posso dizer a ele que estou escrevendo alguma coisa sobre a onda de calor de 1976. (Estou sempre pensando em escrever sobre a onda de calor de 1976 – isso pelo menos é verdade.)

Só tenho que encontrar a oportunidade certa.

Ele está sentado olhando intensamente para a TV. Me sento na cadeira de balanço do outro lado da sala, deletando e-mails no meu iPhone. Quatro décadas de conversas mínimas sobre apenas o funcional nos deixou completamente despreparados para essa troca, mesmo que sua chegada fosse uma das poucas certezas da vida.

Eventualmente, praticamente descontrolado, levanto e grito: “Olha o estado desse cinto”.

Levanto minha camiseta do Sly & The Family Drone e aponto para o meu cinto.

É verdade que meu cinto já viu dias melhores. O que parecia couro se revelou algum tipo de substituto que descora em certas partes para mostrar um tecido gasto. Claramente só vou conseguir usá-lo por mais uma semana.

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Fotos do Meu Avô Morrendo

Ele pula para a ação: “Eu tenho um cinto sobrando. Pode ficar. Está lá em cima”. Ele praticamente sai correndo para subir as escadas.

No quarto dos meus pais ele me entrega um cinto, ainda na embalagem. Tiro o velho que estava usando e troco. E ficamos parados lá, um diagrama de Venn humano. O homem de 82 anos que só fala livremente sobre dirigir e decoração, ou para reclamar dos outros, e o homem de 47 anos que só se comunica livremente para falar de música e reclamar da saúde, com uma tênue sobreposição representada pelo cinto novo.

“É um pouco chique demais pra mim”, ele diz, balançando a cabeça para o cinto completamente normal.

“Não, é ótimo”, digo. “Muito obrigado.”

Ele dá meia volta e desce as escadas, então sigo atrás dele. Sinto o ar ficar mais denso entre nós, se tornando algo quase tátil. Sinto que poderia dar um soco na distância entre nós.

Ele para na sala da frente e sua mão não vai até a maçaneta. Ele vai dizer alguma coisa?

Noto que seus dedos estão esticados para pegar a maçaneta, sem alcançar realmente, e percebo bem na hora que ele está caindo para trás. Seguro ele e o levanto, finalmente quebrando o silêncio com duas sílabas: “Pronto”.

Mais tarde, quando ele está deitado no quarto, tomo uma xícara de chá com a minha mãe e ela solta tudo de uma vez.

“É a quarta vez que ele cai. As células brancas dele devem estar caindo de novo. Não importa quanto ferro ele coma, nada disso está sendo absorvido agora. Fiquei aliviada que a diretoria do hospital decidiu operar. Quer dizer, ele tem 82 anos. Eles disseram 'De jeito nenhum' se ele tiver mais de 82. Mas ele não tem realmente 82, tem? É só o que diz a certidão de nascimento dele. Olha pra ele. Não tem como ele ser um homem de 82 anos. E eles devem ter visto como ele é forte. As coisas são muito melhores agora que há 15 anos, mesmo… quando ele teve isso a primeira vez… muito melhores. Quer dizer, faz só uma semana que ele foi diagnosticado e aqui estamos… ele vai ser internado amanhã. Os exames mostraram com 100% de certeza que isso não vai se espalhar. Tem uma mancha num dos pulmões dele e ele está tossindo sem parar há meses. Mas, como você sabe, ele teve tuberculose quando tinha 19, então o pulmão deve ter ficado marcado por causa disso. É o mesmo que antes – você sabe – só que mais em cima. O cirurgião disse que não sabe quanto vai tirar até abrirem ele. Vamos ver amanhã, acho. Eles provavelmente vão colocá-lo numa dieta. E… você tem que se preparar, John, você tem que estar preparado. Tudo pode acontecer. Mas olha pra ele. Não tem como ele ser um homem de 82 anos, não tem como…”

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Na manhã seguinte, nos sentamos na sala de espera do Whiston Hospital – provavelmente a alguns metros de onde nasci – embaixo de um cartaz grande sobre doação de órgãos. Três pessoas estão esperando cirurgia; cada uma acompanhada de um pequeno grupo. E todo mundo está tentando não olhar para o cartaz. Um anestesista, uma enfermeira da ala de câncer, um cirurgião e um enfermeiro explicam os detalhes do que vai acontecer. Todos terminam cada frase com uma pergunta “Tudo bem pra você, Kevin?” O novo credo de inclusão completa. Sei que meu pai não está ouvindo nada do que eles estão dizendo. Ele está com os dentes serrados, querendo que eles terminem logo. Quase consigo ouvir ele pensando 'Vamos acabar logo com isso, gente'.

Nos despedimos, e alguns minutos depois estamos de volta ao calor sufocante, esperando um táxi de volta para Rainhill. Um homem num conjunto esportivo conversa com uma mulher de 40 e poucos anos de vestido numa cadeira de rodas, enquanto os dois fumam.

“Vamos esperar um pouco mais pra frente?”, digo para minha mãe, e começo a andar com ela pela calçada até não dar mais para ouvir o que o casal está dizendo, e paramos em segurança perto de uns adolescentes com camisetas do Slipknot fumando maconha atrás de um arbusto.

Em casa, as coisas seguem normais pelo resto da manhã. Tem vários trabalhos domésticos para fazer aqui e ali, aí, depois do almoço, conversamos um pouco, mas quando bate três da tarde sei que ela está começando a ficar agitada. Eventualmente digo “Olha, liga pra eles se você quiser”.

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Ela liga para o hospital: “Uhum… Sim… Sim… Cirurgia… John Kevin Doran… Uhum…” Sinto que estou à beira de um precipício. Não aguento isso. Quero sair correndo pela porta. Vou voltar pra Londres e nunca mais atender o telefone para nenhum número de Merseyside.

A conversa leva muito tempo. Eles não vão dizer a ela por telefone, vão? Eu faria qualquer coisa para atrasar os próximos segundos. Literalmente qualquer coisa…

Aí ela larga o telefone e começa a chorar, segurando a cabeça entre as mãos.

Sinto como se tivesse levado um soco no estômago e sido picado por uma cobra ao mesmo tempo, como se tivesse veneno correndo pelas minhas veias. Como se uma porta estivesse abrindo lentamente para um mundo de horror.

Mas aí minha mãe está falando diretamente comigo: “Desculpa… Desculpa, John. Ele está bem. Ele já acordou. Só fiquei… fiquei um pouco…”

Pego o telefone do tapete bege e coloco no gancho: “Bom, então é melhor voltarmos pra lá”.

Num quarto só dele, meu pai está no centro de uma teia de aranha de tubos e soros. Uma máscara que faz um barulho alto de assobio está presa no nariz e boca dele. Ele está cercado de cobertores, apesar do calor. Uma calça muito antiga, uma camiseta de algodão estampada e um colete branco estão dobrados numa cadeira ao lado da cama. Mesmo agora ele não parece tão velho. Momentaneamente, ele parece o homem que eu esperava sentado na janela; esperando ele voltar do trabalho, preocupado que pudesse ter acontecido um acidente na fábrica, uns 40 anos atrás.

Ele é magro fora os antebraços muito musculosos. Braços de alguém que eu nunca conseguiria vencer numa queda de braço.

Mas aí minha mãe tira o óculos bifocal grosso dele para arrumar sua máscara de oxigênio e de repente, sem essa última linha de defesa, ele parece ter mesmo todos os dias de 82 anos.

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