O que fazer com estátuas que homenageiam racistas, estupradores e torturadores
A estátua do bandeirante Borba Gato depois de um banho de tinta, em 2016. Foto: Felipe Larozza/ VICE
reportagem

O que fazer com estátuas que homenageiam racistas, estupradores e torturadores

Diante dos acontecimentos recentes nos EUA, a VICE recorreu a especialistas no assunto para entender até que ponto a memória deve ser preservada.

A problemática que envolve monumentos em homenagem a figuras muitas vezes controversas da história não é novidade para o mundo. Nos últimos dias, a estátua de um líder confederado em Charlottesville, Virgínia, nos EUA, acabou se tornando ponto de encontro e confronto entre neonazistas e pessoas contrárias ao racismo. O sujeito inanimado em questão era Robert Edward Lee, que, durante a Guerra Civil Americana, comandou o Exército da Virgínia do Norte em prol da continuação da escravidão. Na sequência, uma estátua de um soldado confederado foi derrubada também nos EUA. Não demorou muito para que autoridades de outras localidades começassem a retirar algumas esculturas do campo de visão das pessoas.

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Diante desses acontecimentos recentes, a VICE recorreu a especialistas no assunto para entender se a permanência de ícones racistas, como os confederados norte-americanos, ou até mesmo as estátuas de bandeirantes brasileiros e nossas muitas ruas que levam o nome de agentes torturadores, estupradores e criminosos da Ditadura, fazem parte da história e merecem continuar ganhando olhares e sendo pano de fundo para foto de turistas ou se deveriam figurar bem quietinhos em museu, ou, quiçá, serem destruídos.

"A prática de se erigir monumentos como os dos confederados ou o que homenageia os Bandeirantes em São Paulo implica, antes de qualquer coisa, na existência de artefatos dedicados à construção da memória de um povo, comunidade ou país", pondera o cientista social, mestre em arqueologia e professor de história da arte Marcelo H. Marotta. Em defesa da memória, ele menciona o caso da Alemanha. "Por que, hoje, sabemos que o nazismo foi uma prática abominável que exterminou milhões? Porque há ainda memória dessa experiência do passado que não está somente nos livros de história, mas nos vestígios materiais desse passado, como o que encontramos ao visitarmos Auschwitz", diz, em referência ao maior símbolo do Holocausto. Para ele, a destruição de monumentos à barbárie é também a destruição da memória dessa barbárie. Marotta, entretanto, acredita que preservar a memória não significa manter esses monumentos em praça pública. "É para essa razão que existem os museus."

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Já a historiadora e escritora Isabella Serrano discorda e enfatiza que "a história tradicional sempre contou a versão dos vencedores, dos heróis que oprimiram as mulheres, os negros e as minorias étnicas". Para ela, a manutenção de estátuas como a do líder confederado em Charlottesville mantém a tradição de manipular a memória. "O governo local deveria retirar as estátuas dos opressores e consultar a população sobre quem ela considera como verdadeiros símbolos que representam a sociedade", adicionou.

Em 2016, a cidade de São Paulo acordou com dois grandes símbolos cobertos de tinta neon: uma estátua gigante do bandeirante Borba Gato e o Monumento às Bandeiras. A imprensa foi à loucura, logo chamando o ato de pixação e acendendo o debate sobre vandalismo na cidade e danos ao patrimônio público. As tintas foram uma resposta a um debate entre candidatos à prefeitura na noite anterior, que abordaram ao vivo suas medidas para combater pixo e vandalismo.

Para Diego Machado, licenciado em geociências e educação ambiental e mestre em mineralogia e petrologia, é preciso considerar o passar do tempo e seus significados. Ele, que sempre trabalhou com educação patrimonial, acredita que trata-se de um equívoco educacional julgar a história com os pensamentos e valores da atualidade. "Não se deve, é claro, homenagear quem hoje achamos indignos de homenagem; mas os que foram outrora homenageados compõem a história e merecem salvaguarda quando se trata de monumentos", justificou para a VICE.

Depredar monumentos e estátuas, para Diego, é passar uma borracha no passado. "É aparentemente paradoxal, mas, conservar monumentos erigidos em outros tempos nos ensina a não querer erigi-los mais para o futuro", finaliza.

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