Minha relação com a Hyperdub começou em 2002 depois de um encontro casual com Steve Goodman (aka Kode9), o fundador do selo e por vezes relutante visionário. Uma das minhas tutoras na universidade, Jessica Edwards (Ms. Haptic, que aparece no 12 polegadas do Curious e trabalhou com o Kode9 na reinterpretação de La Jetée), nos apresentou na primavera de 2002, quando eu estava concluindo meus estudos na Universidade de East London. Eu estava escrevendo minha tese de conclusão de curso sobre música e Jess sugeriu que eu falasse com Steve. Ao longo dos anos nós desenvolvemos uma amizade e o Steve se tornou uma espécie de mentor acidental. Ele me mostrou como usar softwares para criar batidas, me introduziu ao dubstep antes de ele ter esse nome – “death garage” ainda é o meu favorito dos nomes que rondavam à época – me convidou para a festa FWD>> quando esta ainda era uma criança, e até publicou um dos meus primeiros textos para Hyperdub quando ela ainda era só uma revista online.
Cerca de um ano depois de nos conhecermos a revista se tornou um selo, e eu naturalmente desenvolvi uma relação pessoal com ele: com a música que o selo lançou e patrocinou e também com as pessoas por trás disso. Durante mais de uma década minha relação com a Hyperdub evoluiu e maturou-se. Como qualquer boa relação, esta teve seus altos e baixos, às vezes não nos falamos muito, mas de todos os selos com os quais me envolvi na minha vida adulta, como fã e como profissional, o Hyperdub ainda é um dos que me sinto mais próximo.
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Kode9 + Daddi Gee - ‘Sine Of The Dub’ (HYP001, 2003)
Estamos em 2003. O dubstep não aconteceu ainda, embora a Ammunition Promotions tenha lançado o termo no ano anterior. Sou convidado pelo Kode9 para o lançamento do seu selo no Plastic People, o clube na Curtain Road que se tornaria o lar espiritual das sessões semanais da FWD>>. O evento da tarde era um lançamento duplo: o novo selo do Kode9 e um novo livro da esposa do Daddi Gee (que logo se tornaria The Spaceape), outra das minhas tutoras de universidade.
Sentado no chão do Plastic, Daddi Gee lê trechos do livro com sua voz rouca sobre uma cama de sub-frequências projetadas por Steve. Lembrando agora é uma imagem surreal, porém apropriada à resistência que a Hyperdub tem a classificações. O nascimento da Hyperdub naquela noite deu pistas de seu crescimento criativo e de sua trajetória, ainda que pra mim fosse impossível prevê-los.
Saí com um disco de 10 polegadas, a primeira edição do HYP001 antes do seu lançamento oficial um ano depois. “Stalker” nunca foi a minha praia, embora eu goste muito da ideia de um sample de Junior Boys ser usado em um som de 2-step. “Sine of the Dub” era minha favorita, uma versão meio cyberpunk de um clássico do Prince que desafiou muito do que eu entendia por dance music até aquele momento. Mas não foi a música o que mais me pegou neste álbum. Foi o adesivo branco na capa preta do disco com o logo marcante da Hyperdub e o slogan que permanece sendo minha máxima favorita de um selo: “tomando de assalto o seu ouvido” (“doin’ it in your earhole”).
Kode9 + The Space Ape - ‘Backward’ b/w ‘9 Samurai’ (HYP003)
À medida que o dubstep emergia como um termo aceito pra descrever as mutações do 2-step que emanavam de South London do início pro meio dos anos 2000 (a música continuava a “ser fluida, meu caro”: sem forma, variada, excitante), era a rádio pirata Rinse FM que desempenhava um papel crucial na ascensão do estilo, e que melhor captava aquele entusiasmo.
Minhas lembranças mais intensas daquele período são de andar pelo meu apartamento em Ilford, lutando com cabides ligados ao meu velho aparelho de som, tentando sintonizar o sinal da Rinse FM. O Kode9 havia me introduzido no seu show semanal às quintas-feiras na FWD>>. Eu ainda não sabia claramente o que estava ouvindo, mas era minha janela de contato com um mundo musical que se solidificava enquanto meu interesse em outros tipos de dance music do Reino Unido diminuía.
Como a maioria dos clássicos daquela era, alguns dos quais ainda nem tinham sido lançados, “9 Samurai” passou alguns anos em dubplate antes de finalmente emergir em vinil pela Hyperdub em 2006. Sua melodia principal, reapropriada de Seven Samurai Suite de Fumio Hayasaka, resume a obsessão do selo com o Oriente, com a vibe sombria e melancólica que marca o cotidiano de Londres – assim como a maioria dos lançamentos do início do selo. Existe uma grande versão deste som que foi tocada em uma edição da FWD>> curada pelo Wiley, na qual ele manda uma sequência de dubs completada com colocações hilárias que resumem muito bem as ligações entre o dubstep e o grime, seu parente próximo do leste de Londres.
Kode9 + The Spaceape - Memories Of The Future (HYPCD001)
Os primeiros três anos da Hyperdub foram definidos pelo eixo duplo dos seus primeiros e únicos – ao lado de uma aparição inicial do The Bug no 002 – artistas: Kode9 + The Spaceape e Burial. Enquanto o primeiro do Burial saltava para além da cena dubstep, foi o primeiro álbum do fundador do selo que ecoou mais fundo em mim.
Se “Sine of the Dub” era uma versão cyberpunk de Prince, uma breve história, o Memories of the Future era o Neuromancer da dupla, a obra sci-fi deles. Foi a trilha sonora da minha saída da Europa no fim de 2006 e do meu primeiro ano no Japão; uma terra estrangeira e lar espiritual. Através de repetidas audições eu descobri um álbum rico em significados. Produção minimal combinada com uma voz de outro mundo, letras com camadas de significado, uma mecânica tantas vezes copiada. Tudo isso em um momento em que o estilo com o qual este estava mais intimamente associado sonoramente começava a perder sua desforme magia, e se acomodava em direção a uma inevitável codificação.
LV feat. Errol Bellot - ‘Globetrotting’ b/w ‘Takeover (dub)’ (HBD005)
Estamos em 2007, e o dubstep é uma das maiores promessas no mundo da dance music. Já passou-se mais de um ano desde o Dubstep Warz, o programa apresentado por Mary Ann Hobbes que popularizou o estilo pelo mundo. A revista espanhola Go! Magazine coloca o Kode9 na capa com uma compilação promocional em CD antes de sua aparição no Sónar, um dos primeiros festivais grandes a celebrar este “novo som de Londres”. Essa compilação continua sendo um dos melhores documentos da vitalidade ainda a ser descoberta no dubstep em seu ponto crucial na história; uma vitalidade que seguiria enfraquecendo nos anos seguintes, levando a Hyperdub (e seu fundador) a cada vez mais se distanciar do estilo que fez sua fama.
“Globetrotting” do LV é a primeira faixa da compilação e, assim como no caso de outras favoritas do catálogo do selo, foi a repetição abusiva que eu fiz da compilação que fixou a música na minha cabeça e no meu coração. É um dub que faz seu trabalho com uma precisão e cuidado que permanecem marcas registradas dos londrinos que estão por trás dele.
The Bug ft. Flowdan and Killa P - ‘Skeng’ b/w ‘Skeng (Kode9 remix)’ (HBD006)
É julho de 2007 e Steve chega ao Japão pra sua primeira turnê no país, coincidindo com a turnê de Kevin Martin (aka The Bug). Nesse momento, “Skeng” do The Bug estava circulando em dubplate. Sua mistura devastadora do peso grave do dubstep com a ferocidade vocal do grime tornou a faixa uma favorita na Back to Chill, a festa mensal de dubstep que o Goth Trad havia lançado em Tóquio, da qual eu tive a sorte de fazer parte durante seu primeiro ano e meio.
A faixa se tornou um hino não-oficial da turnê, espalhando o tipo de piada ruim que só é engraçada no momento e para aqueles que participam dela. Embora durante um passeio em Kyoto as piadas tenham se tornado muito mais sérias. Steve e Kevin começaram a pedir pra japoneses aleatórios – garotas de colégio, taxistas, monges – dizerem as palavras “Skeng”, “Kode9” e “The Bug” em um gravador.
Quarta330 - ‘Sunset Dub’ b/w ‘9 Samurai (Quarta330 remix)’ (HBD007)
Eu me encontrei com o Goth Trad pela primeira vez em Londres em 2005, durante uma de suas primeiras turnês europeias. Naquela época ele estava emergindo da cena de noise e breakcore do Japão, e os primeiros exemplos de grime e dubstep tinham começado a fasciná-lo. Um ano depois, durante a turnê europeia que levaria ao encontro dele com o Mala, e sua subsequente introdução no campo da Deep Medi e da cena mundial de dubstep, ele me mostrou a página de MySpace do Quarta330 enquanto explicava a cena chiptune de Tóquio. Naquele momento a página do Quarta expunha seu remix de “9 Samurai”, recriando o gélido original através de um prisma pixelado e claro.
Quando o Kode visitou Tóquio em 2007 ele se encontrou com o Quarta e, alguns meses mais tarde, o remix do MySpace foi parar no vinil do primeiro lançamento do produtor japonês. Um daqueles casos raros em que vale a pena remixar alguém sem aprovação. Junto com “Skeng” e “Globetrotting”, o 12 polegadas do Quarta marca o início da expansão global do selo, e do manifesto desejo do seu fundador de dar à música aquilo que ela pensa que não precisa. Um desejo que seria plenamente manifesto na atitude da Hyperdub de cravar seu nicho sonoro único e particular em meio ao ecosistema cada vez mais petrificado da dance music.
Samiyam - Return EP (HBD012)
Algo belo e esquisito – mas também lógico, em retrospectiva – aconteceu em 2007 e 2008, à medida que elementos do dubstep encontraram um espírito semelhante na revolução dos beats que se desdobrava de Los Angeles a Glasgow; colidindo graças a uma combinação de peso de sound system, tédio e estética rígida, e não a partes sem sentido que juntaram peças musicais pelo MySpace.
Existem dois programas de rádio daquela época, os dois transmitidos no fim de 2007 via ondas piratas e online, que melhor captaram essa colisão. Um é a volta do Kode9 à Rinse FM com o Flying Lotus como convidado especial, e o outro é a primeira transmissão do Brainfeeder Radio na Dublab, que daria à luz o selo próprio do Flying Lotus alguns anos depois. Foi nesses dois programas que eu ouvi pela primeira vez os beats do Samiyam que acabariam no Return EP, o primeiro lançamento de hip hop da Hyperdub.
DVA – ’Natty’ b/w ‘Ganja’ (HDB030)
Evolução tem sido a chave da sobrevivência e contínua relevância da Hyperdub, assim como tem sido a marca da nossa relação. Na virada da década, o funky do Reino Unido se tornou uma influência mais forte no selo. Da mesma forma que o 2-step havia feito antes, o funky me deixou desorientado, embora eu tenha compreendido sua relação com as raízes do selo e com a música que eu amo.
Ao longo de sua primeira década, a Hyperdub permaneceu como um dos poucos selos capazes de me fazer reconsiderar meu antagonismo em relação a um gênero ou estilo específico. Quanto ao 2-step, foi a abordagem glacial do Burial que lenta mas seguramente me conquistou, e quanto ao funky do Reino Unido foi o “Natty” b/w “Ganja” do DVA. Você poderia odiar o que quisesse na simplicidade e na diversão braços-para-o-alto do estilo pista de dança do funky, mas não poderia renegar o funk genuíno desses dois produtores. Como sempre, o ponto positivo está em encontrar a tensão interna a um estilo específico e explorá-la.
King Midas Sound - Waiting For You (HDBLP003)
Uma das primeiras coisas que o Kode me deu logo depois que nos conhecemos foi um CD de áudio e piratarias. Em uma das pastas havia uma cópia do clássico álbum da Rhythm & Sounds w/ the Artists e um vírus, que infectou meu computador; levando adiante meu intenso caso de amor com o dub e iniciando meu interesse no lado mais dub do techno, que chegaria a seu auge com a continuação do modelo Rhythm & Sounds por produtores como Pinch, Peverelist e 2562. Quando o álbum foi finalmente lançado dois anos depois eu estava vivendo uma separação barra-pesada, e “Waiting for You” se tornou minha trilha sonora.
Musicalmente, a produção do The Bug me levou a descobrir um canto do universo dub que eu desconhecia; cheio de graves e inebriante de vapor. Liricamente, as palavras de Roger e Kiki me pegaram e me levaram ao outro lado. Eles diziam tudo o que eu queria fazer mas não podia. Os beats e baixos cuidaram de mim. Álbuns com os quais você pode se relacionar dessa forma não surgem todo dia, e isso os fez mais especiais por chegarem na hora certa.
Fatima Al Qadiri - Asiatisch (HDBLP022)
Em 2005, o Kode lançou uma mini-compilação sino-grime que captou a curta paixão que certos produtores de grime como Wiley e Jammer tiveram com samples e melodias orientais. O Kode também se envolveu com a ideia no beat do Fukkaz, o primeiro (e acho que o único) dubplate digital que o selo lançou com o Bleep em 2007, com samples de cordas voando em você como adagas em um filme de kung-fu. Embora nunca tenha ido além de sets de rádio pirata e tentativas estranhas de revival, havia algo na variação de paletas de som asiáticas do sino-grime que eu sempre gostei. Assim como no caso da mistura de beats do final dos anos 2000, se havia um selo capaz de captar a ideia e levá-la adiante era o Hyperdub. O primeiro da Fatima Al-Qadiri se debruça sobre a relação da China com o ocidente usando melodias, instrumentos e sons asiáticos aplicados sobre ritmos de influência dubstep e grime.
É um testemunho da habilidade do selo e de seu fundador em refletir sobre o que foi, o que é e o que pode ser, o fato de que, mesmo depois de 10 anos, eles ainda são capazes de surpreender – e chatear – seus fãs mais antigos. Em algum momento no início dos anos 2010 o Kode9 admitiu (e eu cito aqui) sentir às vezes que o selo “criou um espírito próprio”, e ele estava “meramente tentando controlá-lo”. A ideia de que o virus que ele implantou anos atrás acabou de se tornar auto-consciente faz um belo de um sentido.
Você pode seguir o Laurent Fintoni no Twitter aqui: @laurent_fintoni
Tradução: Stan Molina
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