Skate

Como os skaters de Bali construíram a sua própria cena

Será esta a versão indonésia de “Dogtown”?

Por Nat Kassel
04 Setembro 2017, 12:51pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Bali, na Indonésia, nunca foi um sítio muito propício para se andar de skate. Até hoje, o governo local só construiu duas pistas e as ruas estão constantemente cheias de carros, motas e buracos. Portanto, para levar a cena até ao ponto em que se encontra hoje, os skaters de Bali tiveram que construir as suas próprias pistas. Isso faz desta história um triunfo, um pequeno milagre.

Foi Julian Bergougnoux, um francês, que construiu o primeiro bowl em Bali. Chegou à ilha em 1998, em busca de contactos para o fabrico de roupas para a sua marca de skate. Não era sequer bem uma marca, na verdade - ele vendia algumas coisas na sua garagem em França -, mas, durante a viagem conheceu uma local, que mais tarde se tornaria a sua mulher. Acabou por mudar-se para a ilha e, sete anos depois, misturou o primeiro cimento que seria usado exclusivamente para andar de skate.

Julian diz que não havia muitos spots quando ali chegou. "Comecei a andar nas ruas e a fazer corrimões e rampas improvisadas e o pessoal montava os obstáculos em estacionamentos, ou em ruas mais calmas... era bem porreiro. Definitivamente, melhor que nada".

Todas as fotos são do lendário skater de Bali, Batax, e foram captadas um pouco por toda a ilha. Segue-o no Instagram aqui .

Mas, só em 2005 é que Julian e alguns amigos decidiram construir um bowl de 1,20 metro, no seu quintal em Sanur. O francês diz que estava farto de andar nos mesmos parques e spots de rua disponíveis na altura. Não pretendia transformar aquilo numa pista de skate pública, mas lembra que o bowl acabou por se tornar de imediato "o playground da vizinhança". Apesar de, tecnicamente, não ser público, não havia vedação e Julian aceitava praticamente qualquer pessoa que quisesse vir e andar de skate.

Desde então, já aumentou o bowl duas vezes, criou um hotel chamado Eat Sleep Skate no terreno e construiu um pequeno bar com forno de pizza. Cobra uma entrada simbólica aos skaters visitantes e há uma equipa local estabelecida que anda de graça.

Por volta da mesma altura em que Julian estava a construir o seu bowl, outro tipo chamado Afandy Dharma trabalhava para montar a Motion Skateboards, que hoje é a maior marca de skate da ilha. "Tinha comprado uns dez shapes na China e consegui vendê-los todos a amigos. Depois trouxe mais 20, depois 40, e depois comecei a fazer a estampá-los", diz Afandy. Em 2007, abriu a Motion Skateshop e começou a fornecer a maioria dos shapes para a cena local. Naquela altura, os melhores locais para andar de skate eram o bowl de Julian, o bowl da Globe, em Jumbaran, e uma pista de rua DIY, em Simpang Siur.

Em 2012, o governo destruiu a pista em Simpang Siur e usou o terreno para ampliar uma estrada, deixando os skaters da zona sem sítio para andar. Afandy investiu a maior parte do dinheiro que tinha feito com a Motion para construir uma pista indoor. Alugou um terreno em Kuta e construiu um enorme espaço com um circuito de skate de rua.

Hoje em dia a Motion vai muito bem - não só como loja, marca de shapes e pista, mas como empreiteira para outras empresas que queiram construir pistas de skate. E, apesar de o skate ter vindo a crescer com firmeza em Bali desde os anos 90, explodiu efecttivamente nos últimos dois anos. Afandy diz que o sucesso veio em parte por causa do Pretty Poison, um local em Canggu que se tornou um tanto ou quanto infame. Maree, a dona, descreve o lugar como um "bar de artes criativas, com um bowl ao estilo da Califórnia".

Localizado no meio de arrozais, o Pretty Poison é um espaço com paredes pretas, cerveja Bintang barata e um dos bowls mais alucinantes da ilha. Três skaters locais - Sukma, Pipping e Donny - recebem salário para rolarno bowl três noites por semana. Além deles, skaters estrangeiros costumam aparecer para beberem cervejas à pala em troca de entreter o público. Nas noites de festa, o spot fica tão cheio que é difícil sequer ver o bowl.

Maree, uma mãe de meia idade de Bondi, é apaixonada pela modalidade e suficientemente simpática para superar o tabu de ter um negócio de skate sem nunca ter sido skater. "Não faço entrevistas", diz-me quando a encontro no bar. E explica: "Isto não é sobre mim, é sobre as pessoas que andam de skate". Mas, depois lá concorda em falar comigo e mostra um discurso apaixonado sobre o espaço, o seu profundo respeito pelos jovens e sobre o que aprendeu sobre skate desde que abriu o Pretty Poison. O bowl, diz, é uma réplica da piscina em que os gajos andam de skate em Os Reis de Dogtown.

"Tens que perceber que eu não tinha ideia de onde me estava a meter", sublinha. E acrescenta: "Não sabia que isto ia descolar desta maneira". E, para um lugar que abriu há pouco mais de um ano atrás, o bar tem sido um sucesso tremendo, não apenas como negócio, mas na forma como estabeleceu o skate enquanto algo que as pessoas aceitam e gostam de ver.

Afandy considera que Maree está a levar o skateboard a níveis sem precedentes de popularidade através do Pretty Poison. "No começo, quando estávamos a construir [o bowl], ela tinha as suas próprias ideias de como queria que ele fosse", recorda. E salienta: "Eu dizia-lhe 'Conheço os miúdos daqui e eles gostam de andar em coisas mais suaves' e ela dizia 'Não, quero construir uma coisa radical, algo que seja difícil de dominar'".

Poderia não ter resultado, mas, felizmente, não faltam skaters, locais e internacionais, prontos para desafiar a pista íngreme e implacável. Afandy conclui: "Respeito a Maree. Ela fez as coisas à maneira dela e funcionou. Acho que muita gente vê aquilo e quer, simplesmente, aventurar-se".

Segue o Nat no Twitter. As imagens acima são da autoria do skater e fotógrafo local Batax.