Ela colecciona amantes, ela colecciona coleccionadores, ela colecciona pessoas
Fotografia do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André.
Cultură

Ela colecciona amantes, ela colecciona coleccionadores, ela colecciona pessoas

Um dia, Raquel André viu-se sozinha no Rio de Janeiro e perguntou-se a si mesma: "Como é que eu entro na casa de alguém?". Dedicou-se então a coleccionar o outro.

Raquel André é de Lisboa e faz espetáculos. Aliás, é de Caneças, onde a capital beija o subúrbio, e de Ferreira do Zêzere, onde cresceu com os pais e a irmã a plantar, colher e a fazer as lides do campo. Enquanto criança, lembra-se de apontar em agendas telefónicas o nome das pessoas que conhecia. À medida que as encontrava e vivia coisas com elas, ia acrescentando dados, informações e até novas pessoas. Sem saber, começava aí a coleccionar pessoas, e nisso a ver-se nos outros.

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Licenciou-se em teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema e, em poucos anos, trabalhou com vários artistas de múltiplas disciplinas: uma relação intensa com o performer Tiago Cadete; como Vânia, a vampira numa telenovela para adolescentes; ou como Sara, a filha revoltada do viral e comovente Mulheres da Minha Vida, do rapper Valete. Um dia pegou numa caixa de papelão cheia de cartas escritas à mão, correspondência de uma família nos anos 70, 80 e 90 e daí criou o seu primeiro trabalho autoral e primeiro ensaio sobre coleccionismo, em 2009. Bela, grande, solar, poderia ter seguido vários caminhos, mas quis seguir este.


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Quiseram os anos da crise e uma fé quase missionária nas possibilidades do teatro e da arte que ela fosse parar ao Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa, quatro meses transformaram-se em seis anos e valeram-lhe uma colaboração como assistente artística da encenadora Bel Garcia, com múltiplos espetáculos premiados e apresentações país fora. Trabalhou no centro cultural Galpão Gamboa, tornou-se mestre em Coleccionismo nas Artes Performativas, saiu e voltou a entrar no país para ficar onde o coração batia mais forte, perdeu a sua mentora, fez 30 anos e mudou 14 vezes de casa.

Numa dessas casas nas Escadarias do Selarón, no bairro boémio da Lapa no Rio, tinha um vizinho que lhe despertava a atenção. Um vizinho com quem cruzou olhares muitas vezes, com quem partilhou quase os mesmos caminhos para o lugar a que chamava de casa. Mas, nunca o destino deixou que a relação deles passasse de um mero sorriso de reconhecimento do outro, nunca lhe soube o nome, nunca se dirigiram a palavra, nunca entrou pela sua casa adentro. Sozinha no Rio de Janeiro, emigrante, gringa, artista, mulher, tomou para si como obsessão a ideia de entrar na casa do outro e de conhecê-lo na intimidade.

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Com ou sem tripé, cada fotografia é arquivo de um encontro e registo de uma intimidade com os múltiplos amantes com que se encontrou por várias casas em cidades do mundo. Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Criou um programa para si: encontrar-se com desconhecidos durante uma hora, em apartamentos desconhecidos, para ficcionarem uma intimidade e dali saírem com pelo menos uma fotografia que o comprovasse.

Começava um projeto artístico que intitulava de "Colecção de Amantes". Construía uma rede de afectos que ocupam espaço dentro dela, uma rede viva de pessoas guardadas no corpo da sua memória, o seu arquivo de encontros, a sua impossibilidade de agarrar o efémero, a procura de respostas possíveis à sua pergunta insistente - o que é intimidade?

Listam-se casas-de-banho, salas e quartos e é o amante que decide o que é a intimidade e como ela se representa. Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Em quatro anos, coleccionou 124 amantes, em oito cidades do Mundo. Pessoas de todas as nacionalidades, géneros e idades. Amantes, aqueles que se amam, não aqueles terceiros que não se podem amar.

Amantes que numera, identifica por cidade e data de encontro, amantes de que não sabemos o nome, mas que habitam as cerca de seis mil fotografias que guarda num disco externo e que partilha com o Mundo em forma de espetáculos, conferências e, futuramente, através de um livro e de uma versão para televisão.

Amantes que quer coleccionar durante 10 anos, aqueles que se colocam ao lado dela face ao abismo de viver qualquer coisa juntos, aqueles que nos ajudam a ver a performance de uma vida toda, a dela. O desempenho de quem passa pelo tempo em direcção ao outro e que se vê perante a impossibilidade de guardar para sempre todos os encontros do efémero.

Na "Colecção de Amantes", vemos homens, mulheres e Raquel André a atravessar a vida deles todos à procura de si mesma. Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Foto do arquivo de "Colecção de Amantes", de Raquel André

Uma nova colecção de pessoas trouxe-a de volta a Portugal. Uma "Colecção de Coleccionadores". Uma colecção de pessoas com a mesma obsessão que ela, coleccionar memórias e guardar em histórias o que está por detrás de um processo de acumulação serial. Mudou-se para o Minho, encontrou-se com coleccionadores de cromos, livros, cartas, bonecas, perfumes, moedas, discos e até de centenas de camélias, ou mesmo de tudo o possível e imaginável sobre um lugar apenas, Vila Nova de Cerveira.

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Filmou, entrevistou, foi às suas casas, conheceu famílias, colecções e guardou objectos para poder contar as histórias deles. Fez disso outro espetáculo e continua hoje, de cidade em cidade, a coleccionar quem colecciona. Foi à Bélgica, conhecer um coleccionador de falos, sim pénis erectos, e outro que colecciona tudo de tudo, ou se quiserem, o mesmo objecto exactamente até à ruptura de stock.

Em Berlim, conheceu uma coleccionadora de tatuagens, ou, numa recente passagem pelo Festival Walk & Talk, na ilha de São Miguel, adiciona à sua colecção uma coleccionadora de ananases e pedras preciosas, ou um barbeiro que recolheu objectos, fotografias e quadras para fazer do seu posto de trabalho um museu da sua biografia e da história da sua freguesia e ilha.

O Rodrigo é de Paredes de Coura e colecciona cromos de futebol. É a admiração por Cristiano Ronaldo que o faz preencher inúmeras cadernetas todos os anos. Foto por Diogo Lima

Mateus, Patrício, Carlota e Catarina são uma família de Valença. Coleccionam tudo, Star Wars, livros de BD, bonecas e perfumes em miniatura, respectivamente. Foto por Diogo Lima

O Tino é de Vila Nova de Cerveira e colecciona tudo e mais alguma coisa sobre a vila: postais, medalhas, bandeiras, livros. Transforma as suas colecções em livros sobre a localidade. Foto por Diogo Lima

Johan é de Kortrijk, na Bélgica, e colecciona falos, isto é pénis erectos. Uma especialização em urologia leva-o a viajar para acumular falos do Mundo inteiro. Foto por Diogo Lima

Fercha é uma mexicana que vive em Berlim. Grava as suas memórias na pele, pois faz do seu corpo a tela para a sua colecção de centenas de tatuagens. Foto por Diogo Lima

O Sr. Zé Galinha fez da sua colecção uma instituição na freguesia de Arrifes, em Ponta Delgada. A Barbearia Benfica. Um Museu. Entre cortar o cabelo e fazer a barba, a casa está cheia de quadras, objetos de madeira, fotografias da família, freguesia e da ilha, num verdadeiro templo autobiográfico. Foto por Diogo Lima

E perguntam-lhe sempre, porquê pessoas? Porque é que não coleccionas livros, latas ou sapatos? Ela não sabe. Ela só sabe que o outro é um mundo e que, nesse mundo, há uma imensidão para descobrir, há uma história que merece ser contada. Não é sociopatia, é reconhecer que o que somos não somos sozinhos e que, às vezes, fechamos no armário os caminhos que traçamos pela vida e que nos marcam no tempo.

Dos amantes (aqueles que amam) aos coleccionadores ( aqueles que coleccionam memórias), a "Colecção de Pessoas" de Raquel André não acaba aqui. Ela decidiu que esta é uma acumulação a quatro tempos, que se completará com mais duas futuras colecções: uma "Colecção de Artistas" (aqueles que criam) e uma "Colecção de Espectadores" (aqueles que testemunham).

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Se tudo o que vocês virem, lerem ou ouvirem falar sobre ela parecer fictício, não há certo nem errado, verdade ou mentira. Das colecções dela fica a acumulação, a viagem, os números e nomes próprios, as coisas, o eu e tu, o tempo cristalizado ao infinito e uma rede de pessoas que, por muito que ela partilhe, viverão com ela e só com ela para todo o sempre. Resta-nos ver e contemplar as múltiplas transformações que ela lhes dá e ler que, também aqui, está um pequeno grande pedaço das vidas das gentes da nossa época.


Em Agosto, a VICE Portugal acompanhou o processo de colecção e apresentação das colecções em Niterói, Rio de Janeiro e Manaus na Amazónia, que contou com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Abaixo podes ver a agenda de apresentações de Raquel André para os próximos tempos:

Colecção de Coleccionadores e Coleccão de Amantes de Raquel André, são apresentados durante o mês de Novembro na Sala Estúdio do Teatro Nacional Dona Maria II. Ambos os espectáculos são uma co-criação de Raquel André, António Pedro Lopes e Bernardo de Almeida. Além dos espectáculos, Colecção de Amantes, vol. I é lançado em formato livro com textos de Gregório Duvivier e Tiago Rodrigues.

2 Novembro, às 21h30 estreia Colecção de Coleccionadores, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, que fica em cena até dia 12. Quarta às 19h30, de Quinta a Sábado às 21h30 e Domingo às 16h30.

9 Novembro é lançado o livro Colecção de Amantes Vol.I, às 19h00 no Átrio do Teatro Nacional D. Maria II

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15 Novembro, às 21h30, o regresso da Colecção de Amantes, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, que fica em cena até dia 22. Quarta às 19h30, de Quinta a Sábado às 21h30 e Domingo às 16h30.

22 de Novembro, no âmbito do LEFEST sessão às 19h30 e 21h30.

25 Novembro, Colecção de Amantes - Teleteatro - Estreia na RTP2.

3 Março 2018, Colecção de Amantes, BIT Teatergarasjen, Bergen, Noruega.

8, 9 Março 2018, Colecção de Amantes, Findlay-Sandsmark, Noruega.