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"Mulheres erradas": a história da prostituição em São Paulo

Em 1549, o jesuíta Manoel da Nóbrega pediu ao rei de Portugal que enviasse órfãs e "erradas" para encontrarem maridos no Brasil.

Por Edison Veiga
11 Fevereiro 2019, 11:09am

Polacas. Foto: reprodução/Augusto Malta

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

O sacerdote Manoel da Nóbrega ainda não tinha chegado ao Planalto Paulista quando, em 1549, escreveu uma carta ao rei de Portugal. Pedia que o reino enviasse órfãs para o Brasil, ou mesmo mulheres “que fossem erradas”, porque “todas encontrariam maridos, já que a terra é larga e grossa”. Nóbrega era um dos muitos jesuítas que foram para o Brasil catequizar índios e ajudar os portugueses no projecto de colonização. No seu caso, entraria para a história ao lado de José de Anchieta, um dos fundadores da cidade de São Paulo, ou melhor, da Vila de São Paulo de Piratininga. Ambos celebraram, onde hoje é o Pátio do Colégio, a missa que marcou a inauguração da cidade, a 25 de Janeiro de 1554.

Mas, essas mulheres ditas “erradas”, no bom português da época impregnado de machismo, tornar-se-iam – pelo menos parte delas – nas primeiras prostitutas desta "terra em que tudo o que se planta dá". Pelo menos é o que acreditam os historiadores. E, assim, aquela que é conhecida como a mais antiga profissão do Mundo pode ser também a mais antiga profissão de São Paulo.


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A existência desta carta de Nóbrega ao rei de Portugal, João III, aparece até no clássico livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Quando o escritor fala sobre a “franca devassidão” da qual “nem o clero se isentava”, cita o padre jesuíta. “Pintando com ingénuo realismo a dissociação dos costumes, declara estar o interior do país cheio de filhos de cristãos, multiplicando-se segundo os hábitos gentílicos”, escreveu Cunha.

Mas, foi o historiador e escritor Paulo Rezzutti, autor de diversos livros sobre a história do Brasil – entre eles Titília e o Demonão, com as cartas eróticas escritas pelo imperador D. Pedro I endereçadas à Marquesa de Santos, a sua mais célebre amante –, quem resgatou essa carta na íntegra e viu nela a semente da prostituição na cidade de São Paulo. Mais. Rezzutti decidiu investigar quais foram os lugares mais representativos dessas, digamos, obscenidades à moda antiga. “Nóbrega entendia que havia aqui ‘um grande pecado’: os homens brancos a tomarem as índias como esposas, indistintamente, quantas quisessem”, comenta Rezzutti. E acrescenta: “A pedido de Nóbrega, então superior dos jesuítas, foram enviadas para o Brasil as ‘erradas’. E as ‘erradíssimas’”.

Os incómodos e primeiros conflitos entre os cidadãos ditos “de bem” e a prostituição já aparecem em actas da Câmara de São Paulo a partir de 1570. Esses documentos realçam que os pontos das “rameiras” da então pequena vila eram ao lado das fontes de água. “Mulheres ‘direitas’ não se deviam aproximar desses lugares. Apenas escravos e pessoas que estivessem dispostas a alguma aventura de cunho sexual iam até aos chafarizes”, afirma Rezzutti.

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Rua das Casinhas no século XIX. Foto: Militão Augusto de Azevedo/ Coleção Paulo Rezzutti

Na tentativa de coibir esse mercado do sexo, a Câmara criou uma multa para quem fosse procurar ócio perto das fontes. Em 1579, a punição prevista era de 50 réis. Onze anos mais tarde, o valor fixado já era de 500 réis. “Mas não era lá muito respeitada”, comenta o historiador.

No século seguinte, São Paulo continuaria cheia de gente disposta a trabalhar na prostituição. A Câmara passou então a punir as prostitutas com a expulsão da vila. Um documento de 1641 diz que duas “mulheres prejudicadas” foram mandadas embora de São Paulo. “No relato, a informação é que ‘Mariana Lopes e Joelma Pereira, apesar de casadas, recebiam homens nas suas casas, sem a presença dos respectivos maridos’”, afirma o historiador. Sim, eufemismos de todo o tipo para descrever o comércio sexual.

Era a miséria económica que transformava mulheres em prostitutas. Numa sociedade patriarcal, numa São Paulo com poucas actividades económicas, para muitas este era o trabalho que restava. Como contextualiza a historiadora Mary Del Priore, no livro Histórias Íntimas – Sexualidade e Erotismo na História do Brasil, até ao século XVIII, prostituir-se era uma forma de sobrevivência. E havia gerações de avós, mães e filhas que iam seguindo por essa vida, como única alternativa para se manterem e sustentarem familiares idosos e crianças.

“Em São Paulo a prostituição como profissão aparece nas Listas Nominativas, uma espécie de recenseamento do século XVIII, ordenado pelo Marquês de Pombal. Na época, a denominação ‘casinha’ para designar um local onde se bebia, jogava, divertia e se tinha contacto com mulheres, era comum”, comenta a historiadora. Relatos de viajantes que vinham da Europa para São Paulo descrevem uma prostituição mais romântica, quase ingénua. Isto deixava os forasteiros impressionados. Ao contrário das europeias, as meretrizes paulistas estavam de pé atrás, hesitavam em abordar os seus clientes. Aguardavam ser cortejadas. Eram recatadas.

De acordo com descrições do botânico e viajante francês, Augustin de Saint-Hilaire, a quantidade delas, contudo, saltava à vista. O francês escreveu que as vias públicas paulistanas “ficavam cobertas por rameiras”, que eram “de todas as cores”. Saint-Hilaire chegou a dizer que – por causa da prostituição – São Paulo era uma cidade estranha, com mais agitação nocturna do que diurna.

Nesta época, começo do século XIX, a principal morada para a prática do meretrício na cidade era a Rua das Casinhas, um ponto hoje chamado de Praça Manoel da Nóbrega – coincidência das coincidências, uma homenagem ao padre que solicitava mulheres ao Reino de Portugal –, entre a Rua 15 de Novembro e o Pátio do Colégio. O que se chamava de casinhas eram seis construções, lado a lado. Durante o dia, funcionavam ali vendas de "secos e molhados" [frutos secos e frutas]. À noite, o comércio era outro – com mulheres ditas “avulsas” espalhadas à espera de fregueses. “Os animais de carga e os compradores cedem lugar a verdadeiras nuvens de prostitutas de classe baixa, atraídas pelos camaradas e pelos roceiros, que elas tentam pescar nas suas redes”, escreveu Saint-Hilaire.

À esquerda da igreja do Pátio do Colégio, onde é hoje o prédio da Secretaria da Justiça, ficava o Teatro de Ópera. Como boa parte das actrizes eram meretrizes, a clientela dividia-se entre os que preferiam o espectáculo no abrir das cortinas e os que ansiavam pela festa depois de estas se fecharem.

A inauguração da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1827, levou novos ingredientes à picante cena nocturna paulista. O centro passou a ser frequentado por jovens, filhos de endinheirados de todo o país que já não moravam com os pais. A mais famosa prostituta a servir os estudantes da São Francisco foi Rita Maria Clementina de Oliveira, conhecida simplesmente como Ritinha Sorocabana. Foi amante do estudante Luiz Barbosa da Silva, mais tarde presidente da Província do Rio Grande do Norte e do poeta Fagundes Varela. Mais tarde, acabaria dona de um bordel de luxo na Rua Boa Vista.

É nessa altura que aquela aura ingénua dá lugar a um negócio profissionalizado, inclusive com importação de mão-de-obra especializada. “As prostitutas europeias, provenientes sobretudo do Leste Europeu, começam a chegar na segunda metade do século XIX, através do tráfico internacional – organizado, também, por estrangeiros”, afirma Del Priore. E acrescenta: “Pela coloração dos cabelos e cor de pele, eram conhecidas como ‘polacas’ ou ‘francesas’. A prostituição organiza-se em luxuosos bordeis, frequentados por políticos, homens de negócios e grandes fazendeiros”.

Mas, uma das histórias mais curiosas dessa prostituição antiga não ocorreu no centro da cidade – e está contada no livro Quadro Histórico da Província de São Paulo, publicado em 1864 por J. J. Machado d’Oliveira. De acordo com a obra, o capitão-general de São Paulo Martim Lopes Lobo de Saldanha – governador da capitania entre 1775 e 1782 – saciava os seus prazeres mundanos numa fazenda pertencente a monges beneditinos, em São Bernardo do Campo. “Ele tinha um álibi: alegava que ia ao local para supervisionar obras na estrada velha de Santos”, conta Rezzutti. E sublinha: “Mas, o que levava o governador até lá eram os bacanais, cheios de meretrizes, promovidos pelos monges”.

Só com o advento do café é que a prostituição paulista começou a ganhar o requinte que já era visto na Europa. Afinal, o boom financeiro trazido pelo cultivo do café a partir do fim do século XIX iria ajudar o desenvolvimento de todos os sectores de São Paulo. “E, para o bem ou para o mal, esse desenvolvimento também influenciou o meretrício”, conta Rezzutti. E conclui: “O enriquecimento da elite paulista começou a atrair para a cidade cortesãs e diversas cafetinas. Isso impactou até mesmo o uso de alguns cafés famosos de São Paulo, que recebiam famílias durante o dia mas, a partir do entardecer, se tornavam redutos de prostitutas e dos seus ávidos clientes”.

De lá para cá, é a história que toda a gente já sabe: ainda que à margem da lei, prostíbulos cada vez mais organizados com “cardápios” para todos os gostos e bolsos. Oscar Maroni que o diga. Um negócio que, nos últimos anos, se difundiu pela Internet, dos sites às redes sociais.


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