
O fotógrafo José Ferreira passou um ano a tentar perceber estas pessoas, a conviver com elas, a retratá-las sem filtros e sem rodeios. Conquistou-lhes a confiança. Deixaram-no entrar. Seguiu-lhes os passos. Àqueles que fazem do tráfico de drogas e armas e dos assaltos modo de vida. Porque não conhecem nada mais. "Vêm de famílias pobres, nascem no gueto e pouco têm. Vêem o crime como uma forma de arranjar dinheiro facilmente e não têm nada a perder", explica Ferreira, fotógrafo profissional há oito anos e apaixonado pela fotografia documental.Quando soube que um dos últimos bairros em Portugal feitos de tijolo e chapa de zinco estava a começar a ser demolido, decidiu que tinha de tentar lá entrar. Documentar o fim de uma comunidade marginal desde o berço. "A inserção no bairro, foi complicada. São pessoas muito desconfiadas e fechadas para o mundo exterior. Mas, depois de as conheceres e de te dares a conhecer são das pessoas mais simples, humildes e amigas", conta. Ferreira não consegue contabilizar as vezes que lá foi e o tempo que lá passou, mas salienta que foi o necessário para que todos estivessem confortáveis com ele.
Mulher caminha no Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira. Este bairro degradado situa-se a cerca de cinco quilómetros do centro da capital. Construído ilegalmente nos anos 70 por imigrantes Cabo-verdianos e guineenses é, actualmente, um foco de problemas sociais e criminalidade, tráfico de drogas, armas e prostituição.
Carlon, 35 anos, barbeiro, atende um cliente. Natural de Cabo Verde, imigrou aos dois anos de idade com os seus pais, há 18 anos que é o barbeiro do bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Homem (não identificado), no interior da sua casa empunha uma arma de fogo. A posse de armas ilegais é comum entre os membros dos gangs do bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Jovem (não identificado), junto a uma parede com o graffiti “Thug”. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira
Homens praticam exercício numa casa que tinha sido demolida pela Câmara Municipal e posteriormente reconstruída pelos residentes. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Dois homens lutam junto a uma casa demolida. Ambos são “Snipers”, vigias das entradas do bairro que alertam os traficantes para a aproximação de forças policiais e membros de gangs rivais. A luta foi desencadeada porque um dos “Snipers” falhou na sua missão. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Alex (nome fictício) segura na mão uma catana num dos becos do bairro. Uma arma branca que o seu pai trouxe para Portugal quando emigrou no período pós-colonial. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Elvis (nome fictício) mostra uma cicatriz abdominal resultante de um ferimento causado por uma bala perdida durante uma luta com um gang rival. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Ligações clandestinas à rede de energia eléctrica. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. foto por José Ferreira.
Carlos (nome fictício) treina o seu cão “Pitt-Bull” para atacar em frente à sua casa. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Boss G (nome fictício), com uma máscara para ocultar a identidade, mostra as suas jóias de ouro num beco do bairro. Aos 15 anos foi integrado numa casa de correcção juvenil, aos 18 sentenciado a uma pena de prisão por “car-jacking” e aos 25 anos voltou a cumprir pena por assalto a uma joalharia. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Traficante trata plantas de canábis numa estufa ilegal. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Lord (nome fictício) dá banho ao filho de seis meses de idade na sua casa, sem abandonar a arma automática devido a conflitos com a polícia e gangs rivais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Traficante de droga (não identificado) prepara doses para venda, junto a uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Os traficantes acreditam na sua protecção para o negócio. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Toxicodependentes consomem crack numa das habitações devolutas do bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Fátima (à esquerda), 20 anos, dependente de crack, junto a Joana (à direita - nome fictício), também toxicodependente, mulher trans. Ambas trabalhadoras sexuais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Patrulha da Polícia de Segurança Pública. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Wilson, 24 anos, treina boxe diariamente num ginásio instalado numa casa demolida e posteriormente reconstruída pelos residentes. Sonha em ser pugilista profissional. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Criança deitada na cama de sua casa após tomar banho, junto à pistola automática do seu pai, traficante com problemas com as forças da autoridade e gangs rivais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Johnny (nome fictício), olha por uma janela enquanto prepara doses de droga para venda. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Drogas, balança de precisão, arma automática, munições e notas de euros no chão de uma das casas do bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Uma mulher penteia uma jovem e outra alimenta de biberão um bebé. O quotidiano das famílias no bairro. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Esta rua é um autêntico supermercado de estupefacientes, onde os traficantes se juntam para fazer negócio com os residentes e consumidores externos. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa. Foto por José Ferreira.
Rute (à esquerda - nome fictício) e Dany(à direita - nome fictício) acariciam Tivon (nome fictício) numa festa no bairro. Tivon, um dos criminosos mais respeitados do bairro, já foi condenado a penas de prisão mais de quatro vezes, por roubos à mão armada e assaltos a habitações. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Homem espreita por uma janela de um prédio devoluto. É um “sniper”, encarregue de vigiar as entradas do bairro para alerter os traficantes quanto à aproximação de forças policiais e membros de gangs rivais. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Jogo de poker a dinheiro entre habitantes durante a noite. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira
Pai e filha esperam a chegada da mãe após o trabalho. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Homem amputado observa retroescavadora a demolir habitações. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Jovem conduz uma bicicleta. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Casas demolidas no bairro, a Câmara Municipal da Amadora alega que as famílias desalojadas aderiram a programas de apoio ao auto-alojamento. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
Homens e mulheres divertem-se numa festa. Bairro 6 de Maio, Amadora, Lisboa, 2018. Foto por José Ferreira.
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