reportagem

Este brasileiro procura a imortalidade através da inseminação de desconhecidas

Com a ajuda da mulher, João Carlos, 61 anos, engravidou pelo menos 49 mulheres.

Por Camila Corsini
22 Fevereiro 2019, 10:12am

João Carlos Holland Barcellos, engravidou pelo menos 49 mulheres. Foto: Larissa Zaidan/VICE 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Foi no Dia das Mães de 2016 [no Brasil assinala-se sempre no segundo domingo do mês de Maio] que a contabilista Júlia Oliveira, 28 anos, recebeu a notícia que mudaria a sua vida para sempre: ria ser mãe. Pietro, que hoje tem dois anos, foi fruto de uma inseminação caseira (IC) – procedimento não muito comum no Brasil [em Portugal, em 2004 o Público dava conta dos primeiros passos desta técnica no país], mas que ganhou força nos últimos anos com a ajuda das redes sociais. Eu sempre quis ser mãe. De uma forma ou de outra isso ia acontecer na minha vida”, conta Júlia. A única coisa que não esperava era conseguir realizar esse sonho de uma forma tão mais prática e fácil do que imaginou.

Filha única e lésbica assumida desde muito nova, Júlia sempre nutriu o sonho de ter um filho com a ajuda de um doador de sémen não-anónimo. “Descobri um grupo no Facebook e um método totalmente diferente e sem custos. Nesse grupo, o João era um dos doadores com mais credibilidade entre as "tentantes" [nome dado às mulheres que tentam engravidar através da IC]”, revela à VICE.

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Júlia e o filho Pietro, fruto da inseminação caseira com Jocax. Foto: Larissa Zaidan/VICE

O João, ao qual Júlia se refere, é o cientista da computação João Carlos Holland Barcellos, de 61 anos. Desde 2015 ele e a esposa, Luíza, disponibilizam quartos da própria casa, na Zona Oeste de São Paulo, para mulheres que desejam passar pelo procedimento em que Jocax, como prefere ser chamado, é o doador de espermatozóides.

Do imóvel, três quartos são utilizados para que as ICs aconteçam. O espaço é bastante simples: paredes verde-claras, iluminação amarelada, uma cama, alguns móveis, almofadas, ventilador e cobertores. O casal alugou uma casa maior justamente para poder receber mais de uma "tentante" por dia. Por 100 reais [cerca de 23 euros] a mulher que se submeterá ao procedimento e quem a acompanhe têm direito a banho, Internet, pequeno-almoço, almoço e jantar. Pelas 21h00 o segundo andar da vivenda fica mais agitado.

Como tudo acontece

As "tentantes" são orientadas por ele, através de um grupo do Facebook e WhatsApp, para identificarem o período fértil e o dia de ovulação. É nesse momento que elas entram em contacto com o casal e marcam o melhor dia para que a fecundação aconteça.

Em algum momento oportuno da noite Jocax e Luíza fazem sexo. Após o acto, ela recolhe o sémen do marido e leva-o a um dos quartos localizados na parte de trás da casa. Quando há mais de uma "tentante" na mesma noite, uma só ejaculação é suficiente para até três mulheres. O líquido é injectado no útero das "tentantes" por elas próprias ou com a ajuda da própria Luíza, com o auxílio de um espéculo, uma pipeta (usada também para inseminações caninas) e uma seringa.

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Três quartos da casa são usados pelas "tentantes" para realizar o procedimento. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Após o procedimento, bastam 30 minutos com os pés para cima. O teste de gravidez positivo deve chegar em duas semanas, indicando o sucesso do procedimento. As inseminações caseiras realizadas pelo casal já valeram pelo menos 99 testes de gravidez positivos em mulheres espalhadas por todo o Brasil e 49 bebés já nascidos. Na vida pessoal, Jocax é pai de outras 15 crianças.

O doador isenta-se de qualquer direito ou dever a respeito das crianças fruto da inseminação e, apenas se a mãe quiser, pode ser feito um contrato alegando que ele apenas doa o sémen para que a gravidez aconteça. Caso contrário, é tudo feito na base da confiança. As mulheres que procuram o procedimento são, na grande maioria, homoafectivas, mas João Carlos revela que heterossexuais também já engravidaram através do método. “Só não deixamos o homem entrar em casa, mas a 'tentante' pode vir com a mãe, irmã, amiga, tanto faz”, explica.

Genética e Genismo

Conforme descreve no seu site, Jocax é loiro grisalho, tem olhos azuis, 1.80 m de altura, 80kg e sangue O negativo, além de carregar os genes das ascendências portuguesa, inglesa, alemã e indiana. É também no site que fornece os seus exames de sangue, feitos anualmente, para tranquilizar as mulheres.

Na plataforma online (minimalista, de cores e fontes simples) ele conta sobre o método que desenvolveu para explicar a reprodução humana, o Genismo. Ateu militante, como o próprio se descreve, diz que o ideal por detrás do termo tem como objectivo imputar a ideia consciente de que os genes são importantes. “Para mim, um filho é uma forma de imortalidade. Eu vou morrer, mas os meus genes ainda vão continuar por aqui através deles”, explica.

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Foto: Larissa Zaidan/VICE

Para Jocax, o principal motivo para a procura da inseminação caseira é o valor. “Na clínica é muito caro. Enquanto lá chega aos 10 mil reais [cerca de 2.350 euros], aqui é só o valor do quarto”, salienta à VICE. E acrescenta: “Outro ponto positivo é conhecer o doador. Na clínica não se sabe se o tipo é retardado, se é muito feio. Pode ser um ex-presidiário e não se sabe. É um tiro no escuro”.

Júlia, mãe de Pietro, considera o valor o maior diferencial, mas a sua procura por um doador não-anónimo também tinha outro motivo. “Perguntei qual seria a reacção dele se algum dia o meu filho quisesse conviver com ele e ele respondeu ‘É o seguinte: se a mãe quiser esse contacto, é óbvio que eu quero. É meu filho’. Portanto, aquilo me deixou com o coração muito feliz, porque o meu maior medo era o Pietro crescer e eu ter que lhe esconder a sua história”, conta.

Após conferir os exames de Jocax e de se certificar que estava tudo certo na saúde de ambos, foram quatro ciclos de tentativas no espaço de mais ou menos um ano até a contabilista conseguir engravidar. Três delas foram com João Carlos e a outra com um doador búlgaro. “Todos os negativos foram importante para não pensar em desistir. Vi que realmente tinha de passar por aquilo para ter ainda mais força e acreditar que o meu sonho se poderia realizar”.

Com o resultado do teste de gravidez positivo, a contabilista teve uma gravidez tranquila e, ao contrário do que alguns médicos diziam, Pietro nasceu totalmente saudável. “Orgulho-me muito do método e, se fosse necessário, faria tudo de novo para o ter. O João Carlos é um anjo”.

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Pietro, 2 anos, encontra-se constantemente com João Carlos e também com os seus meio-irmãos. Foto: Larissa Zaidan/VICE

O primeiro contacto do casal com Pietro foi três meses após o seu nascimento e, apesar de ser o nono bebé a nascer através do método, foi a primeira vez em que a mãe decidiu manter contacto com o casal. “Pelo menos uma vez a cada três meses tento vê-los e também converso com algumas mães dos seus meio-irmãos. E é incrível porque, mesmo sem entender ainda, ele já chama João de pai”, revela.

Agora, Júlia está à procura de um irmão ou irmã para o filho. “Sempre tive na minha cabeça que queria ter dois filhos e agora estou em busca do meu segundo positivo. Fiz a primeira tentativa este mês e vou tentar até resultar”, completa.

Ilegalidade

A advogada criminalista Carla Rahal explica que o método não é reconhecido no Brasil como uma forma legal de filiação e paternidade e, por isso, os direitos e deveres são os mesmos de uma gravidez comum. “A mulher pode cobrar pensão, uma vez que a paternidade seja reconhecida pelo exame de ADN e o doador pode também pedir a guarda partilhada da criança”, realça. Quanto ao contrato feito com algumas mães, a criminalista explica que a validade jurídica é julgada em particular, dependendo da situação, já que envolve menores de idade e o procedimento não é regulamentado.

Sob os olhares da medicina, a técnica também não é nada bem vista. Segundo o ginecologista e director de Reprodução Humana do Hospital Pérola Byington, Mario Cavagna, o método não deve ser feito e nem incentivado. “A inseminação tem um momento certo para ser feita, é preciso ter um controlo de ovulação. Isso exige uma monitorização médica e até, eventualmente, o uso de algumas medicações. A prática caseira chega a ser criminosa”, defende.

Segundo Cavagna, o Sistema Único de Saúde oferece tratamentos totalmente gratuitos a mulheres que querem engravidar. “Conseguimos fazer de 50 a 100 ciclos de inseminação por ano, o que é um número muito menor do que a oferta. Teríamos que fazer 10 vezes mais para atender toda a procura. A demanda que não encontra resposta é realmente grande e isso dá margem para procedimentos ilegais”, explica.


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