análise

Como receitas de bolos se tornaram numa forma de resistência à ditadura militar no Brasil

Para enganar o sistema de censura do regime militar brasileiro que tomou o poder em 1964, jornalistas começaram a publicar receitas de bolos subversivas nas páginas impressas.

Por Biju Belinky; fotos por Ludmila Bernardi
18 Janeiro 2019, 12:29pm

Este artigo foi publicado originalmente na nossa plataforma Munchies.

O ano era 1968. O lugar, Brasil. Os militares tinham assumido o governo quase quatro anos antes e, nos últimos meses, a repressão ditatorial estava a ficar mais forte. Grupos de mais de três pessoas em sítios públicos era considerado como uma potencial conspiração e, portanto, algo suspeito. Muitas cidades tinham hora de recolher. As pessoas eram presas regularmente por mostrarem “tendências subversivas”, sem nenhuma outra explicação. Qualquer música, livro, filme ou peça de teatro tinha que passar por um censor antes de ser lançado.

Abrias um jornal numa página aleatória e, entre três artigos sobre assuntos relativamente mundanos e um poema, estavam quatro receitas de bolos – o que parecia ser demasiado. Duas delas eram exactamente iguais. Uma delas terminava assim do nada, a meio das instruções. Outra pedia para usares um quilo de sal.


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Algo não batia certo. Ou, pelo menos, era nisso que a redação dos jornais mainstream brasileiros que passavam pela censura pesada queriam que reparasses – e, portanto, notícias consideradas inapropriadas para publicação pelo governo eram substituídas por excertos de “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões e receitas de bolo de fubá impossíveis de comer.

“As pessoas da redação pensaram: 'precisamos de dizer aos leitores que estamos a ser censurados'. Foi quando as receitas começaram a aparecer, para além de excertos de poemas, tudo para transmitir: a informação estava aqui e foi censurada”, explica Maurice Politi, chefe do Núcleo de Preservação da Memória Política e ex-prisioneiro político.

“E não eram só notícias políticas que eram censuradas”, continua. E acrescenta: “Em 1972, houve uma epidemia de meningite no Brasil. Mais de três mil crianças morreram, porque era proibido publicar num jornal que o Brasil estava a lidar com meningite”.

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Ingredientes para um bolo de fubá, uma receita e recortes de jornal de notícias censuradas durante a ditadura militar, que durou de 1964 a 1985, além de uma manchete actual sobre o uso de uma receita de bolo numa performance artística.

Hoje, quase 34 anos desde o fim oficial da ditadura no Brasil, o legado das receitas de bolo como indicadores de informação reprimida continua a flutuar no éter da cultura brasileira. Não é raro uma receita aleatória aparecer em algum lugar onde não deveria estar – uma maneira usada por jornalistas, políticos e artistas para fazer referência aos tempos dolorosos da repressão e para informar o público que, apesar de não na mesma escala, a censura ainda é muito possível.

Durante a ditadura, cada jornal arranjou uma maneira própria de resistir à presença de censores nas redações. Fosse ao publicar imagens de demónios, primeiras páginas sem manchetes, bilhetes ou até cantarolar “Strangers In The Night”, de Frank Sinatra, para alertar sobre a chegada de um visitante não-familiar entre repórteres. Só O Estado de São Paulo foi impedido de publicar mais de 1.100 artigos durante o período ditatorial e publicou o mesmo poema português 655 vezes. Muitas vezes como tentativa de informar sobre mortes suspeitas de jornalistas e activistas, para além de crimes políticos e tortura. Este número não inclui a quantidade de artigos que nunca chegaram a ser escritos por auto-censura dos repórteres, uma prática muito comum na época por motivos de segurança.

“Sabíamos quando alguma coisa tinha sido censurada. Ser jornalista na altura era muito difícil”, explica Adélia Borges, uma jornalista que começou a trabalhar no Estado de São Paulo em 1972, aos 21 anos. “Não só a imprensa – qualquer grupo com mais de três pessoas era considerado suspeito. Qualquer reunião podia ser encerrada arbitrariamente. Era um ambiente muito tenso”.

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Uma página d'O Jornal da Tarde, com receitas de bombons e pratos salgados, em vez de notícias políticas. Imagem via Memorial da Democracia.

As receitas de bolo, que acabaram por se tornar emblemáticas dessa censura, eram mais conhecidas por aparecerem no Jornal da Tarde, publicação que, hoje em dia, já não existe. Eram, habitualmente, simples, com bolos tradicionais que eram de conhecimento geral na maioria das casas brasileiras, como bolo de fubá ou de cenoura. Outra publicação, O Jornal do Brasil, publicava receitas de bombons caseiros em vez das notícias censuradas.

Como as receitas eram inseridas mesmo antes da impressão, sempre que havia espaços em branco deixados por textos de tamanhos variados cortados, as instruções das receitas ficavam muitas vezes incompletas e a mesma receita, para o mesmo bolo, era repetida em várias partes da edição. Em raras ocasiões, o título das receitas era uma referência crítica a certos políticos, cujos apelidos mencionavam nos ingredientes. Muitas vezes, o produto final era algo que, se feito, seria impossível de comer, recebiam até reclamações de leitores que as tentavam cozinhar. Algumas pessoas achavam mesmo que a abundância de receitas nas páginas do Jornal da Tarde significava que a publicação queria conseguir mais público feminino.

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A autora a preparar um tradicional bolo de fubá.
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O que não poderia estar mais longe da verdade, confirma Adélia, que, quando era uma jovem jornalista, também trabalhou para o Movimento, uma publicação menor, vista por muitos como de resistência ao regime. Durante aquele tempo, ela fez uma edição especial sobre as mulheres trabalhadoras no Brasil.

“Usámos as estatísticas oficiais do governo disponíveis sobre trabalho para mulheres. Ali, havia uma retrato claro da desigualdade de salário, para além da falta de mulheres em papéis de liderança”, conta. E acrescenta: “O conteúdo daquela edição foi 85 por cento censurado, incluindo os números oficiais do governo. A edição nunca foi impressa”.

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Um bolo de fubá numa cela restaurada do DOPS, no Memorial da Resistência em São Paulo. Durante a ditadura, mais de 40 prisioneiros políticos foram mantidos aqui enquanto esperavam por tortura.
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Nomes dos "heróis do povo" gravados na parede da cela no Memorial da Resistência, um dos únicos lugares com lembranças da ditadura militar. “Algumas pessoas vêm aqui e negam que a ditadura aconteceu”, diz Marília Bonas, coordenadora do memorial, referindo-se à tendência actual de tentar apagar o passado.

Apesar desse nível de censura e dos bolos que isso envolveu parecerem coisas do passado, as cicatrizes da ditadura no Brasil ainda aqui estão. O número de vítimas assassinadas é apenas uma estimativa e muitos documentos que poderiam mostrar o verdadeiro grau da violência da época ainda estão desaparecidos.

Em 2019, o presidente Jair Bolsonaro assumiu a sua admiração por coronéis conhecidos por torturarem prisioneiros políticos de maneira particularmente cruel e indicou vários militares para posições-chave do seu governo. Ao conversar com os sobreviventes do regime e de jornalistas que trabalhavam na altura, há uma sensação de desconforto quase palpável.

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Bolo de fubá.

“Estamos a entrar em tempos perigosos”, diz-me Politi, quando lhe pergunto sobre o clima político actual. “Não vejo detenções a acontecerem imediatamente, mas há militares em todos os ministérios. E eles não precisam de voltar à mesma violência de há anos atrás, porque são tempos diferentes. Mas, a coisa pode ficar feia se não houver resistência – se o congresso não reparar que estamos a ir rumo a um regime autoritário”.

Com apenas 14 dias de 2019 decorridos, o colectivo artístico És Uma Maluca foi impedido de usar gravações de voz de Bolsonaro numa instalação que criticava os horrores da ditadura. Em vez disso, colocaram uma pessoa a ler uma receita de bolo.


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