Seitas

As sessões de cinema que antecederam o massacre de Jonestown

Ver filmes era um hábito comum no Templo do Povo, a seita que levou mais de 900 pessoas à morte na Guiana.

Por Daniel Salomão Roque
07 Fevereiro 2019, 4:07pm

Investigadores do FBI vasculham o acervo audiovisual da seita. Foto cedida por Jonestown Institute.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Naquela noite de sexta-feira, 17 de Novembro de 1978, tudo parecia tranquilo. Os adultos conversavam, debruçados sobre mesas de madeira. As crianças menos tímidas sorriam. Cachorros corriam de um lado para o outro. No palco, a banda apresentava uma cover de "That's the way of the world", sucesso dos Earth, Wind & Fire. A plateia batia palmas, numa tentativa meio desengonçada de acompanhar o ritmo da música, cuja letra enaltecia a superação de problemas, a esperança no futuro e a celebração dos dias especiais. Um jovem casal de namorados dançava pelos cantos do salão.

Leo Ryan, deputado filiado do Partido Democrata da Califórnia, gostou do que viu. “Ao falar com vocês, percebi que este lugar foi a melhor coisa que já aconteceu nas vossas vidas”, disse ao microfone. O seu veredicto foi ruidosamente aplaudido. Aqueles cidadãos norte-americanos, que o recebiam com uma festa de boas-vindas em plena selva, eram membros de uma seita – o Templo do Povo. Ryan, chefe de uma comitiva formada por jornalistas e congressistas, estava lá para os investigar.

Sobre o líder do culto, o reverendo Jim Jones, pairavam as mais diversas suspeitas. Jonestown, o assentamento agrícola erguido pelos seus discípulos no meio das densas florestas tropicais da Guiana, era, de acordo com denúncias recebidas por Ryan, um antro de violações de direitos humanos. A atmosfera festiva, contudo, parecia desmentir as terríveis histórias que o deputado ouvira nas semanas anteriores. O semblante alegre das pessoas ali presentes não condizia com uma rotina de violações, tortura, privação de liberdade, trabalho escravo e abuso psicológico.

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O reverendo Jim Jones, líder da seita Templo do Povo, baseada na selva guianense. Foto gentilmente cedida por Doxsee Phares e Jonestown Institute.

Em menos de 24 horas, porém, quase todos os convidados daquela festa sucumbiriam a uma cerimónia de suicídio colectivo e assassinato em massa. O deputado Ryan, três jornalistas e uma moradora que tentava abandonar a comunidade seriam executados a tiro em Port Kaituma, uma pequena vila a 11 quilómetros dali. Os fiéis, guiados por Jones, envenenariam os filhos com cianeto diluído em sumo de uva – a mesma solução que tomariam para acabar com as suas próprias vidas. O reverendo, depois, cairia junto dos discípulos, sob efeito de barbitúricos e com o crânio perfurado por uma bala. No final da noite de sábado, 918 pessoas estariam mortas, incluindo 304 crianças e adolescentes. Cerca de 70 por cento das vítimas eram negras.

“Quando cheguei a Jonestown, havia por toda a parte um cheiro desagradável. Os únicos sons dentro do acampamento eram uivos e latidos de cães, como se ecoassem as súplicas dos falecidos”, revelou, quatro meses depois, um funcionário do governo guianense. As suas impressões, publicadas num relatório oficial em Março de 1979, vinham agregadas a uma proposta: “Deveria ser feito um esforço consciente para capitalizar sobre o desastre. É necessário encorajar o desenvolvimento de uma indústria turística voltada para o mercado nacional e estrangeiro”.

Parques de campismo, centros comerciais e zonas de pesca foram alguns dos empreendimentos sugeridos pelo funcionário para a revitalização da área. O relatório mencionava ainda uma possível venda de souvenirs, tais como pósteres, placas decorativas e mapas da Guiana com Jonestown em posição de destaque. Os devaneios mais entusiasmados, no entanto, estavam reservados à sétima arte.

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Uma das 267 cassetes de vídeo encontradas em Jonestown: cópia do filme "The Front", realizado por Martin Ritt e protagonizado por Woody Allen. Foto gentilmente cedida pelo Jonestown Institute.

“Uma actividade interessante seria a abertura de um cinema para entreter e educar aqueles que, eventualmente, venham a morar na região”, defendia o funcionário. E acrescentava: “Filmes ocidentais não são prioridade. Na sua maioria, os filmes deviam retratar a cultura guianense e modelos de países socialistas, como China, Cuba e Tanzânia”.

As ideias nunca saíram do papel. Hoje, o terreno de 3.852 acres, próximo da fronteira com a Venezuela, encontra-se praticamente coberto pela selva. Contudo, o recurso a um repertório cinematográfico como instrumento de formação política teria representado a continuidade de um projecto mais antigo. No Templo do Povo, ver filmes era um hábito comum, que moldava a rotina e a imagem pública da seita – sobretudo após o êxodo dos seus membros para a América do Sul, a partir de 1974.


Vê: "'The Family', a mais notória seita religiosa da Austrália"


Em Junho daquele ano, os primeiros discípulos do Templo embrenharam-se nas florestas guianenses, lançando as bases do acampamento idealizado por Jones. Quem permanecia nos EUA, como Edith Roller, uma professora universitária de São Francisco, acompanhava com ansiedade as notícias que chegavam. “Teremos o nosso próprio cinema”, anotou ela no seu diário, no dia 11 de Fevereiro de 1976, dois anos antes de se mudar para lá.

Os filmes eram exibidos uma ou duas vezes por semana, sempre à noite. De modo geral, abordavam temas importantes para Jones: tensões raciais na América, fantasmas do nazismo, dilemas da classe trabalhadora, teorias da conspiração, atentados políticos e estratégias de sobrevivência ao apocalipse. Vê-los era muitas vezes obrigatório, com direito a testes e chamada oral, mas a vertente didáctica e burocrática do reverendo não amortecia a gula cinéfila de certos fiéis: “De vez em quando, passam um filme no pavilhão e outro no refeitório, não sabes qual dos dois ver!”, escreveu numa carta a secretária Marlene Wheeler, a 19 de Novembro de 1977, poucos dias depois de chegar a Jonestown.

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Catálogo da distribuidora de filmes que fornecia Jonestown. As rasuras e anotações provavelmente são do reverendo. Imagem gentilmente cedida pelo Jonestown Institute.

Em parte, a programação era pautada pelo acervo cinematográfico da própria seita – formado, segundo o levantamento do FBI, por 267 cassetes de vídeo. A maior parte dos filmes, no entanto, eram alugados a centenas de quilómetros dali, numa distribuidora sediada em Georgetown, capital da Guiana. O catálogo da empresa, que fornecia cópias em 16mm de grandes produções hollywoodescas, listava um total de 228 títulos, especificando géneros e as estrelas de cada elenco.

A VICE extraiu da vasta documentação produzida pelo Templo do Povo, as impressões de Jones e dos seus discípulos sobre 10 dessas longas-metragens – todas elas vistas ou debatidas durante o segundo semestre de 1977 - quando a seita se transferiu para Guiana de forma definitiva - e 18 de Novembro de 1978, o dia do massacre. Baseadas em correspondências, diários pessoais e cassetes, as notas formam um mosaico das relações quotidianas que precederam uma das piores tragédias do século XX.

Nota: O acervo documental da seita encontra-se disponível para consulta pública no site Alternative Considerations of Jonestown & Peoples Temple, fruto de uma parceria entre o Departamento de Estudos Religiosos da Universidade Estadual de San Diego e o Instituto Jonestown, entidade formada por sobreviventes do grupo.

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"O Poder Negro": a cabeça de um militante afro-americano é colocada a prémio depois de um assalto. “Acho que o filme transmite um sentimento de derrota”, lamentou Jones. Imagem: divulgação

Uptight, EUA, 1968
Realizado por Jules Dassin

Após o assassinato de Martin Luther King, revolucionários negros saqueiam um depósito de armas. Johnny Wells (Max Julien), líder do grupo, é identificado pela polícia e executado poucos dias depois. Os membros restantes dão conta de que entre eles há um informador.

Como o filme foi visto:

Este precursor do movimento blaxploitation, exibido em Jonestown no dia 8 de Agosto de 1978, ilustrou algumas críticas do reverendo aos rumos tomados pela militância afro-americana. “Eles tentam fazer-nos lavagem cerebral para que acreditemos numa revolução armada sem o apoio da classe trabalhadora. Isso é uma estupidez”, sentenciou. E acrescentou: “O filme oferece respostas aos problemas do povo negro que vive nos guetos da América? Não. Acho que transmite um sentimento de derrota e é isso que eles pretendem”.

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A classe trabalhadora revolta-se contra o patronato em "Harlan County, USA". “Essa é a única esperança para a América”, pregou o reverendo. Imagem: divulgação

Harlan County, U.S.A., EUA, 1976
Realizado por Barbara Kopple

Documentário sobre os piquetes e confrontos violentos que marcaram a greve dos mineiros de Brookside, pequena cidade norte-americana no Condado de Harlan, Kentucky. O movimento, duramente reprimido pelas entidades patronais, teve início em Junho de 1973 e chegou ao fim no ano seguinte, com a vitória dos trabalhadores.

Como o filme foi visto:

“Como vimos, no filme Harlan County surge pela primeira vez uma união entre negros e brancos, para além das questões raciais”, observou Jones num sermão gravado a 28 de Setembro de 1978. Esses movimentos, dizia o reverendo, “deixaram de lutar pela libertação negra ou branca, o que seria ridículo e adoptaram uma posição mais ampla: a emancipação da classe trabalhadora. Essa é a única esperança para a América”, alertou dirigindo-se aos fiéis.

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Gary Cooper e Ingrid Bergman beijam-se em "Por Quem os Sinos Dobram", adaptação do romance homónimo de Hemingway. “A ênfase no relacionamento amoroso pareceu-me parva e desnecessária”, queixou-se Edith Roller. Imagem: divulgação

Por Quem os Sinos Dobram ( For Whom the Bell Tolls, EUA, 1943)
Realizado por Sam Wood

Durante a Guerra Civil Espanhola, um professor norte-americano (Gary Cooper) alista-se nas Brigadas Internacionais e recebe a missão de explodir uma ponte em Segóvia. A convivência com os guerrilheiros anti-fascistas locais faz com que se apaixone por uma companheira de luta (Ingrid Bergman). Baseado no romance homónimo de Ernest Hemingway.

Como o filme foi visto:

“Através da propaganda contida nos filmes de Hollywood”, explicou Jones a 31 de Maio de 1978, “vocês podem reparar como os indivíduos são criados para serem robots apáticos, imersos em desvios, revisionismo e desespero escapista”. A norma, frisava o reverendo, tinha as suas excepções: “Com uma interpretação adequada, filmes de Hollywood podem ser educativos”.

Parece ter sido o caso de Por Quem os Sinos Dobram, exibido meses depois, no dia 16 de Agosto. “É o filme preferido de Fidel Castro”, alegou Jones, “e entram alguns dos melhores actores de Hollywood”. O reverendo tornaria a elogiar o filme num outro sermão, de data desconhecida: “É um filme extraordinário, de sensibilidade, estratégias e tácticas revolucionárias”.

No dia da sessão, Edith Roller anotou no seu diário: “É um excelente filme, com boas lições para activistas políticos”. Mas, fez uma ressalva: “A ênfase no relacionamento amoroso pareceu-me parva e desnecessária”.

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"The Getaway", de Sam Peckinpah: um dos poucos filmes policiais bem recebidos pela seita. Imagem: divulgação

The Getaway, EUA, 1972
Realizado por Sam Peckinpah

O ladrão Doc McCoy (Steve McQueen), detido numa prisão de máxima segurança no Texas, pede à esposa Carol (Ali MacGraw) que negoceie a sua liberdade condicional com Jack Beynon (Ben Johnson), um empresário corrupto da região. Beynon faz sexo com Carol e manda Doc assaltar um banco.

Como o filme foi visto:

O cinema policial não era bem-visto em Jonestown. No dia 13 de Fevereiro de 1978, Edith Roller irritou-se com uma sessão de A Lei de Newman, que apresentava George Peppard no papel de um investigador adepto de execuções extrajudiciais – os seus principais alvos eram traficantes negros. “O filme era horrível. Eu não o teria visto até ao fim se não fosse pelos comentários de Jim”, escreveu. E justificou:,“Ele apontou os elementos racistas. A violência excessiva também era deplorável”.

Em meados de Abril, o reverendo denunciaria a exibição de obras similares na televisão americana. “Filmes policiais e histórias de detectives libertam a violência nas pessoas e fazem com que elas se sintam fracas, depois de aliviarem a sua raiva”, explicou. E acusou: “Tudo isso tem sido premeditado pelos canais de media”. Surpreendentemente, The Getaway foi bem acolhido pela seita. “O filme desta noite é um filme de entretenimento”, disse Jones a 9 de Setembro. E salientou: “Estou a trazer-vos um filme despretensioso, porque ele faz com que os trafulhas pareçam boas pessoas e eu gosto que os trafulhas pareçam boas pessoas quando estão a combater o capitalismo”.

Como muitos dos filmes de Sam Peckinpah, The Getaway é protagonizado por marginais e a instabilidade emocional dos seus personagens traduz-se num sentimento de violência estilizada, que parece ter caído no goto do reverendo. “O filme não glorifica os criminosos de colarinho branco, mas sim as pessoas que lutam contra o sistema”, argumentou. E concluiu: “É muito raro mostrar isto e finais como o deste filme já não existem em Hollywood”.

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Os alienígenas visitam a Terra em "Encontros Imediatos do Terceiro Grau", um dos primeiros sucessos de Steven Spielberg. “Diversionário e opiáceo”, condenou o reverendo, provavelmente sem ter visto o filme. Imagem: divulgação

Encontros Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, EUA, 1977)
Realizado por Steven Spielberg

Ao avistar um disco voador a cruzar os céus de Indianápolis, o electricista Roy Neary (Richard Dreyfuss) assume comportamentos erráticos. O seu caminho cruza-se com o de Jillian Guiler (Melinda Dillon), uma dona de casa cujo filho é abduzido por alienígenas. Enquanto isso, um grupo de cientistas ligados ao governo norte-americano aguarda a chegada dos visitantes interplanetários.

Como o filme foi visto:

Quando Encontros Imediatos do Terceiro Grau estreou nos cinemas norte-americanos, em Novembro de 1977, Jones e os seus discípulos já tinham abandonado os EUA há quatro meses. É improvável que o reverendo algum dia tenha visto ao filme, mas nem por isso deixou de bombardear os fiéis com algumas opiniões pré-concebidas.

“A primeira ideia que Encontros Imediatos promove”, acusou a 6 de Junho de 1978, “é a de que o capitalismo ocidental representa a apoteose da civilização. Os visitantes de inteligência mais elevada escolhem deliberadamente os EUA como ponto de encontro, em vez de um local semelhante na vanguarda marxista-leninista da sociedade soviética”.

O filme priorizava as relações interplanetárias em detrimento da luta de classes e isso, segundo Jones, era problemático: “É diversionário. É um opiáceo”, advertiu. E acrescentou: m“É por isso que todos os filmes que nós aqui vemos devem ser interpretados pelas suas propagandas, mesmo que numa base subliminar”.

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Um biólogo e a sua família lutam pela sobrevivência em "No Blade of Grass", ficção científica pós-apocalíptica, exibida em Jonestown com fins motivacionais. Imagem: divulgação

No Blade of Grass, Reino Unido / EUA, 1970
Realizado por Cornel Wilde

Em 1970, o Planeta enfrenta uma hecatombe ambiental: os rios estão envenenados e a disputa por alimentos provoca guerras civis pelo mundo fora. Quando o governo de Inglaterra decreta estado de quarentena, o biólogo John Custance (Nigel Davenport) foge com a família para um sítio na Escócia.

Como o filme foi visto:

No Blade of Grass foi exibido em Jonestown com propósitos bastante específicos: insuflar nos habitantes o ímpeto missionário e o horror ao mundo externo. A abordagem sensacionalista do filme ilustrava um dos grandes consensos da comunidade: o Planeta estaria à beira de uma catástrofe generalizada e apenas os fiéis do Templo escapariam com vida. “Não há radiação a cruzar o nosso caminho. As correntes de vento têm sido gentis connosco. Em direção ao sul, temos todo o espaço para avançar, caso seja essa a nossa vontade”, pregou o reverendo em Novembro de 1977.

Jonestown já contava com 800 habitantes, mas alguns deles mostravam-se arrependidos e tentavam, sem sucesso, regressar aos EUA. “Todas essas burocracias governamentais serão definitivamente derrubadas”, sentenciou Jones. E realçou:m “Podemos ir para qualquer lugar que quisermos. E 800 pessoas formam um bom exército. Precisamos de ver novamente aquele filme, No Blade of Grass. Vocês viram o que cerca de 25 pessoas fizeram enquanto pavimentavam o caminho em direção a uma terra melhor”.

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Jones: “Quero aprender tudo o que for possível sobre assassinatos. E 'O Dia do Chacal' ensina muita coisa”. Imagem: divulgação

O Dia do Chacal (The Day of the Jackal, Reino Unido / França, 1973)
Realizado por Fred Zinnemann

Dissidentes do exército francês organizam-se numa célula paramilitar de extrema-direita e contratam os serviços de Chacal (Edward Fox), um mercenário britânico sobre o qual pouco se sabe. Por 500 mil dólares, ele aceita a sua última missão: assassinar o presidente Charles de Gaulle.

Como o filme foi visto:

O Dia do Chacal foi exibido pelo menos duas vezes em Jonestown: num sábado, 18 de Março de 1978 e na sexta-feira seguinte, dia 24. Edith Roller esteve presente em ambas as sessões. Sobre a primeira delas, escreveu: “Ainda que tenha sido difícil simpatizar com Charles de Gaulle e o establishment, foi um filme muito instrutivo, revelando como o estado organiza os seus recursos em questões de segurança”. No dia 24, observou: “Jim teve mais simpatia pelo mercenário do que pelo presidente”.

Jones, enérgico, declarou naquela semana: “Estou-me borrifando para o cinema. Só vejo filmes por uma questão de estratégia. Interesso-me por assassinatos. Quero aprender tudo o que for possível sobre assassinatos. E O Dia do Chacal ensina muita coisa”. Mais tarde, Larry Tupper, um rapaz de 13 anos, admitiria que as sessões o aborreciam e que não tinha compreendido o enredo da longa-metragem. “É uma história complicada”, respondeu Jones, antes de se dirigir novamente aos fiéis. “Quantas crianças não entenderam O Dia do Chacal?”, perguntou, “Vocês, professores, deviam estar a ensinar-lhes!”.

Entre adultos, o interesse foi um pouco maior. Convidados a responder a perguntas sobre o que fariam nos seus últimos momentos de vida, dois moradores acabaram por se lembrar do filme. Harold Bogue pretendia regressar aos EUA, encontrar-se com inimigos da seita e “detonar uma bomba suficientemente forte para explodir toda a gente em pedaços”, ou talvez “abatê-los um por um, como se eu fosse o Chacal”. Phillip Blakey, por sua vez, expressou o seguinte desejo: “Eu gostaria de executar fascistas, ao estilo de O Dia do Chacal. Iria para cima dos fascistas, dispararia contra eles e, depois, dava um tiro em mim mesmo”.

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Donald Freed e Mark Lane, argumentistas de "Executive Action", foram contratados para produzir uma longa-metragem sobre o Templo do Povo. Imagem: divulgação

Executive Action, EUA, 1973
Realizado por David Miller

Insatisfeitos com a administração do presidente John F. Kennedy, políticos e magnatas elaboram um plano para o assassinar nos últimos meses de 1963, utilizando Lee Harvey Oswald como bode expiatório.

Como o filme foi visto:

À medida que as denúncias contra o Templo se acumulavam, Jones mostrava-se cada vez mais decidido a produzir uma cinebiografia da seita. Para a tarefa, recrutou Donald Freed e Mark Lane, autores de diversos livros sobre teorias da conspiração – juntos, tinham escrito o argumento que servira de base para Executive Action. Cópias da longa-metragem engrossavam a videoteca de Jonestown.

Em Agosto de 1978, a dupla realizou uma série de visitas ao acampamento, sem poupar elogios às condições de vida dos fiéis. “A sobrevivência da humanidade depende de um certo tipo de empreendimento radical e Jonestown sobressai como um exemplo sem igual”, declarou Freed no dia 26.

No enredo da cinebiografia, adversários e dissidentes seriam retratados como marionetes do governo norte-americano, cujos serviços de inteligência secreta estariam por detrás de um grande conspiração contra Jonestown. Um documento redigido por Lane e apresentado ao reverendo no dia 27 de Setembro continha algumas considerações sobre o projecto: “A produção de um filme destes seria extremamente cara para o Templo do Povo, podendo ser encarada com suspeitas caso não conte com certos auspícios”. Lane prometia entrar em contacto com o “melhor documentarista da televisão francesa” (de identidade não revelada) e sugeria a Jones que cedesse os direitos de exibição a emissoras do país europeu.

Dez dias depois, o reverendo contou uma novidade aos fiéis: “Em breve receberemos visitas de actores de Hollywood e representantes de estúdios cinematográficos. Eles estão fascinados e viverão connosco por algum tempo. Essa é a única maneira de captarem o espírito de Jonestown”. O projecto, no entanto, seria abortado no mês seguinte, com a chegada de outro visitante: o deputado Leo Ryan.

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“Viste 'I Will Fight No More Forever'?”, perguntou Jones a uma discípula durante a cerimónia de suicídio colectivo. Imagem: divulgação

I Will Fight No More Forever (EUA, 1975)
Realizado por Richard T. Heffron

Em 1877, na fronteira entre os estados norte-americanos de Oregon e Idaho, o Chefe Joseph (Ned Romero), líder dos índios Nez Perce, recusa-se a ceder as terras da sua tribo aos colonos brancos. A resposta violenta das autoridades conduz a um movimento de resistência indígena.

Como o filme foi visto:

A chegada do deputado Ryan parecia confirmar os mais sombrios prognósticos do Templo. Jonestown, segundo o reverendo, seria inevitavelmente destruída pelo governo dos EUA, não restando aos moradores outra alternativa senão o “suicídio revolucionário”. O ritual, muitas vezes discutido e ensaiado, estava prestes a ser colocado em prática.

“Eles vão torturar as nossas crianças. Eles vão torturar o nosso povo. Eles vão torturar os nossos idosos”, discursou Jones num sábado, 18 de Novembro, logo após o assassinato do congressista. As ordens eram claras: os fiéis, reunidos no pavilhão central, deviam matar os próprios filhos e depois a si mesmos. Mas, alguns resistiam.

“Não estou pronta para morrer”, argumentou Christine Miller, uma escriturária de 60 anos. “Não acredito que tu estejas”, respondeu Jones. “Olho para os bebés e penso que eles merecem viver”, disse a moradora. “Concordo, mas eles também merecem paz”, insistiu o reverendo. “Todos nós viemos para cá em busca de paz”, rebateu Miller. “E encontrámos?”, questionou Jones. “Não”, lamentou a escriturária, “mas se nos auto-destruirmos, estaremos a ser derrotados. Deixaremos que eles, os inimigos, nos derrotem”.

“Viste I Will Fight No More Forever?”, perguntou o reverendo – o western, originalmente produzido para televisão, tinha sido exibido em Jonestown algumas vezes. “Sim, vi”, respondeu Miller. “E percebes algum sentimento de orgulho e vitória naquele homem?”, perguntou Jones, fazendo menção ao protagonista, Chefe Joseph, que se rende às autoridades na última cena do filme. “Bem, eu acredito que os índios tenham errado no momento em que resolveram descansar”, sustentou a escriturária.

James McElvane, um assistente social de 46 anos, interveio na discussão: “Seja paciente, irmã. O dia foi bonito e continuará a ser. É só o que eu digo”, afirmou, sob aplausos da multidão. Ambos morreram.

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O bombardeamento de Pearl Harbor em 'Tora! Tora! Tora!', filme VISTO por alguns sobreviventes no dia do massacre. Imagem: divulgação

Tora! Tora! Tora! (EUA / Japão, 1970)

Realizado por Richard Fleischer, Toshio Masuda e Kinji Fukasaku

Dramatização dos eventos que precederam o bombardeamento a Pearl Harbor, em Dezembro de 1941, narrada sob o ponto de vista de japoneses e norte-americanos.

Como o filme foi visto:

Nem todos os membros testemunharam o massacre do dia 18. Stephan Jones, filho do reverendo, estava em Georgetown desde o início daquela semana. Ele era um dos 13 rapazes que tinham representado o Templo num torneio nacional de basquete e resolvera, com os colegas de equipa, passar a noite de sábado no cinema da capital, depois de um jogo contra a selecção guianense.

“O filme era sobre assassinos de aluguer”, recordaria em 2016 . E acrescentaria: “A única razão pela qual o escolhi foi por John Saxon, que entrava na minha longa-metragem favorita de Bruce Lee, Enter The Dragon”. Segundo Eugene Smith, que acompanhava Stephan naquela sessão, o filme exibido pertencia a um universo completamente distinto: tratava-se de Tora! Tora! Tora!, super produção nipo-americana sobre a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial. John Saxon não figurava no elenco e o enredo não fazia qualquer menção a assassinos de aluguer.

Naquela noite, em Lamaha Gardens, bairro nobre de Georgetown, a discípula Bea Orsot encerrava um jantar colectivo no escritório da seita. “Ao terminar de lavar a louça e deixar a cozinha em ordem, tomei banho, troquei de roupa e arranjei-me para ir ao cinema”, afirmaria em 1989. “Porém, não vi filme nenhum. Aguardava na sala, quando alguém gritou: 'Meu Deus, não acredito!'”.

No outro lado da cidade, a sessão de Tora! Tora! Tora! estava perto do fim. “Os japoneses tinham começado a bombardear Pearl Harbor, quando um funcionário do cinema desceu para nos avisar de um tiroteio em Lamaha Gardens”, relataria Smith. “Saltámos para um camião e corremos pelas ruas até ao escritório do Templo. Ao chegarmos, descobrimos que não tinha havido tiroteio nenhum. No entanto, quatro corpos jaziam na casa-de-banho, com as gargantas cortadas”.

Sharon Amos, uma psicóloga de 42 anos, tinha cometido suicídio. Pouco antes, matara os três filhos: Liane, 21, Christa, 11 e Martin, 10. “Enquanto a polícia guianense carregava os corpos diante da minha cara petrificado de horror, só pensava que Jim ficaria devastado”, declarou Orsot. E concluiu: “Ao regressar aos EUA, descobri que Sharon tinha recebido uma ordem de Jonestown, para que todos nós morrêssemos”.


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