Investigadores do FBI vasculham o acervo audiovisual da seita
Seitas

As sessões de cinema que antecederam o massacre de Jonestown

Ver filmes era um hábito comum no Templo do Povo, a seita que levou mais de 900 pessoas à morte na Guiana.
29.1.19

Naquela noite de sexta-feira, 17 de novembro de 1978, tudo parecia tranquilo. Os adultos conversavam, debruçados sobre mesas de madeira. As crianças menos tímidas sorriam. Cachorros zanzavam de um lado para o outro. No palco, a banda apresentava um cover de "That's the way of the world", sucesso do Earth, Wind & Fire. A plateia batia palmas, numa tentativa meio desengonçada de acompanhar o ritmo da música, cuja letra enaltecia a superação de problemas, a esperança no futuro e a celebração dos dias especiais. Um jovem casal de namorados dançava pelas beiradas do salão.

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Leo Ryan, deputado filiado ao Partido Democrata da Califórnia, gostou do que viu. “Ao falar com vocês, percebi que esse lugar foi a melhor coisa que já aconteceu em suas vidas”, disse ao microfone. Seu veredicto foi ruidosamente aplaudido. Aqueles cidadãos norte-americanos, que o recepcionavam com uma festa de boas-vindas em plena selva, eram membros de uma seita – o Templo do Povo. Ryan, chefe de uma comitiva formada por repórteres e congressistas, estava lá para investigá-los.

O semblante alegre das pessoas ali presentes não condizia com uma rotina de estupros, tortura, cárcere privado, trabalho escravo e abuso psicológico.

Sobre o líder do culto, o reverendo Jim Jones, pairavam as mais diversas suspeitas. Jonestown, o assentamento agrícola erguido por seus discípulos em meio às densas florestas tropicais da Guiana, era um antro de violações de direitos humanos, segundo denúncias recebidas por Ryan. A atmosfera festiva, entretanto, parecia desmentir as terríveis histórias que o deputado ouvira nas semanas anteriores. O semblante alegre das pessoas ali presentes não condizia com uma rotina de estupros, tortura, cárcere privado, trabalho escravo e abuso psicológico.

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O reverendo Jim Jones, líder da seita Templo do Povo, em meio à selva guianense. Foto gentilmente cedida por Doxsee Phares e Jonestown Institute.

Os fiéis, guiados por Jones, envenenariam os filhos com cianeto diluído em suco de uva – a mesma solução que tomariam para dar cabo de suas próprias vidas.

Em menos de 24 horas, porém, quase todos os convidados daquela festa sucumbiriam a uma cerimônia de suicídio coletivo e assassinato em massa. O deputado Ryan, três jornalistas e uma moradora que tentava abandonar a comunidade seriam executados a tiros em Port Kaituma, pequena vila a 11 quilômetros dali. Os fiéis, guiados por Jones, envenenariam os filhos com cianeto diluído em suco de uva – a mesma solução que tomariam para dar cabo de suas próprias vidas. O reverendo, então, cairia junto aos discípulos, sob efeito de barbitúricos e com o crânio perfurado a bala. No final da noite de sábado, 918 pessoas estariam mortas, incluindo 304 crianças e adolescentes. Cerca de 70% das vítimas eram negras.

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“Quando cheguei a Jonestown, havia em toda parte um cheiro desagradável. Os únicos sons dentro do assentamento eram uivos e latidos de cães, como se ecoassem as súplicas dos falecidos”, atestou, quatro meses depois, um funcionário do governo guianense. Suas impressões, publicadas num relatório oficial em março de 1979, vinham acrescidas de uma proposta: “Um esforço consciente deveria ser feito para capitalizar o desastre. É necessário encorajar o desenvolvimento de uma indústria turística voltada ao mercado nacional e estrangeiro”.

Campings, shopping centers e pesqueiros eram alguns dos empreendimentos sugeridos pelo funcionário para a revitalização da área. O relatório mencionava ainda uma possível venda de souvenirs, tais como pôsteres, plaquinhas decorativas e mapas da Guiana com Jonestown em posição de destaque. Os devaneios mais entusiasmados, no entanto, estavam reservados à sétima arte.

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Uma das 267 fitas de vídeo encontradas em Jonestown: cópia do filme Testa de Ferro por Acaso (no original, The Front), dirigido por Martin Ritt e estrelado por Woody Allen. Foto gentilmente cedida pelo Jonestown Institute.

“Uma atividade interessante seria a abertura de um cinema para entreter e educar aqueles que eventualmente venham a morar na região”, explicou. “Filmes ocidentais não são prioridade. Em sua maioria, os filmes deveriam retratar a cultura guianense e modelos de países socialistas, como China, Cuba e Tanzânia”.

As ideias nunca saíram do papel. Hoje, o terreno de 3.852 acres, próximo à fronteira com a Venezuela, encontra-se praticamente encoberto pela selva. Contudo, o emprego de um repertório cinematográfico como instrumento de formação política teria representado a continuidade de um projeto mais antigo. No Templo do Povo, ver filmes era um hábito comum, que moldava a rotina e a imagem pública da seita – sobretudo após o êxodo de seus membros para a América do Sul, a partir de 1974.

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No Templo do Povo, ver filmes era um hábito comum, que moldava a rotina e a imagem pública da seita.

Em junho daquele ano, os primeiros discípulos do Templo se embrenharam nas florestas guianenses, lançando as bases do assentamento idealizado por Jones. Quem permanecia nos EUA, como Edith Roller, uma professora universitária de San Francisco, acompanhava com ansiedade as notícias que chegavam. “Teremos nosso próprio cinema”, anotou ela em seu diário, no dia 11 de fevereiro de 1976, dois anos antes de se mudar para lá.

Os filmes eram exibidos uma ou duas vezes por semana, sempre à noite. De modo geral, abordavam temas caros a Jones: tensões raciais na América, fantasmas do nazifascismo, dilemas da classe trabalhadora, teorias conspiratórias, atentados políticos e estratégias de sobrevivência ao apocalipse. Assistí-los era atividade muitas vezes obrigatória, com direito a provas e chamada oral, mas o didatismo burocrático do reverendo não amortecia a gula cinéfila de certos fiéis: “De vez em quando, eles passam um filme no pavilhão e outro no refeitório, você não sabe a qual dos dois assistir!”, escreveu numa carta a secretária Marlene Wheeler, em 19 de novembro de 1977, poucos dias depois de chegar a Jonestown.

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Catálogo da distribuidora de filmes que abastecia Jonestown. As rasuras e anotações provavelmente são do reverendo. Imagem gentilmente cedida pelo Jonestown Institute.

Em parte, a programação se pautava pelo acervo cinematográfico da própria seita – formado, segundo levantamento do FBI, por 267 videotapes. A maior parte dos filmes, no entanto, era alugada a centenas de quilômetros dali, numa distribuidora sediada em Georgetown, capital da Guiana. O catálogo da empresa, que fornecia cópias em 16mm de grandes produções hollywoodianas, listava um total de 228 títulos, especificando gêneros e as estrelas de cada elenco.

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A VICE extraiu, da vasta documentação produzida pelo Templo do Povo, as impressões de Jones e seus discípulos a respeito de 10 desses longas-metragens – todos eles vistos ou debatidos entre o segundo semestre de 1977, quando a seita se transfere para a Guiana em caráter definitivo, e 18 de novembro de 1978, o dia do massacre. Baseadas em correspondências, diários pessoais e fitas cassete, as notas formam um mosaico das relações cotidianas que precederam uma das piores tragédias do século 20.

Nota: O acervo documental da seita encontra-se disponível para consulta pública no site Alternative Considerations of Jonestown & Peoples Temple, fruto de uma parceria entre o Departamento de Estudos Religiosos da Universidade Estadual de San Diego e o Instituto Jonestown, entidade formada por sobreviventes do grupo.

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'O Poder Negro': a cabeça de um militante afro-americano é colocada a prêmio depois de um assalto. “Acho que o filme transmite um sentimento de derrota”, lamentou Jones. Imagem: divulgação

O Poder Negro (Uptight, EUA, 1968)
Dirigido por Jules Dassin

Após o assassinato de Martin Luther King, revolucionários negros saqueiam um depósito de armas. Johnny Wells (Max Julien), líder do grupo, é identificado pela polícia e executado poucos dias depois. Os membros remanescentes se dão conta de que entre eles há um informante.

Como o filme foi visto:

Este precursor do blaxploitation, exibido em Jonestown no dia 8 de agosto de 1978, ilustrou algumas críticas do reverendo aos rumos tomados pela militância afro-americana. “Eles tentam fazer lavagem cerebral em vocês para que acreditem numa revolução armada sem o apoio da classe trabalhadora. Isso é uma estupidez”, sentenciou. “O filme oferece respostas aos problemas do povo negro que vive nos guetos da América? Não, eu acho que transmite um sentimento de derrota, e é isso o que eles pretendem.”

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A classe trabalhadora se rebela contra o patronato em 'Harlan County: Tragédia Americana'. “Essa é a única esperança para a América”, pregou o reverendo. Imagem: divulgação

Harlan County: Tragédia Americana (Harlan County, U.S.A., EUA, 1976)
Dirigido por Barbara Kopple

Documentário sobre os piquetes e confrontos violentos que marcaram a greve dos mineiros de Brookside, pequena cidade norte-americana no Condado de Harlan, Kentucky. O movimento, duramente reprimido pelas entidades patronais, teve início em junho de 1973 e chegou ao fim no ano seguinte, com a vitória dos trabalhadores.

Como o filme foi visto:

“Como vimos no filme Harlan County: Tragédia Americana, pela primeira vez surge uma união entre negros e brancos, para além das questões raciais”, observou Jones num sermão gravado em 28 de setembro de 1978. Esses movimentos, dizia o reverendo, “deixaram de lutar pela liberação negra ou branca, o que seria ridículo”, e adotaram uma pauta mais ampla: a emancipação da classe trabalhadora. “Essa é a única esperança para a América”, alertou aos fiéis.

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Gary Cooper e Ingrid Bergman se beijam em 'Por Quem os Sinos Dobram', adaptação do romance homônimo de Hemingway. “A ênfase no relacionamento amoroso me pareceu desnecessária e boba”, queixou-se Edith Roller. Imagem: divulgação

Por Quem os Sinos Dobram (For Whom the Bell Tolls, EUA, 1943)
Dirigido por Sam Wood

Durante a Guerra Civil Espanhola, um professor norte-americano (Gary Cooper) se alista nas Brigadas Internacionais e recebe a missão de explodir uma ponte em Segóvia. A convivência com os guerrilheiros antifascistas locais faz com que ele se apaixone por uma companheira de luta (Ingrid Bergman). Baseado no romance homônimo de Ernest Hemingway.

Como o filme foi visto:

“Através da propaganda contida nos filmes de Hollywood”, explicou Jones em 31 de maio de 1978, “vocês podem notar como os indivíduos são criados para serem robôs apáticos, imersos em desvios, revisionismo e desespero escapista”. A norma, frisava o reverendo, tinha lá suas exceções: “Com uma interpretação adequada, filmes de Hollywood podem ser educativos”.

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Parece ter sido o caso de Por Quem os Sinos Dobram, exibido meses depois, no dia 16 de agosto. “É o filme preferido de Fidel Castro”, alegou Jones, “e alguns dos melhores atores de Hollywood atuam nele”. O reverendo tornaria a elogiar o longa noutro sermão, de data desconhecida: “É um filme extraordinário, de sensibilidade, estratégias e táticas revolucionárias”.

No dia da sessão, Edith Roller anotou em seu diário: “É um excelente filme, com boas lições para ativistas políticos”. Mas fez uma ressalva: “A ênfase no relacionamento amoroso me pareceu desnecessária e boba”.

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'Os Implacáveis', de Sam Peckinpah: um dos poucos filmes policiais bem recebidos pela seita. Imagem: divulgação

Os Implacáveis (The Getaway, EUA, 1972)
Dirigido por Sam Peckinpah

O ladrão Doc McCoy (Steve McQueen), detido num presídio de segurança máxima no Texas, solicita à esposa Carol (Ali MacGraw) que negocie sua liberdade condicional com Jack Beynon (Ben Johnson), um empresário corrupto da região. Beynon transa com Carol e manda Doc assaltar um banco.

Como o filme foi visto:

O cinema policial não era bem-visto em Jonestown. No dia 13 de fevereiro de 1978, Edith Roller irritou-se com uma sessão de A Lei de Newman, que trazia George Peppard no papel de um investigador afeito a execuções extrajudiciais – seus principais alvos eram traficantes negros. “O filme era horrível. Eu não teria assistido até o fim se não fosse pelos comentários de Jim”, escreveu. “Ele apontou os elementos racistas. A violência excessiva também era deplorável.”

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Em meados de abril, o reverendo denunciaria a exibição de obras similares na televisão americana. “Filmes policiais e histórias de detetive liberam a violência nas pessoas e fazem com que elas se sintam fracas, depois de aliviarem sua raiva”, explicou. “Tudo isso tem sido premeditado pelos canais de mídia”, criticou.

Surpreendentemente, Os Implacáveis teve boa acolhida na seita. “O filme dessa noite é um filme de entretenimento”, disse Jones em 9 de setembro. “Estou trazendo a vocês um filme despretensioso porque ele faz com que os trapaceiros pareçam bacanas, e eu gosto que os trapaceiros pareçam bacanas quando eles estão combatendo o capitalismo.”

Como muitos dos longas de Sam Peckinpah, Os Implacáveis é protagonizado por marginais, e a instabilidade emocional de seus personagens se traduz num senso de violência estilizada que parece ter caído no gosto do reverendo. “O filme não glorifica os criminosos de colarinho branco, mas sim as pessoas que lutam contra o sistema”, argumentou. “É muito raro que isso seja mostrado, e finais como o desse filme já não existem mais em Hollywood.”

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Os alienígenas visitam a Terra em 'Contatos Imediatos do Terceiro Grau', um dos primeiros sucessos de Steven Spielberg. “Diversionário e opiáceo”, condenou o reverendo, sem ter assistido ao filme. Imagem: divulgação

Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, EUA, 1977)
Dirigido por Steven Spielberg

Ao avistar um disco voador cruzando os céus de Indianápolis, o eletricista Roy Neary (Richard Dreyfuss) assume comportamentos erráticos. Seu caminho se cruza com o de Jillian Guiler (Melinda Dillon), uma dona de casa que tem o filho abduzido por alienígenas. Enquanto isso, um grupo de cientistas ligados ao governo norte-americano aguarda a chegada dos visitantes interplanetários.

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Como o filme foi visto:

Quando Contatos Imediatos do Terceiro Grau estreou nos cinemas norte-americanos, em novembro de 1977, Jones e seus discípulos já haviam abandonado os EUA há quatro meses. É improvável que o reverendo algum dia tenha assistido ao filme, mas nem por isso ele deixou de bombardear os fiéis com algumas opiniões pré-concebidas.

“A primeira ideia que Contatos Imediatos promove”, acusou em 6 de junho de 1978, “é a de que o capitalismo ocidental representa a apoteose da civilização. Os visitantes de inteligência mais elevada deliberadamente escolhem os EUA como ponto de encontro, ao invés de um local semelhante na vanguarda marxista-leninista da sociedade soviética”.

O filme priorizava as relações interplanetárias em detrimento da luta de classes, e isso, segundo Jones, era problemático: “É diversionário. É um opiáceo”, advertiu. “É por isso que todos os filmes que nós assistimos aqui devem ser interpretados por suas propagandas, mesmo que numa base subliminar.”

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Um biólogo e sua família lutam pela sobrevivência em 'A Mais Cruel Batalha', ficção científica pós-apocalíptica exibida em Jonestown com fins motivacionais. Imagem: divulgação

A Mais Cruel Batalha (No Blade of Grass, Reino Unido / EUA, 1970)
Dirigido por Cornel Wilde

Em 1970, o planeta enfrenta uma hecatombe ambiental: os rios estão envenenados e a disputa por alimentos provoca guerras civis mundo afora. Quando o governo da Inglaterra decreta estado de quarentena, o biólogo John Custance (Nigel Davenport) foge com a família para um sítio na Escócia.

Como o filme foi visto:

A Mais Cruel Batalha foi exibido em Jonestown com propósitos bastante específicos: insuflar nos moradores o ímpeto missionário e o horror ao mundo externo. A abordagem sensacionalista do longa-metragem ilustrava um dos grandes consensos da comunidade: o planeta estaria à beira de uma catástrofe generalizada, e apenas os fiéis do Templo escapariam com vida.

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“Não há radiação cruzando o nosso caminho. As correntes de vento têm sido gentis conosco. Em direção ao sul, temos todo o espaço para avançar, caso seja a nossa vontade”, pregou o reverendo em novembro de 1977.

Jonestown já contava com 800 habitantes, mas alguns deles se mostravam arrependidos e tentavam, sem sucesso, retornar aos EUA. “Todos essas burocracias governamentais serão definitivamente derrubadas”, sentenciou Jones. “Podemos ir para qualquer lugar que quisermos. E 800 pessoas formam um baita exército. Precisamos assistir novamente àquele filme, A Mais Cruel Batalha. Vocês viram o que cerca de 25 pessoas fizeram enquanto pavimentavam seu caminho em direção a uma terra melhor.”

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Jones: “Quero aprender tudo o que for possível sobre assassinatos. E 'O Dia do Chacal' ensina muita coisa”. Imagem: divulgação

O Dia do Chacal (The Day of the Jackal, Reino Unido / França, 1973)
Dirigido por Fred Zinnemann

Dissidentes do exército francês se organizam numa célula paramilitar de extrema-direita e contratam os serviços de Chacal (Edward Fox), um mercenário britânico sobre o qual pouco se sabe. Por 500 mil dólares, ele aceita sua última missão: assassinar o presidente Charles de Gaulle.

Como o filme foi visto:

O Dia do Chacal foi exibido pelo menos duas vezes em Jonestown: num sábado, 18 de março de 1978, e na sexta-feira seguinte, dia 24.

Edith Roller esteve presente em ambas as sessões. Sobre a primeira delas, escreveu: “Ainda que tenha sido difícil simpatizar com Charles de Gaulle e o establishment, foi um filme muito instrutivo, revelando como o estado organiza seus recursos em questões de segurança”. No dia 24, observou: “Jim teve mais simpatia pelo mercenário do que pelo presidente”.

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Jones, enérgico, declarou naquela semana: “Estou pouco me fodendo para o cinema. Só vejo filmes por uma questão de estratégia. Eu me interesso por esse negócio de assassinatos. Quero aprender tudo o que for possível sobre assassinatos. E O Dia do Chacal ensina muita coisa”.

Mais tarde, Larry Tupper, um garoto de 13 anos, admitiria que as sessões o entediavam e que não havia compreendido o enredo do longa-metragem. “É uma história complicada”, respondeu Jones, antes de se dirigir novamente aos fiéis. “Quantas crianças não entenderam O Dia do Chacal?”, perguntou. “Vocês, professores, deveriam estar ensinando a elas!”

Entre adultos, o interesse foi um pouco maior. Convidados a responder a uma enquete sobre o que fariam em seus últimos momentos de vida, dois moradores acabaram se lembrando do filme. Harold Bogue pretendia retornar aos EUA, encontrar-se com inimigos da seita e “detonar uma bomba forte o bastante para explodir todo mundo em pedaços”, ou talvez “abatê-los um por um, como se eu fosse o Chacal”. Phillip Blakey, por sua vez, expressou o seguinte desejo: “Eu gostaria de executar fascistas, no estilo O Dia do Chacal. Eu iria para cima dos fascistas, atiraria neles, e então atiraria em mim mesmo”.

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Donald Freed e Mark Lane, argumentistas de 'O Assassinato de um Presidente', foram contratados para produzir um longa-metragem sobre o Templo do Povo. Imagem: divulgação

O Assassinato de um Presidente (Executive Action, EUA, 1973)
Dirigido por David Miller

Insatisfeitos com a administração do presidente John F. Kennedy, políticos e magnatas elaboram um plano para assassiná-lo nos últimos meses de 1963, utilizando Lee Harvey Oswald como simples bode expiatório.

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Como o filme foi visto:

À medida em que as denúncias contra o Templo se avolumavam, Jones se mostrava cada vez mais decidido a produzir uma cinebiografia da seita. Para a tarefa, recrutou Donald Freed e Mark Lane, autores de diversos livros sobre teorias conspiratórias – juntos, eles haviam escrito o argumento que servira de base para O Assassinato de um Presidente. Cópias do longa-metragem engrossavam a videoteca de Jonestown.

Em agosto de 1978, a dupla realizou uma série de visitas ao assentamento, sem poupar elogios às condições de vida dos fiéis. “A sobrevivência da humanidade depende de um certo tipo de empreendimento radical, e Jonestown se sobressai como um exemplo sem paralelos”, declarou Freed no dia 26.

No enredo da cinebiografia, adversários e dissidentes seriam retratados como marionetes do governo norte-americano, cujos serviços de inteligência secreta estariam por trás de um grande complô contra Jonestown. Um documento redigido por Lane e apresentado ao reverendo no dia 27 de setembro trazia algumas considerações sobre o projeto: “A produção de um filme desses seria extremamente cara para o Templo do Povo, podendo ser encarada com suspeitas caso não conte com certos auspícios”. Lane prometia entrar em contato com o “melhor documentarista da televisão francesa” (de identidade não revelada) e sugeria a Jones que cedesse os direitos de exibição a emissoras do país europeu.

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Dez dias depois, o reverendo contou uma novidade aos fiéis: “Em breve receberemos visitas de atores de Hollywood e representantes de estúdios cinematográficos. Eles estão fascinados e viverão conosco por algum tempo. Essa é a única maneira de capturar o espírito de Jonestown”.

O projeto, entretanto, seria abortado no mês seguinte, com a chegada de outro visitante: o deputado Leo Ryan.

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“Você assistiu a 'I Will Fight No More Forever'?”, perguntou Jones a uma discípula durante a cerimônia de suicídio coletivo. Imagem: divulgação

I Will Fight No More Forever (EUA, 1975)
Dirigido por Richard T. Heffron

Em 1877, na fronteira entre os estados norte-americanos de Oregon e Idaho, Chefe Joseph (Ned Romero), líder dos índios Nez Perce, recusa-se a ceder as terras de sua tribo para os colonos brancos. A resposta violenta das autoridades conduz a um movimento de resistência indígena.

Como o filme foi visto:

A chegada do deputado Ryan parecia confirmar os mais sombrios prognósticos do Templo. Jonestown, segundo o reverendo, seria inevitavelmente destruída pelo governo dos EUA, não restando aos moradores outra alternativa além do “suicídio revolucionário”. O ritual, muitas vezes discutido e ensaiado, estava prestes a ser colocado em prática.

“Eles vão torturar nossas crianças aqui. Eles vão torturar nosso povo. Eles vão torturar nossos idosos”, discursou Jones num sábado, 18 de novembro, logo após o assassinato do congressista. As ordens eram claras: os fiéis, reunidos no pavilhão central, deveriam matar os próprios filhos, e depois a si mesmos. Mas alguns resistiam.

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“Não estou pronta para morrer”, argumentou Christine Miller, uma escriturária de 60 anos. “Não acredito que você esteja”, respondeu Jones.

“Olho para os bebês e penso que eles merecem viver”, disse a moradora. “Concordo, mas eles também merecem paz”, insistiu o reverendo. “Todos nós viemos para cá em busca de paz”, rebateu Miller. “E nós encontramos?”, questionou Jones. “Não”, lamentou a escriturária, “mas se nos autodestruirmos, estaremos derrotados. Deixaremos que eles, os inimigos, nos derrotem”.

“Você assistiu a I Will Fight No More Forever?”, perguntou o reverendo – o faroeste, originalmente produzido para a televisão, havia sido exibido em Jonestown algumas vezes. “Sim, eu assisti”, respondeu Miller. “E você enxerga algum senso de orgulho e vitória naquele homem?”, perguntou Jones, fazendo menção ao protagonista, Chefe Joseph, que se rende às autoridades na última cena do filme. “Bom, eu acredito que os índios tenham errado no momento em que resolveram descansar”, sustentou a escriturária.

James McElvane, um assistente social de 46 anos, interveio na discussão: “Seja paciente, irmã. O dia foi bonito e continuará sendo. É só o que eu digo”, afirmou, sob aplausos da multidão.

Ambos morreram.

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O bombardeio de Pearl Harbor em 'Tora! Tora! Tora!', filme assistido por alguns sobreviventes no momento do massacre. Imagem: divulgação

Tora! Tora! Tora! (EUA / Japão, 1970)
Dirigido por Richard Fleischer, Toshio Masuda e Kinji Fukasaku

Dramatização dos eventos que precederam o bombardeio a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, narrada sob o ponto de vista de japoneses e norte-americanos.

Como o filme foi visto:

Nem todos os membros testemunharam o massacre do dia 18.

Stephan Jones, filho do reverendo, estava em Georgetown desde o início daquela semana. Ele era um dos 13 rapazes que vinham representando o Templo num torneio nacional de basquete, e resolvera, junto aos colegas de time, passar a noite de sábado no cinema da capital, após uma partida contra a seleção guianense.

“O filme era sobre assassinos de aluguel”, recordaria em 2016 . “A única razão pela qual o escolhi foi a presença de John Saxon, que atuava no meu longa-metragem favorito de Bruce Lee, Operação Dragão”.

Como operam as seitas

Segundo Eugene Smith , que acompanhava Stephan naquela sessão, o filme exibido pertencia a um universo completamente distinto: tratava-se de Tora! Tora! Tora!, superprodução nipo-americana sobre o ingresso dos EUA na Segunda Guerra Mundial. John Saxon não figurava no elenco, e o enredo não fazia qualquer menção a assassinos de aluguel.

Naquela noite, em Lamaha Gardens, bairro nobre de Georgetown, a discípula Bea Orsot encerrava um jantar coletivo no escritório da seita. “Ao terminar as louças e deixar a cozinha em ordem, tomei banho, troquei de roupa e me arrumei para ir ao cinema”, afirmaria em 1989 . “Porém, não vi filme nenhum. Eu aguardava na sala, quando alguém gritou: 'Meu Deus, não acredito!'”.

No outro lado da cidade, a sessão de Tora! Tora! Tora! estava próxima do fim. “Os japoneses haviam começado a bombardear Pearl Harbor, quando um funcionário do cinema desceu para nos avisar de um tiroteio em Lamaha Gardens”, relataria Smith. “Pulamos num caminhão e corremos pelas ruas até o escritório do Templo. Ao chegarmos, descobrimos que não houve tiroteio algum. No entanto, quatro corpos jaziam no banheiro, com as gargantas cortadas”.

Sharon Amos, uma psicóloga de 42 anos, havia cometido suicídio. Pouco antes, matara os três filhos: Liane, 21, Christa, 11, e Martin, 10.

“Enquanto a polícia guianense carregava os corpos diante do meu rosto petrificado de horror, eu pensava que Jim ficaria devastado”, declarou Orsot. “Ao retornar para os EUA, descobri que Sharon havia recebido uma ordem de Jonestown, para que todos nós morrêssemos.”

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