Histórias bizarras de quem foi mesário nas eleições
Montagem: foto da urna por Almir Moura e ilustração por John Lloyd Stephens via The New York Public Library
comportamento

Histórias bizarras de quem foi mesário nas eleições

Gente bêbada, sermão na fila e beijinho pra urna.

Todo mundo tem aquele amigo que não escapa, toda eleição ele é convocado para ser mesário. Traumatizados, alguns até desenvolvem dicas para você tentar fugir da possibilidade de ser convocado pela Justiça Eleitoral. Uns dizem que é melhor não transferir seu título para outra zona eleitoral, outros aconselham não votar com pouca idade para não incentivar as autoridades a te escolherem e tem até aqueles que se voluntariam para ver de perto como funciona coordenar e organizar uma eleição na sua cidade.

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Pensando nesses guerreiros anônimos que precisam pular aquele churrascão de domingo para executar essa tarefa cívica, pedimos que eles mandassem suas histórias mais carinhosas, estranhas ou absurdas para a gente lembrar que não tá fácil pra nenhum brasileiro.

Boné do MST

Fui mesário na primeira eleição da Dilma em 2010, num clube no subúrbio de Curitiba (PR), próximo da casa dos meus pais. Eram várias seções eleitorais juntas numa quadra de futsal. Achei o primeiro turno muito monótono, então no segundo resolvi trabalhar com um boné do MST. Várias pessoas sentiram vontade de me bater, algumas riram e uma senhora me denunciou pro policial de plantão, mas não pegou nada, afinal MST não é partido, então fiquei o domingo inteiro irritando as pessoas enquanto as encaminhava pra urna. – Gabriel, 29

Pow pow pow

Participei já de quatro eleições, exercendo todos os cargos (e espero que me esqueçam esse ano) Tenho algumas histórias. Lembro de um mesário que foi convocado e só esperou ganhar o dinheiro do almoço para ir embora. Teve também um senhor na minha seção que ficou conhecido como "Alright", porque ele sempre entra sem falar nada, só mostrando a identidade e assinando o livro, depois, quando vai votar, ele esmurra a urna eletrônica (ouvimos um pow pow pow). Daí ele sai, pega os documentos e fala "alright!". Outra vez um cara começou a passar o maior sermão na fila, sobre como as pessoas têm que lembrar de fazer a cola antes de ir e votar, e como já se viu chegar lá na hora de votar e esquecer o número do candidato, etc etc. Chegou a vez dele de votar, e ele soltou de lá de trás da urna: "qual que é o número do Serra mesmo?". – Carol, 34

Aparece aquele homem horrível na urna

Sou mesário voluntário há seis eleições e tenho um rol de histórias bizarras pra contar. Uma senhora com bastante idade chegou à seção eleitoral, identificou-se, e foi à urna votar. O tempo passou e ela começou a demorar mais do que o usual, mesmo para uma senhora idosa. Questionei se estava tudo bem, e ela respondeu: "Ai, moço! Não sei o que tá acontecendo! Eu aperto aqui o número da minha candidata e aparece aquele homem horrível! Eu não quero votar nesse horroroso! Mas eu aperto 45 e nada de aparecer a Dilma!". Foi então que eu reparei que ela havia caído na falsa campanha que pretendia induzir os eleitores a erro, dizendo pra votarem "Dilma 45". Ela então gritou: "Moço, qual o número da Dilma?". Mas nós, mesários, estamos proibidos por lei de falar o número de qualquer candidato. Então, disse a ela que eu poderia suspender o voto para que ela fosse até a parte de fora da seção, onde estava pregada na parede uma lista com os candidatos e seus respectivos números. Ela foi, voltou com um sorriso no rosto, retornou a urna, e exclamou: "Agora sim, minha querida apareceu!". Fez um barulho como se mandasse beijinhos pra urna, confirmou e saiu, contente. – Erick, 31

Hostess da democracia presenciando histórias difíceis

Fui mesária por muitos anos, acho que uns 10. Só deixei de ser recentemente, quanto transferi meu titulo do município da Grande São Paulo, onde morei até os 18, para a capital. Nunca achei exatamente ruim. Me interessava viver de perto esse momento, ver o ânimo ou desânimo das pessoas, dialogar com representantes de partidos. Fui de secretária, a pessoa que fica na porta conferindo o título/RG (zoava que eu era a hostess da democracia), até presidente, a pessoa que liga a urna, imprime os votos ao fim, confere e manda pro cartório eleitoral.

Trabalhar numa cidade menor tem vantagens porque você não tem tanto eleitor, mas ao mesmo tempo os abismos ficam evidentes, de gente muito simples que perguntava pros mesários em quem votar (muitas pessoas fazem isso) até candidato playboy que ia pra urna bêbado.

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Duas situações me marcaram. Numa delas, um senhor de uns 80 anos, morador de um bairro rural do município, chegou destruído, chorando, dizendo que a mulher dele havia acabado de morrer, que ele tinha deixado o corpo dela velando "ainda quente", mas não queria "ser preso", por isso estava ali. Explicamos que ele não precisaria votar já pela idade, encaminhamos ele até a saída – meio putos porque ninguém na porta da escola havia feito isso –, mas meu cérebro não conseguia pensar em outra coisa depois daquilo.

Outra situação foi quando um cara jovem chegou cabisbaixo na sala e nós não encontramos o nome dele na lista. Parecia que ele não sabia nada sobre eleições, que ele nunca tinha votado, apesar de aparentar ter uns 25 anos. Começou a se especular o motivo, fomos buscar em seções vizinhas, e eu vi que ele ficou paranoico. Achei que ele pudesse ter sido preso e, sem questionar muito, falei que podia descer com ele até a recepção pra ajudá-lo. Daí ele me contou no caminho que estava preso desde os 18, mas que não falava porque as pessoas têm preconceito e ele só queria votar. Voltei pra seção e outros mesários comentaram que sabiam que ele era "bandido", por isso o inquérito e o esforço zero em ajudar. Também não consegui pensar em outra coisa naquela tarde. – Adriana, 34

Ontem, jurada. Amanhã, mesária.

Fui mesária em São Paulo, mas agora que estou no RJ e trouxe o meu título pra cá. Ainda não fui convocada, então, não sei se serei este ano.

Mas é isso, fiz a carreira toda, feliz da vida, sempre curti ser mesária, na real. Eu virei mesária por uma troca que eu fiz com o governo. Deixei de ser jurada, sim, daquelas de tribunal de júri, que fica naquela situação bem linda de frente com assassinos, e virei mesária por ter pedido pra deixar de ser jurada.

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Meu grupo de mesários é muito legal, na verdade era porque os old schools já saíram, mas toda eleição era uma festa, a gente estava entre amigos. Mas tem muita coisa meio triste que rola, gente que não sabe nem o motivo de votar porque é analfabeto e não entende sobre o processo, gente que chega muito bêbada. Acho que a parte mais legal são pessoas com necessidades especiais que fazem questão de ir, já que o voto pra essas pessoas não é obrigatório. Todo ano de eleições as coisas se repetem. O cara bêbado volta, a gente fica esperando a D. Baratinha aparecer (uma senhora com mais de 80 anos que sempre faz questão de votar e conhece a gente pelo nome), o mano que vai votar com a mãe idosa e tenta convencer a gente de que ele tem que votar por ela. Já o almoço era esfiha do Habib's porque é longe voltar pra casa no trânsito.

Fico meio na bad também quando as pessoas chegam putas da vida porque têm que votar. Acho que o voto é uma coisa tão importante, a gente demorou pra conseguir, né? – Tuka, 36

Preciso do número do Suplicy!!!!!

Nas eleições de 2014 uma senhora entrou na cabine de votação e depois de um tempo ela perguntou se poderia sair pra conferir o número do candidato dela no papel do lado de fora. Os mesários são orientados a não permitir que o eleitor saia da cabine até concluir o voto. Ao informarmos pra ela que isso não era permitido, ela ficou revoltada e começou a gritar na sala que precisava do número do Suplicy porque não poderia de jeito nenhum permitir que o Serra fosse eleito senador. No fim, um outro eleitor da fila acabou falando o número pra ela, mas o Suplicy não foi eleito. – Henrique, 24

Embriagado, mas disposto a cumprir com seu dever cívico

Fui mesário no longínquo 2006, em Hortolândia, próximo a SP. Minha seção ficava numa escola municipal. Até próximo ao meio-dia, tudo tranquilo. Almoçamos uma macarronada muito boa feita pelas merendeiras. Mas, depois do almoço, as filas começaram a aumentar. Até que surgiu nosso personagem pé de cana.

Ele estava visualmente e olfativamente embriagado, mas estava disposto a cumprir com seu dever cívico. Demorou quase 15 minutos para ele se registrar. Falava alto coisas desconexas. Ia e voltava da cabine sem finalizar seu voto (lembrando que o processo de votação para ele já estava aberto). A fila começou a reclamar (eu estava na porta, naquele momento, organizando a fila). Não podíamos fazer nada, além de esperar 10 minutos. Sim, há um timer para a votação: se o voto não é registrado em 10 minutos, o cidadão "perde a vez".

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Nosso personagem, ao findar seu tempo, ficou muito puto. Mas não podíamos fazer nada, a não ser deixar a fila continuar normalmente. Depois de uma ameaça de chamamento a autoridade policial, nosso herói saiu da seção sem ter seu voto registrado. – Rafael, 32


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