Viagens

A vida secreta dos trabalhadores sexuais

A fotógrafa Lindsay Irene documenta as rotinas domésticas de acompanhantes, strippers e camgirls, na esperança de mudar a perspectiva do público sobre a indústria.

Por Allison Tierney; Traduzido por Madalena Maltez
27 Abril 2018, 2:10pm

Ryan: "Explosão alternativa". Todas as fotos por Lindsay Irene; legendas retiradas dos anúncios dos trabalhadores sexuais.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Lindsay Irene, 32 anos, é uma fotógrafa que vive em Ottawa, no Canadá. As suas fotografias aparecem nos anúncios online e sites de trabalhadores sexuais. É um trabalho que está cada vez mais em risco depois da aprovação da SESTA-FOSTA – uma nova lei norte-americana que visa atacar actividades de tráfico sexual na Internet, mas que críticos dizem que acaba por promover a censura e colocar em perigo trabalhadores sexuais consensuais. Os profissionais da área dizem que a SESTA-FOSTA pode literalmente matá-los.

Há umas semanas atrás, Lindsay embarcou num projecto que, espera, pode ajudar a humanizar acompanhantes, strippers, camgirls e outros trabalhadores do sector. A fotógrafa planeia viajar pelo Canadá a documentar a vida doméstica destas pessoas.

“Sempre que os media falam sobre trabalhadores sexuais, usam aquela fotografia padrão da miúda de meias rotas, encostada numa esquina”, explica Lindsay. E acrescenta: “Acho que se o público pudesse realmente ver um rosto humano, perceberia que são pessoas reais, que vivem entre nós. Talvez isso possa mudar a percepção que muita gente tem”.

Actualmente, Lindsay está a juntar fundos para a viagem pelo Canadá, de forma a tornar real o projecto Home Lives of Sex Workers in Canada, ao mesmo tempo que procura mais trabalhadores para incluir no seu portfolio de retratos. Falámos com ela.

VICE: Mencionaste que as imagens que os media mostram de trabalhadores sexuais são, muitas vezes, clichés, o que é um problema já que essas imagens tendem a ser ridículas e afectam a percepção do público.

Lindsay Irene: É mesmo ridículo. Sinto que há muito a ser feito para mudar a imagem dos trabalhadores sexuais. Mas, não é fácil, porque um grande problema, pelo menos para mim, é encontrar temas. As pessoas que aceitam já têm que ser muito assumidas como trabalhadoras sexuais.

O que esperas conseguir com este projeto para as pessoas que não compreendem o trabalho sexual?

Sempre que converso com alguém de fora da indústria, geralmente já tem uma imagem muito negativa na cabeça. Toda a gente supõe que essas pessoas estão a ser obrigadas a trabalhar naquilo contra a sua vontade... Toda a gente que conheço faz isto porque quer, porque gosta ou porque é financeiramente lucrativo. Além disso, são pessoas. São pessoas com um grande coração e que são complexas... Outra coisa que notei é que muitas delas são defensoras dos animais, o que acho muito bom. A principal coisa é mostrar que são pessoas que trabalham no duro, que merecem direitos como toda a gente.


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Disseste que notaste que muitos desses trabalhadores têm animais de estimação. O que mais é que te chamou a atenção nas casas de trabalhadores sexuais até agora?

As casas são muito diferentes. Alguns têm colegas de apartamento. Há muita diversidade. Já estive num apartamento tipo cave, no de uma miúda que tem um último andar com dois quartos... Muitas casas reflectem a personalidade do dono; por exemplo, uma rapariga que tem um apartamento cheio de coisas Star Trek. Todas as casas têm um brilho pessoal. Algumas pessoas têm um quarto separado para o trabalho e algumas usam o próprio quarto. Não há nada em comum entre as residências. São todas muito diferentes.

Sienna: “Elegância retrô com um toque moderno”.

Sei que, em Toronto, é cada vez mais comum trabalhadores sexuais levarem a cabo a sua ocupação em apartamentos. Podes falar-nos sobre esse cenário?

É muito comum. Em Toronto, já ouvi que um dos problemas é que muitos prédios têm porteiro. Por isso muitos trabalhadores sexuais são expostos, porque as pessoas começam a suspeitar. Mas, também é bastante comum trabalhadores dividirem espaços... Em Montreal, visitei um lugar onde cerca de 50 trabalhadores partilham um prédio. Todavia, há trabalhadores que são mais protectores do seu espaço e preferem não dividir, porque investiram muito nele. Mas, é muito giro ver a camaradagem de grandes grupos a juntarem-se e a partilharem recursos.

Owen e Vivienne: “Uma sensação do strip-tease no coração de Toronto” e “Aquela ruiva safada sobre a qual a tua mãe te avisou”.

Numa das fotografias, tens duas pessoas sentadas numa mesa. Fala-nos um pouco mais sobre eles?

São ambos trabalhadores sexuais! O que acho incrível.

Já notei que, às vezes, clientes ou fãs ficam irritados quando descobrem que um trabalhador sexual namora com alguém na vida pessoal.

Eu sei, é ridículo! Acho tão estranho quando os clientes ficam chateados com isso. Estes dois (foto acima) chamam-se um ao outro de “parceiros” – ela acabou de se mudar do prédio onde viviam, mas ele continua a morar lá... Ela sentia-se insegura com alguns vizinhos. Mudou-se há umas semanas atrás. Estão juntos há alguns anos e são muito carinhosos e apoiam-se muito um ao outro. Vivienne (à direita na foto) é uma artista muito talentosa e estuda moda. Planeia transformar o seu apartamento num espaço de arte para exibir obras de artistas locais.

Alguém que uma vez viu uma das minhas fotografias disse-me: “Ah, ela nunca vai poder ter um namorado com este trabalho”. E eu respondi: “Não, ela tem um namorado, ele estava a segurar o reflector enquanto eu tirava a fotografia”. É muito frustrante. Muita gente que entrevistei para o projecto tem parceiros, seja em relacionamentos abertos ou monogâmicos. Claro, não é uma ocupação para toda a gente, mas trabalhadores sexuais tratam isso como um emprego – e os seus parceiros sabem disso. Alguns dão mais apoio que outros, claro.

Muitos trabalhadores sexuais não tornam a sua ocupação pública. Podes explicar porque é que isso pode ser um desafio para uma representação apropriada?

Ainda estou no começo do meu projecto, espero vir a descobrir mais diversidade. O que estou a fazer é encontrar trabalhadores sexuais que já mostram o seu rosto na Internet e mando-lhes uma mensagem. É difícil encontrar pessoas não brancas que mostrem o rosto. Falei com algumas delas sobre isso - algumas para quem fiz as fotografias profissionais - e elas disseram-me que têm medo de se tornarem alvos de violência. Além disso, para algumas é uma questão de não expôr as suas famílias e as suas culturas.

Chloe: “Acompanhante anã independente”.

Que história por detrás de algumas das tuas fotos gostarias de partilhar?

A da Chloe (foto acima). Já a conhecia, porque ela contratou-me para lhe tirar fotografias. Foi uma das primeiras pessoas a quem pedi para participar no projecto e deu-me muito apoio. Fui até sua casa, que comprou sozinha... Trabalha como acompanhante, mas também como operadora de chamadas telefónicas eróticas e ainda num salão de massagens. Tem um gato muito fofo. Ela chegou a perseguir um cliente no estacionamento do salão de massagens quando este se recusou a pagar a uma rapariga que era principiante.

A Madison (foto abaixo), por sua vez, é uma rapariga muito fixe, com cabelo loiro comprido. Parece saída de um anúncio de loja de departamentos... É, provavelmente, a pessoa de coração mais puro que já conheci. É muito positiva, sempre a sorrir. Na verdade, ela largou uma carreira na área de finanças para fazer trabalho sexual e tem muito sucesso. Mora num apartamento tipo sótão. Falei com ela e, alguns dias depois, viajou para os EUA em trabalho. Na fronteira, mandaram-na parar. Mesmo sem nunca ter mostrado o rosto [na Internet, em trabalho], identificaram-na ao emparelharem fotos do Twitter [da sua conta profissional] com fotos do seu Instagram privado. Conseguiram ligá-la ao trabalho sexual e proibiram-na de entrar nos EUA para sempre... Depois disso, ela disse "que se foda" e decidiu mostrar a cara na Internet. É, provavelmente, uma das pessoas mais abertas e orgulhosas de ser trabalhadora sexual. Já fiz duas sessões de fotografias com ela desde então, já que queria mostrar a cara.

Madison: “A rapariga da porta ao lado”.

Falemos sobre a SESTA-FOSTA. Porque é que é tão importante, agora em particular, mostrar a toda a gente que trabalhadores sexuais são pessoas comuns?

Quando a maioria das pessoas ouve sobre o SESTA-FOSTA, não entendem como é que isso prejudica os trabalhadores sexuais. Acham que a lei vai ajudá-los, o que não poderia estar mais longe da verdade. Tratar todos os trabalhadores sexuais como vítimas não ajuda. Eles são pessoas a tentar fazer o seu trabalho e agora os seus recursos estão a ser-lhes retirados – como poderem fazer uma análise apropriada aos clientes.

O que esperas que os trabalhadores sexuais façam se se lhes corta a fonte de rendimentos? É ridículo. Sinto que se o público pudesse ver o tipo de pessoa que está a ser afcetada por isto... Estava em Toronto quando aprovaram a FOSTA. Os trabalhadores estavam em pânico. É uma época muito tumultuosa. Sei, no entanto, que vão superar isto – os trabalhadores sexuais são algumas das pessoas mais resilientes que existem. Não vão desaparecer. Vão, sim, ter que encontrar outros meios para anunciar os seus serviços. Mas, acho que o público tem de entender a verdade.


Sabe mais sobre o projecto da Lindsay, “Home Lives of Sex Workers in Canada”, na página do Kickstarter .

A entrevista foi editada e condensada para maior clareza.

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