Quantcast
Mundial 2018

Todos os tipos de pessoas com que te vais cruzar a ver os jogos do Mundial

Dos patriotas de ocasião, aos "mansplainers" irritantes, sem esquecer os amigos alienados, eis todo o tipo de gente com quem vais conviver durante o Rússia 2018.

Will Magee

Will Magee

Foto via utilizador do Flickr edwin.11 |CC BY 2.0

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Aqui estamos nós, prontos para ver o Mundial na Rússia. Enquanto o Itália '90 ficou marcado pelas lágrimas de Gaza, França '98 pelo sonho da "Rainbow Nation" e a África do Sul 2010 pelo zumbido constante das vuvuzelas, a espera pelo Rússia 2018 tem sido dominada por manchetes como: "HOOLIGANS EX-MILITARES TREINADOS EM MMA VÃO ESPANCAR TODA A GENTE QUE AMAS ENQUANTO FILMAM COM UMA GO-PRO", "EXÉRCITO RUSSO ATIRA O TEU PAI AO LAGO" e "ADEPTOS INGLESES FILMADOS EM HD A SEREM ATIRADOS PARA DENTRO DE UMA SOPA BORSCHT".

Por tudo isto - e, na verdade, com razão - muitos de nós vamos viver o Mundial este Verão a partir de casa. Ainda assim, quer sejas uma dessas almas intrépidas que vão até à Rússia, ou um dos que fica recostado numa espreguiçadeira numa festa dedicada a ver o Mundial, aqui vão todos os tipos de pessoas com quem te vais cruzar enquanto estiveres a assistir ao "Torneio Literalmente Mais Importante na Terra™"


Vê: "Os hooligans russos"


Mansplainers

"Cris-ti-ano Ro-nal-do joga no Re-al Ma-drid", está o teu namorado a dizer alto, no mesmo tom que usa para pedir comida num restaurante estrangeiro. Tu, com toda a contenção possível, estás só a tentar ver o jogo. "Espanha precisa de o impedir de marcar", diz ele de forma encorajadora a achar que te está a envolver. "Os espanhóis estão a jogar 4-3-3, mas já lá vamos ao mais complicado".

Tu viras-te para ele, a sentir que, talvez pela última vez, e relembra-lo gentilmente que tens duas dúzias de bonés da selecção feminina. Ele fixa-te sem expressão e diz "Percebo. Se futebol não é a tua cena podemos ver outra coisa qualquer". Passado um bocadinho, ele confunde o Olivier Giroud com o Eric Cantona. Está na hora de o deixares.

"O Paizinho" condescendente

"Se o Wilshere não jogar nem quero ver", diz "o paizinho", a folhear firmemente um jornal enquanto caga. "O paizinho", que, sabe-se lá como, ainda está nos seus quarentas, mas cujo coração está medicamente nos sessentas, acha que jogadores com chuteiras fluorescentes "só querem é chamar a atenção".

"Wilshere é o gajo com a paixão necessária para ganhar este Mundial!, diz "o paizinho", "e em vez dele, foram escolher o Rahmeed Sterling para serem politicamente correctos, marxismo cultural e media esquerdistas e parciais - não que eu tenha qualquer problema com ele".

Passam os primeiros 15 minutos de jogo, ainda na fase de grupos, Inglaterra contra Tunísia, e está "o paizinho" a gritar tão alto que tem o corpo inteiro a tremer. Está coberto numa bandeira de St George's, a sua pele em modo vulcânico, tem a cara como um misto da de Ray Winstone do anúncio da bet365, com uma das do Danny Dyer's Deadliest Men. Não faz um xixi de menos de 10 minutos desde 2008. Imediatamente depois de Sterling marcar, ele vira-se para ti com lágrimas nos olhos. "Não nos vão deixar usar mais isto," diz a tocar o tecido da bandeira reverencialmente. "O governo quer torná-las ilegais, vi no Facebook". Tu estás apaixonada, mas ele precisa de ajuda.

Patriotas de ocasião

"Bora lá Portugal! Bora lá Por-tugal!" [Era Inglaterra, Ingla-terra, no original, mas nós, certamente, não vamos gritar pelos ingleses. Certo?] É o grito que vai estragar todas as saídas à noite aos não-adeptos de futebol entre Junho e Julho. Os bancários da tua cidade parecem ter-se multiplicado por d10, o staff do bar ligou, relutantemente, a televisão com o jogo e no ar ecoa o som insípido de canções futebolísticas mal coordenadas, numa sala em que ninguém saberia identificar Mário Rui [era Taribo West no original, mas... já perceberam, não já?] num alinhamento. Não estás no inferno, mas estás no purgatório e, aqui no purgatório, os homens continuam a perguntar-te se o Figo está a jogar.

Isto é a cena dos adeptos do futebol de cariz internacional: na maior parte do tempo, não existem. Claro, há aqueles verdadeiros que voam quilómetros só para poderem assistir aos jogos sem qualquer motivo de interesse contra a Eslovénia ou a Lituania nas eliminatórias, mas a maioria das pessoas que apoia a sua equipa nacional este Verão vai fazê-lo por patriotismo. Toda a gente no teu escritório foi dispensada para poder ver o teu país a empatar a zero contra outro país que tu nem te lembravas que jogava futebol, por isso já agora mais vale cantares o hino nacional quando toda a gente canta, não vás ser acusada por um verdadeiro adepto de odiares o teu país. Quanto a se perdes ou ganhas, a maioria das pessoas que gritam cânticos nacionalistas viradas para as televisões dos cafés não se podia estar mais a cagar. Este jogo - assim como o amor deles pelo seu país - vai deixar de existir no momento em que o apito final soar.

Hipsters Nacionalistas

"Acho mesmo que o Senegal vai trazer algo de especial ao torneio, principalmente se usarem Sadio Mané como lateral-rotativo-e-falso-nove". Isto é o tipo de comentários que, sem ponta de ironia, sai da boca do nacionalista hipster - fãs de futebol que adoram nada mais do que exibir conhecimento obscuro.

Vestido com o kit camisola XL do Senegal do Mundial de 2002 - aí está uma clara sobreposição entre hipster nacionalista e fanático das t-shirts, mas já lá vamos - este gajo consegue recitar a "História" inteira da equipa nacional do Senegal da página da Wikipédia e está a esofrçar-se para aprender Wolof para "substituição". Pergunta-lhe quem é o herói dele e ele diz-te, devagar e solenemente: "Papa Bouba Diop, obviamente".

O Senegal perde os três jogos da fase de grupos, sem marcar em nenhum. Sadio Mané leva cartão vermelho no jogo de abertura e é suspenso do resto da breve participação da equipa na competição. "Sem stress, a Polónia era a minha segunda escolha de qualquer maneira", diz o hipster nacionalista, a mudar de camisola para o antigo equipamento de Jakub Blaszczykowski no Dortmund.

Foto pelo utilizador do flickr joshjdss | CC. BY 2.0

Fanáticos das t-shirts


"A t-shirt da Nigéria do EUA '94 é um clássico do design, sem dúvida. É bom ver que a nova t-shirt do Mundial presta homenagem ao corte distinto a preto e branco do kit antigo - dá um ar retro à coisa".

É uma camisola de futebol por amor de Deus, não é um Picasso. Ninguém quer saber do processo artístico, ninguém quer saber do legado das t-shirts de futebol dos anos 90. Esta conversa é tão provável de te ajudar a fazer amigos novos, como admitires que achas que a os cânticos nacionalistas constantes são mal compreendidos.

(Nota do autor: Isto sou literalmente eu. Falo dos equipamentos de futebol como "clássicos do design" e importo-me com o legado das t-shirts dos anos 90)

Pessoas que não ligam nenhuma a futebol

"Eu nunca entrei muito na cena do futebol, sabes? Quer dizer, são 11 gajos a chutar uma bola e outros 11 a tentar tirar-lhes a bola. O Mundial parece-me ser uma perda de tempo, para ser sincero. No fundo é uma desculpa para jingoísmo e uma obsessão pouco saudável por uma identidade nacional".

Sim, sim, boa. É o Mundial, amigo. É um torneio tão fantástico e delirante que uma vez fez o Ronaldo (o "Fenómeno") rapar o cabelo em forma de pêlos púbicos. No mínimo aproveita os descontos de supermercado para as cervejas.


Vê o primeiro episódio de VICE World of Sports


Apoiantes do Brexit

"Se queres saber o que eu acho, Inglaterra ganhar a Marrocos e ao Panamá na fase de grupos - e ser completamente roubada pela burocracia dos árbitros contra uma Bélgica, francamente, patética - é a prova definitiva de que o Reino Unido está melhor fora da União Europeia e que vamos conseguir fazer do Brexit um sucesso".

Anti-Brexit

"Se queres saber o que eu acho, Inglaterra ganhar a Marrocos e ao Panamá na fase de grupos - e só perder contra uma Bélgica excelente, porque Fabian Delph arrasou Eden Hazard na zona de pénalti - é prova definitiva que o Reino Unido está melhor dentro da União Europeia e que devíamos ter imediatamente um segundo referendo quanto aos termos do Brexit".

Amigos alienados

Agora que tens 25 noites de Mundial para preencher, decides que mais vale usar uma delas para te reencontrares com aquele velho amigo que trabalha literalmente a dois minutos do teu escritório, mas que já não vês há dois anos. "Então o Peru ganhou à França, isso fica para a História, não?", são as primeiras palavras ao fim de cinco minutos de silêncio e constrangimento. "Ah, não vi esse jogo", diz ele, a beber a sua limonada, enquanto no ecrã vêem os últimos minutos do empate a zero entre a Islândia e a Croácia. Ele pára de beber e tu sentes a ansiedade social a crescer. Já lá vão os tempos de faculdade e, para ser sincero, a camaradagem também se desvaneceu com o tempo. "Lembraste quando" - começas a dizer, mas apercebes-te de que ainda não tiveste nenhuma conversa com ele que não fosse a relembrar coisas.

Ainda assim, há o futebol, o adorado futebol, a unica coisa capaz de criar laços de amizade entre dois homens adultos. É triste, mesmo, mas essa é a realidade e não há nada que alguém possa fazer para a mudar. O futebol, um jogo no qual todas as equipas, tirando duas ou três, são consistentemente más, é a última coisa que a maioria dos homens cansados, resignados e miseráveis deste Planeta têm em comum uns com os outros. Mas, foi bom ver-te, meu. Repetimos no Euro daqui a dois anos, sim? Se calhar ainda vamos a um jogo este ano? Apaga-o do Facebook quando chegares a casa. É o melhor que tens a fazer.


@W_F_Magee

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.