Como foi crescer na seita "Meninos de Deus" na Tailândia

“Havia um teste numa revista chamado 'cresceste numa seita?'. Respondi 'sim' a todas as perguntas e só então percebi a verdade”.

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jul 13 2018, 12:30pm

Todas as fotos cortesia da entrevistada.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

"Meninos de Deus" era um movimento religioso fundado em 1968, em Huntington Beach, Califórnia, EUA, por um ex-padre chamado David Brandt Berg. No seu auge, David conseguiu juntar quase 150 mil seguidores por todo o Mundo, incluindo os pais de Joaquin e River Phoenix. Hoje, o grupo é visto principalmente como uma seita. Já foram acusados de promover sexo entre menores e familiares, enquanto pregavam a infame frase: “Deus ama sexo, porque sexo é amor e Satanás odeia sexo, porque o sexo é lindo”.

A família de Flor Edwards juntou-se ao movimento quando morava em Los Angeles. Mas, quando Flor tinha cinco anos, David Brandt Berg anunciou que os seus seguidores deviam deixar o “sistema”, mais especificamente os EUA, e viajar para a Tailândia. Por isso, durante a maior parte dos anos 80, Flor passou a sua infância com um ramo da seita apocalíptica na Tailândia.

Flor, à direita, com a família em Udon Thani.

Em 1993, ainda não havia sinal do apocalipse prometido pelo Padre David, que acabou por morrer no ano seguinte. Nessa altura, o grupo já se tinha fragmentado e Flor mudou-se para Chicago com a família.

Agora, trabalha como professora e escreveu um livro de memórias sobre a sua infância, Apocalypse Child: A Life in End Times. A VICE falou com ela sobre religião e trauma.

VICE: Olá, Flor. Quem eram os "Meninos de Deus"?
Flor Edwards: "Meninos de Deus" começou com o Padre David, que vinha de uma longa linhagem de pregadores e, basicamente, queria seguir os passos da mãe. Viu uma oportunidade no movimento de contracultura hippie na Califórnia. Queria começar um novo paradigma religioso. Queria dar um sentido à vida desses jovens, um propósito. Com o tempo, as coisas tornaram-se sombrias, porque tiveram que encontrar uma forma de controlar as crianças que não tinham escolhido juntar-se ao movimento.

Como foi crescer na Tailândia?
Crescer no Sudeste Asiático foi, na verdade, uma experiência linda. Mesmo restringida às instalações, sempre que conseguíamos ver o país e a cultura ficava impressionada com a beleza da Tailândia.

A comuna de Flor na Tailândia.

Houve algum momento específico em que te apercebeste que tinhas feito parte de uma seita?
Acho que, no fundo, sempre soube que havia algo de errado, mas o momento em que percebi que tinha crescido numa seita foi aos 15 anos, ao fazer um teste da Seventeen. Estava a voltar da escola um dia, quando parei na biblioteca para ver umas revistas. Uma delas tinha um artigo sobre uma rapariga que tinha crescido numa seita. Havia um teste na revista chamado “cresceste numa seita?” Respondi “sim” a todas as perguntas e só aí é que percebi a verdade.

Havia beleza num ambiente tão sombrio?
Vi uma beleza tremenda na minha infância e essa beleza é um dos motivos para ter escrito este livro. Acho que a beleza pode vir da tragédia e as fendas são por onde a luz entra. Começo o livro com uma pequena cena da minha irmã a caçar borboletas em Phuket. Sem saber, acabámos por matar as borboletas ao mantê-las presas, tirando o pó das suas asas.

Isto é mais ou menos uma metáfora para a minha vida. Éramos predadores a destruir a beleza das borboletas, assim como a seita estava a destruir a nossa inocência. Não sei se os adultos sempre souberam o que estavam a fazer, tal como nós não sabíamos que estávamos a matar as borboletas. Eles foram enganados e manipulados, que é a parte triste da coisa toda.

Flor em Udon Thani.

Como é que imaginavas o paraíso?
O paraíso era um lugar lindo para onde eu iria depois do Grande Apocalipse, que aconteceria em 1993. Passei muitas noites a fantasiar sobre chegar ao paraíso depois da minha morte. Iria ter super-poderes e um novo corpo divino. Nunca envelheceria e iria reunir-me com a minha família (de quem ficava muito tempo separada por causa dos ensinamentos da seita). Haveria lindos jardins e campos tropicais e comeríamos livremente os frutos das árvores. Não haveria guerras. Esse era o paraíso que esperei a minha vida toda.

Fala-me um pouco sobre o líder e o que pensavas dele.
O Padre David era um personagem muito complexo e isso é parte da razão para eu escrever este livro. Precisava de compreender este homem que controlava a minha existência. Quando era criança, fui obrigada a acreditar que ele era o profeta de Deus. Nunca vi ou soube como ele era. Era retratado com um gigante, uma figura com cabeça de leão que eu devia amar incondicionalmente.

Acontece que ele era um homem profundamente perturbado, com muito demónios. Era um narcisista clássico, escondido atrás dos seus ensinamentos sobre Deus e o seu amor. Era, na verdade, muito inteligente (num sentido intelectual), com um QI alto e muito carismático. Havia método na sua loucura. Não sei se ele sabia o que estava a fazer, ou se queria mesmo começar uma seita. Ele achava que estava a realizar a missão de Deus, que é a parte mais perturbadora e perigosa de tudo isto. Na sua busca por poder feriu muitas pessoas. Acho que morreu, em parte, por culpa, um ano depois do apocalipse que ele previu e que nunca chegou.

Quão feias se tornaram as coisas?
A pior parte era a disciplina e ver os meus colegas a serem disciplinados, especialmente os meus irmãos quando eram ainda muito novos. Eles tinham de encontrar uma forma de nos controlar, portanto estabeleceram regras de disciplina que, às vezes, incluíam punição física - a que mais comento no meu livro. Lembro-me de saber que algumas das pessoas que nos puniam não o queriam fazer, só estavam a seguir ordens. Ao contrário de muitos dos que nasceram antes de mim, nunca sofri nenhum abuso sexual e dói sempre ouvir as histórias daqueles que passaram por isso.

Flor Edwards, actualmente.

Como é que conseguiram sair?
A fuga da minha família foi lenta e gradual. Demorou pelo menos dois anos. Quando o Padre David morreu em 1994, a seita começou a desmoronar-se e o grupo foi ganhando mais liberdade. Morávamos em Chicago na altura e a minha família de 14 pessoas foi abandonada sem dinheiro, educação ou posição social. Uma igreja tailandesa em Chicago acolheu-nos e ajudou-nos. Depois, mudámos-nos para a Califórnia, onde o meu pai e as minhas irmãs começaram a estudar. Mesmo sem ter educação formal na infância, consegui um diploma em escrita criativa.

Ainda és religiosa? Como é o “paraíso” para ti agora?
Não sou religiosa no sentido de frequentar a igreja. Acredito que a espiritualidade e a religião devem ser separadas e acho que há um grande problema com a religião. Numa tentativa de institucionalizar e controlar, isso arranca a própria essência do que a religião deveria ser: uma fonte de ligação com Deus, com a natureza e a comunidade. É por isso que as seitas se formam. Elas oferecem um sentido de ligação, de comunidade, propósito e pertença.

Acho que o “paraíso” pode ser encontrado na Terra e que o “inferno” se forma na mente. Ao crescer numa seita fui forçada a experimentar o inferno que vem com a manipulação e controlo psicológico e fico feliz em dizer que isso me obrigou a criar a minha própria paz na Terra.

O que tens planeado para o futuro?
Actualmente trabalho em educação e estou a considerar voltar a estudar para fazer outro mestrado, ou um PhD. Sou apaixonada por aprender, provavelmente em parte porque me negaram uma educação na infância. Mas, tenho que dizer que o sistema educacional, como muitas instituições no nosso país, está numa condição precária e muito precisa de ser feito para que todos tenham acesso a uma educação de qualidade. Também espero escrever mais livros.


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