Identidade

Como foi crescer na seita 'Meninos de Deus' na Tailândia

“Tinha um teste numa revista chamado 'você cresceu numa seita?' Respondi 'sim' para todas as perguntas e só então percebi a verdade.”
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
11.7.18
Todas as fotos cortesia da entrevistada.

Meninos de Deus era um movimento religioso fundado em 1968 em Huntington Beach, Califórnia, por um ex-pastor chamado David Brandt Berg. No auge, David conseguiu juntar quase 150 mil seguidores pelo mundo todo, incluindo os pais de Joaquin e River Phoenix.

Hoje, o grupo é visto principalmente como uma seita. Eles já foram acusados de promover sexo entre menores e parentes, enquanto pregavam a infame frase: “Deus ama sexo porque sexo é amor, e Satanás odeia sexo porque sexo é lindo”.

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A família de Flor Edwards se juntou ao movimento enquanto eles moravam em Los Angeles. Mas quando Flor tinha cinco anos, David Brandt Berg anunciou que seus seguidores deviam deixar o “sistema”, mais especificamente os EUA, e viajar pra Tailândia.

Flor passou sua infância com um ramo da seita apocalíptica na Tailândia, pela maior parte dos anos 80.

Flor, de maria-chiquinha à direita, com a família em Udon Thani.

Em 1993, ainda não havia sinal do apocalipse prometido pelo Pastor David, que acabou morrendo no ano seguinte. Nesse ponto o grupo tinha se fragmentado e Flor mudou para Chicago com a família.

Agora ela trabalha como professora e escreveu um livro de memórias sobre sua infância, Apocalypse Child: A Life in End Times. A VICE falou com Flor sobre religião e trauma.

VICE: Oi, Flor. Quem eram os Meninos de Deus?
Flor Edwards: O Meninos de Deus começou com o Pastor David, que vinha de uma longa linhagem de pregadores e basicamente queria seguir os passos da mãe. Ele viu uma oportunidade no movimento de contracultura hippie na Califórnia. Ele queria começar um novo paradigma religioso. Ele queria dar um sentido para a vida desses jovens, um propósito. Com o tempo as coisas se tornaram sombrias, porque eles tiveram que achar um jeito de controlar as crianças que não tinham escolhido se juntar ao movimento.

Como foi crescer na Tailândia?
Crescer no Sudeste Asiático na verdade foi uma experiência linda. Mesmo no confinamento das instalações, sempre que conseguíamos ver o país e a cultura eu ficava impressionada com a beleza da Tailândia.

A comuna de Flor na Tailândia.

Teve um momento específico em que você perceber que tinha sido parte de uma seita?
Acho que no fundo eu sempre soube que tinha algo errado, mas o momento em que percebi que tinha crescido numa seita foi aos 15 anos, fazendo um teste da revista Seventeen. Eu estava voltado da escola um dia quando parei na biblioteca para ver umas revistas. Uma delas tinha uma matéria sobre uma garota que tinha crescido numa seita. Tinha um teste na revista chamado “você cresceu numa seita?” Respondi “sim” para todas as perguntas e só então percebi a verdade.

Havia beleza num ambiente tão sombrio?
Vi uma beleza tremenda na minha infância, e essa beleza é um dos motivos para escrever esse livro. Acho que a beleza pode vir da tragédia e as fendas são por onde a luz entra. Começo o livro com uma pequena cena da minha irmã caçando borboletas em Phuket. Sem saber, acabávamos matando as borboletas as mantendo presas e tirando o pó de suas asas.

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Essa é meio que uma metáfora para minha vida. Éramos predadores destruindo a beleza das borboletas, assim como a seita estava destruindo nossa inocência. Não sei se os adultos sempre souberam o que estavam fazendo, como nós não sabíamos que estávamos matando as borboletas. Eles foram enganados e manipulados, que é a parte triste da coisa toda.

Flor em Udon Thani.

Como você imaginava o paraíso?
O paraíso era um lugar lindo para onde eu iria depois do Grande Apocalipse, que aconteceria em 1993. Passei muitas noites fantasiando sobre chegar no paraíso depois da minha morte. Eu teria superpoderes e um novo corpo divino. Eu nunca envelheceria e me reuniria com a minha família (que ficava muito tempo separada por causa dos ensinamentos da seita). Haveria lindos jardins e campos tropicais, e comeríamos livremente os frutos das árvores. Não haveria guerras. Esse era o paraíso que esperei minha vida toda.

Fale um pouco sobre o líder e o que você pensava dele.
O Pastor David era um personagem muito complexo e parte da razão para escrever esse livro. Eu precisava entender esse homem que controlava minha existência. Quando criança, fui obrigada a acreditar que ele era o profeta de Deus. Nunca vi ou soube como ele era. Ele era retratado com um gigante, uma figura com cabeça de leão que eu devia amar incondicionalmente.

Acontece que ele era um homem profundamente perturbado com muito demônios. Ele era um narcisista clássico escondido atrás de seus ensinamentos sobre Deus e seu amor. Ele era bem inteligente na verdade (num sentido intelectual), com um QI alto e muito carismático. Havia método em sua loucura. Não sei se ele sabia o que estava fazendo ou se queria mesmo começar uma seita. Ele achava que estava realizando a missão de Deus, que é a parte mais perturbadora e perigosa de tudo isso. Na sua busca por poder ele feriu muitas pessoas. Acho que ele morreu, em parte, por culpa, um ano depois do apocalipse que ele previu e nunca veio.

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Quão feias as coisas se tornaram?
A pior parte era a disciplina e ver meus colegas serem disciplinados, especialmente meus irmãos quando eles eram muito novos. Eles tinham que encontrar um jeito de nos controlar, então estabeleceram regras de disciplina que às vezes incluíam punição física, de que falo mais no meu livro. Lembro de saber que algumas das pessoas que nos puniam não queriam fazer isso, só estavam seguindo ordens. Diferente de muitos que nasceram antes de mim, nunca experimentei nenhum abuso sexual e sempre dói ouvir as histórias daqueles que passaram por isso.

Flor Edwards atualmente.

Como vocês conseguiram sair?
A fuga da minha família foi lenta e gradual. Levou pelo menos dois anos. Quando o Pastor David morreu em 1994, a seita começou a desmoronar e o grupo foi ganhando mais liberdade. Morávamos em Chicago na época e minha família de 14 pessoas foi abandonada sem dinheiro, educação ou posição social. Uma igreja tailandesa em Chicago nos acolheu e nos ajudou. Disso mudamos para a Califórnia, onde meu pai e minhas irmãs começaram a estudar. Mesmo sem ter educação formal na infância, consegui um diploma em escrita criativa.

Você ainda é religiosa? Como o “paraíso” é pra você agora?
Não sou religiosa no sentido de frequentar a igreja. Acredito que espiritualidade e religião devem ser separadas, e acho que há um grande problema com religião. Numa tentativa de institucionalizar e controlar, isso arranca a própria essência do que religião deveria ser: uma fonte de ligação com Deus, a natureza e a comunidade. É por isso que seitas se formam. Elas oferecem um senso de ligação, comunidade, propósito e pertencimento.

Acho que o “paraíso” pode ser encontrado na Terra, e que o “inferno” se forma na mente. Crescendo numa seita fui forçada a experimentar o inferno que vem com manipulação e controle psicológico, e fico feliz em dizer que isso me obrigou a criar minha própria paz na Terra.

O que você tem planejado pro futuro?
Atualmente trabalho com educação e estou considerando voltar a estudar para fazer outro mestrado ou um PhD. Sou apaixonada por aprender, provavelmente em parte porque me negaram uma educação na infância. Mas tenho que dizer que o sistema educacional, como muitas instituições no nosso país, está numa condição precária e muito precisa ser feito para que todos tenham acesso a uma educação de qualidade. Também espero escrever mais livros.

Matéria originalmente publicada pela VICE Austrália.

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