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Por que Kylo Ren é o melhor vilão de Star Wars de todos os tempos

Apenas aceite.
5.1.18
Lucasfilm

Texto originalmente publicado na VICE EUA.

Se os fãs estão putos com Star Wars: Os Últimos Jedi, talvez seja porque Star Wars não é mais como antes. O humor é autodepreciativo, o elenco principal não é mais exclusivamente branco e masculino, e a luta entre luz/escuridão dos filmes originais deu lugar a noções mais complexas. Rogue One apresentou “mocinhos” ostensivamente simpáticos e “vilões” que eram simplesmente burocratas que por acaso trabalhavam para os nazistas; O Despertar da Força nos deu o primeiro Stormtrooper com consciência, um soldado do Império que deserta para o outro lado. Os Últimos Jedi foi além: Luke Skywalker, nosso herói original de Star Wars, agora é um ermitão sombrio que quer que os Jedi acabem, enquanto o novo vilão da saga, Kylo Ren, é um antagonista com que é possível se identificar cujas ações parecem quase racionais.

Até esse ponto, os principais vilões de Star Wars — Darth Vader, Imperador Palpatine, Conde Dooku e o androide asmático General Grievous — eram vilões old-school que sentiam prazer com o sofrimento alheio pela simples razão de serem filhos da puta sem arrependimento. O ator de Palpatine Ian McDiarmid, a única pessoa que parece ter se divertido nas sequências de George Lucas, interpretou seu vilão com um prazer quase shakespeariano. Mas nada conseguia esconder o fato de que a única motivação do imperador era uma maldade inerente. Enquanto isso, outros episódios da franquia tentaram racionalizar Darth Vader mostrando como o jovem e inocente Anakin Skywalker se tornou um ciborgue homicida, mas Lucas — longe de ser o mesmo visionário que criou Star Wars em 1977 — conseguiu estragar a transformação.

Kylo Ren, que começou sua vida em O Despertar da Força como um clone emo do Vader, mas que se tornou infinitamente mais complexo no novo longa de Rian Johnson, não é simplesmente mau — ele é alguém que foi atraído pelo mal por um estado mental perturbado. Um Adam Driver desenfreado e emocionalmente traumatizado interpreta o personagem com uma convicção de alguém que, se não estivesse estrelando uma ficção científica pipoca, poderia disputar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante desta temporada. Mas a chave para Kylo é o roteiro: nascido Ben Solo de um dos heróis mais famosos do cinema, Kylo Ren é um ótimo vilão de Star Wars — talvez o melhor — muito por conta de quão convincentemente complicado ele é.

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Só temos uma vaga noção da infância de Ben Solo, mas já é o suficiente: dois pais ausentes, incluindo um pai cínico que menosprezava os poderes do filho (“Han foi… muito Han sobre isso”, diz Luke em Os Últimos Jedi sobre a atitude desdenhosa de Han Solo com a sensibilidade para a força de Kylo), e um tio de confiança que quase matou o sobrinho enquanto ele dormia. Jogue o menino no privilégio e complexo de inferioridade que vêm de nascer numa família tão celebrada, e você tem um garoto problemático para quem o legado era um fardo — que procura figuras paternas além de seus parentes biológicos, alguém cujo passado doloroso deixou suspenso na adolescência e que frequentemente não é capaz de controlar as próprias emoções. (Além disso, você tem um millennial que se sente traído pela geração anterior e tem esse instinto de explodir tudo e começar de novo.)

Kylo é volátil. Ele é um personagem de extremos, tanto assustador quanto patético, sedutor e repulsivo, superior e pequeno. No final de Os Últimos Jedi, depois de passar um bom tempo do filme numa conversa telepática sexualmente carregada com a colega da força Rey, Kylo impulsivamente assassina seu mestre antes de fazer um discurso furioso para Rey sobre matar o passado numa tentativa de ganhá-la. “Você veio do nada, você é nada — mas não para mim”, diz Kylo, numa das declarações de amor mais fodidas e bonitas já feita num blockbuster família, antes de pedir que ela se junte a ele como se ele fosse a pessoa mais desesperadamente solitária do universo.

"Kylo Ren é mau de uma maneira compreensível, uma maneira com a qual é possível se identificar."

Kylo Ren, diferentemente dos vilões anteriores de Star Wars que eram tentados por um misterioso “lado negro” por poderes intangíveis que os espectadores tinham dificuldade para compreender, é mau de uma maneira compreensível — uma maneira com a qual é até possível se identificar. Darth Vader sempre será mais icônico: ele é um cavaleiro negro com a voz de barítono de James Earl Jones, a estatura intimidadora de David Prowse, e o estilo de um samurai pós-punk. Mas esse vilão de Star Wars, tão eficiente no contexto de outra época, não pareceria real se introduzido hoje. Não faz sentido agora que um vilão cinematográfico seja… inexplicável. Nossa realidade atual é complicada, com vários tons de cinza, e há tempos superamos a ideia de conto de fadas de que o mundo é bom e mau por que sim.

Vilões que são simplesmente bandidos desalmados hoje em dia são registrados como falsos. A Marvel, por exemplo, é frequentemente criticada por ter um “problema de vilões”, porque os bandidos muitas vezes não têm motivações claras além de que a história precisa de um personagem que ameace os heróis. Kylo Ren, por outro lado, é o antagonista perfeito para o nosso mundo complexo — um mundo onde o vilão de uma pessoa é o herói distorcido de outra, onde vemos a moralidade como um espectro, onde estamos tão familiarizados com o conceito de causa e efeito, e como os “mocinhos” às vezes sem querer ajudam a criar seus próprios inimigos. Quando se trata dos vilões, não: Star Wars não é como antes. É melhor.

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