Ambiente

As drogas que consomes estão a destruir o Planeta

O mercado ilegal de estupefacientes tem um custo ambiental significativo, mas não precisava de ser assim.

Por Mike Power; Traduzido por Madalena Maltez
04 Junho 2019, 3:26pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

A legalização da canábis está a ganhar ritmo em vários países do Mundo. Quantidades sem precedentes de cocaína, MDMA e heroína são produzidas actualmente na Colômbia, Holanda e Afeganistão, enquanto laboratórios na China estão a despejar uma autêntica sopa de letras de drogas sintéticas nos mercados de consumo. A demanda global por drogas – são 275 milhões de consumidores espalhados pelo Planeta, segundo a Organização Mundial de Saúde – continua inabalável, enquanto a capacidade de produção cresce a cada ano.

Conhecemos os custos humanos do tráfico de drogas, como a criminalidade, o vício e a morte. Mas, enquanto as narrativas tradicionais dos media sobre drogas se focam em violência, muitas vezes ignoram outra armadilha do comércio ilegal de drogas: o impacto ambiental de uma indústria underground gigante sem regulamentação, a operar no Mundo inteiro. Aqui podes ler as formas como o nosso consumo de canábis, cocaína, MDMA e heroína – e a guerra contra cada uma delas – está literalmente a foder o Planeta.

CANÁBIS

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Uma produção de canábis em Inglaterra. Foto: Stuart Boulton / Alamy Stock Photo

A droga ilegal mais popular do Mundo, a canábis, cresce em quase qualquer lugar. Certas variedades da planta podem até ser usadas para limpar solo poluído: nos anos 1990, cânhamo industrial (que não vale a pena fumar, mas faz parte da família da canábis) foi plantado à volta do reactor destruído de Chernobyl na antiga União Soviética em 1986, para ajudar a sugar os poluentes radioactivos. Em 2017, agricultores no sudeste de Itália usaram cânhamo para descontaminar o solo de poluentes emitidos por uma siderúrgica próxima.

Mas, a produção de canábis tem uma grande pegada de carbono. Em parte, porque a planta é cultivada em ambientes fechados, já que a maioria dos produtores mundiais querem evitar os olhos das autoridades.

Segundo Dan Sutton do Tantalus Labs, uma empresa canadiana que produz canábis natural em estufas, a energia exigida para cultivar um quilo de canábis indoor cria 4.660 quilos de CO2 – a mesma quantidade que produzirias se cruzasses os EUA de carro 11 vezes. Diz ele que, apesar do aumento da legalização, cerca de 90 por cento de toda a canábis norte-americana é cultivada indoor. Estudos mostram que o cultivo de canábis em ambientes fechados nos EUA representa um por cento do total do consumo de electricidade no país, o equivalente a um ano de energia para um milhão e 700 mil casas. Segundo investigadores da Universidade de Swansea, isto gera 15 milhões de toneladas de gases-estufa anualmente.


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Geoff*, uma das muitas pessoas no Mundo que secretamente cultivam canábis em casa, tem uma plantação de nove plantas em Londres – em Inglaterra, quase 10 mil produções ilegais de canábis foram desmanteladas pela polícia em 2016.

“Cultivo as plantas na cave sob luzes de 1.000 watts”, explica Geoff. E realça: “As luzes ficam acesas 24 horas por dia por 60 por cento do ano, o que aquece a sala. Por isso, tenho que arrefecê-la com ar-condicionado. Mas, isso seca muito o ar, portanto tenho que usar um humidificador. E, às vezes, um desumidificador. Tenho que filtrar o ar para que a casa não fique a cheirar mal e tenho que extrair esse ar e, também, puxar ar fresco. Produzo apenas 16 quilos por ano. Mas, se pudesse cultivar mais plantas, legalmente, numa estufa no meu jardim, acho que poderia produzir o dobro disso com zero energia”.

Nos EUA e Canadá, o cultivo legal que usa mais de um milhão de watts é agora comum. O cultivo de canábis em estufas ou a céu aberto não só elimina as emissões de carbono do cultivo indoor, como as plantas funcionam como uma rede que absorve carbono, fixando o CO2.

Passar o cultivo de canábis indoor para céu aberto reduziria, claramente, a pegada de carbono criada pelo uso global de canábis, segundo Sutton. “Se os produtores americanos trocassem para estufas, a energia poupada poderia abastecer todas as casas de Seattle, Portland e São Francisco – juntas – durante um ano”, garante. E acrescenta: “Se passasses todo o cultivo de canábis da Califórnia para cultivo a céu aberto, isso pouparia o dobro da energia da que é produzida por todos os painéis solares do estado – o dobro”.

Mas, esse processo tem de ser regulamentado para minimizar danos para a vida selvagem e reservas de água. Alguns dos produtores de erva de renome dos EUA cultivam no Triângulo Esmeralda na Califórnia, que engloba os condados de Humboldt, Mendocino e Trinity. Produtores de canábis sem licença a céu aberto usam herbicidas e pesticidas proibidos, que matam animais e poluem o abastecimento de água local. Estão também muitas vezes a roubar esses abastecimentos públicos de água: a chuva na Califórnia durante a temporada de cultivo, de Maio a Setembro, é mínima, significando que a irrigação tem de ser desviada de córregos e rios. A canábis também é uma planta sedenta: em 2018, investigadores da Universidade Swansea relataram que plantas de canábis precisam do dobro de água diariamente do que videiras e apontaram que os incêndios florestais na Califórnia em 2017 foram exacerbados pelas secas. E em 2015, investigadores da Public Library of Science da Califórnia atribuíram as secas recentes a um pico do cultivo sem licença.

O mesmo estudo da Public Library of Science descobriu que o cultivo sem licença no estado causou “fragmentação de habitats sensíveis através do desmatamento ilegal [para o plantio de canábis]; enterro de córregos; entrega de sedimentos, nutrientes, produtos de petróleo e pesticida em córregos; desvio de água da superfície para irrigação, resultando na redução de fluxo e secagem completa de córregos e na mortalidade de vida selvagem terrestre por ingestão de pesticidas”.

Sutton argumenta que a regulamentação é a resposta, garantindo que “um mercado formal e legal como o que temos no Canadá cria empregos, reduz o crime e pode ajudar o meio ambiente”, porque a fotossíntese usa a energia da luz solar para converter CO2 e água em açúcar e oxigénio. “Como empresa, estamos sempre voltados para a Natureza – actualmente usamos plantio partilhado, minhocas, nematoides, permacultura e reciclagem. A melhor canábis, para nós e para o meio ambiente, é a canábis natural”, defende.

COCAÍNA

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Uma plantação colombiana de coca. Foto: William Meyer / Alamy Stock Photo

A Colômbia é a fábrica de cocaína do Mundo, tendo produzido, segundo as estimativas da ONU, 1.379 toneladas em 2017, um aumento de quase um terço quando comparado com 2016. O país, tradicionalmente, processa a folha em pasta e pó, para além de a exportar – em parte graças à sua longa história de guerra civil, que deixou grandes porções do país sob o controlo de guerrilhas e paramilitares, com instituições do estado enfraquecidas e corrupção desenfreada.

Quando as folhas de coca são colhidas (geralmente por crianças, cujos dedos rápidos podem fazer 1,50 dólares por dia), a pasta de cocaína é feita em laboratórios na selva, onde os trabalhadores colocam toneladas de folhas em grandes poços cheios de químicos tóxicos, incluindo cal, ácido sulfúrico e, mais tarde, acrescentando-lhe querosene e amónia. Acetona, éter e ácido clorídrico são usados para transformar a pasta da cocaína em pó. Todos esses produtos são deitados fora indiscriminadamente, matando flora e fauna.

Há pouquíssimos dados sobre isto, já que o trabalho de campo é demasiado perigoso nessas áreas remotas e sem lei. Em 2017, a UNODC estimou as quantidades de químicos envolvidos, num estudo intitulado: Disposal of Chemicals Used in the Illicit Manufacture of Drugs. “Apesar da falta de provas científicas sobre o impacto exacto do processo no meio ambiente, a cada ano provavelmente milhões de toneladas de resíduos perigosos da produção de cocaína são libertados na Natureza”, diz o relatório.


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Segundo um projecto de 40 meses financiado pela União Europeia que acabou em 2016, quando as colheitas eram menores, a produção anual de cocaína na Colômbia exigia mais de 700 milhões de litros de querosene, 30 milhões de litros de solventes, quase oito milhões de litros de ácido sulfúrico, quatro milhões de litros de ácido clorídrico e 95 mil litros de amoníaco. Tudo despejado ilegalmente em florestas, ralos, no mar ou rios, matando flora, fauna e contaminando o solo.

Num mundo diferente, folhas de coca para cocaína poderiam facilmente ser cultivadas em plantações éticas, com padrões ambientais apropriados, tal como acontece com o café. Os lucros poderiam ir para produtores e governos, para o desenvolvimento dessas regiões com escolas e saúde pública que estão em faltam nos dias de hoje. A cocaína poderia até ser sintetizada em laboratório do zero.

Um dos impactos mais significativos do cultivo de coca é causado por produtores que, para fugirem às equipas de erradicação, plantam em áreas isoladas e de grande biodiversidade, segundo explica Lilliana Davalos, professora de ecologia e evolução da Stony Brook University de Nova Iorque. A Colômbia é um dos países com mais biodiversidade do Mundo, lar de 10 por cento das espécies do Planeta. Mas, as autoridades empurram os produtores para áreas reclusivas e inacessíveis, prejudicando a biodiversidade de formas que ainda não foram quantificadas. “Se os cocaleros [produtores de folha de coca] pudessem plantar sem terem que se esconder, não seriam obrigados a entrar em áreas frágeis de grande biodiversidade”, explica Davalos.


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Mas, alguns dos impactos do comércio de cocaína no Planeta têm sido exagerados. Em 2008, Francisco Santos Calderón, então vice-presidente da Colômbia, disse à Association of Chief Police Officers do Reino Unido que cada grama de cocaína cheirada no Reino Unido contribuía para quatro metros quadrados de florestas perdidas. Essa alegação rendeu manchetes durante anos e nunca foi questionada, mas parece ser extrapolação (segundo a ONU, cada hectare de coca pode produzir 5,6 toneladas de folhas de coca, que podem ser processadas em 8,4 quilos de cocaína pura. Isso é quatro vezes menos terra por grama do que Calderón sugeriu, mas não inclui terras desmatadas para apoiar o comércio de cocaína).

Em qualquer caso, as florestas são desmatadas para a produção de cocaína, mas focar-se só na cocaína é não ver a imagem geral. A indústria ilegal de cocaína contribuiu apenas com uma fracção do desmatamento total da Colômbia. Em 2017, segundo a ONU, a coca era cultivada em 171 mil hectares de terra na Colômbia, um aumento de 25 por cento desde 2016 – mas, isso corresponde a apenas 0,15 por cento das terras do país. Em 2016, Davalos concluiu que “o cultivo de coca gera uma perda florestal, directa e indirecta, insignificante”.

Pensa assim: o que é que as pessoas comuns consomem mais, cocaína ou carne? Como também é o caso para as florestas tropicais pelo Mundo, cujo desmatamento actual é causado principalmente por agropecuária, migração humana, conflito armado, agricultura e mineração. “O objectivo do argumento de Calderón era associar duas coisas más: desmatamento e coca, como se a coca fosse a única causa do desmatamento”, salienta Davalos, acrescentando que a maioria do desmatamento na Colômbia foi causado por construções de estradas, agora abandonadas, nos anos 1960.

“Isso não quer dizer: 'Não te preocupes, consumidor de cocaína, o teu hábito não causa danos'”, diz Davalos. E sublinha: “Mas, é uma demonização muito específica da coca, como sendo algo unicamente mau, mais prejudicial que outras plantações – e isso é uma falácia. A terra usada para cultivar coca é pequena em comparação com o pasto, produtivo ou não”.

Os ataques mais indiscriminados contra espaços naturais na Colômbia foram realizados por agentes dos EUA, que faziam missões aéreas para atirar pesticidas em campos de coca entre 1999 e 2015, sob a ofensiva anti-drogas Plano Colômbia. Os norte-americanos queriam combater os cartéis de cocaína ao financiarem o exército colombiano, além de aumentarem a presença militar americana no país.

As plantações de coca, geralmente cultivadas junto a safras de alimentos, eram bombardeadas com uma versão extremamente forte de Roundup, um herbicida criado pela Monsanto, contendo um químico chamado glifosato. O produto é usado em milhões de plantações comuns no Mundo, mas na Colômbia, acrescentavam-lhe os ingredientes antes de o atirarem de aviões, não eram cuidadosamente aplicados nas safras.

Sanho Tree, director de políticas de drogas do Institute for Policy Studies, um think tank norte-americano, afirmou: “O exército norte-americano usou uma versão superpotente do Roundup na Colômbia, combinado com um surfactante, para que aderisse melhor à vegetação. Vi aviões a sobrevoarem a floresta tropical em 2000, libertando nuvens de tempestade dessa coisa. Eles precisavam de voar muito alto para evitar os snipers da guerrilha abaixo, significando que a cobertura era enorme. Acabava tudo ensopado com o produto”.

Glifosato é usado em plantações s de todo o Mundo, em conjunto com sementes geneticamente modificadas que lhe são resistentes. Mas, na Colômbia, essa aplicação aérea indiscriminada acabou com as plantações de agricultores pobres – alimentos, coca, tudo. A maioria não teve outra escolha a não ser mudar-se e plantar mais coca. Em Maio deste ano, um tribunal dos EUA decidiu que o glifosato causou cancro a cidadãos norte-americanos. A Monsanto, agora propriedade da gigante da indústria farmacêutica Bayer, enfrenta mais de nove mil processos parecidos nos EUA.


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Todavia, os esforços de erradicação da coca dos governos norte-americano e colombiano nas últimas décadas, não destruíram as plantações. A campanha de aplicação áerea começou em 1999, mas foi interrompida em 2015 por preocupações de saúde. Missões menores e supostamente mais seguras com drones começaram em 2018.

Mas, em Março, o presidente Donald Trump disse que a Colômbia não está a cumprir as suas responsabilidades para acabar com o cultivo de coca, afirmando bizarramente que o seu presidente da ala dura da direita, Ivan Duque, “não fez nada por nós”. A retórica de Trump provavelmente vai provocar o regresso da campanha de aplicação aérea, segundo Jeffrey Villaveces, director colombiano da IMMAP, uma rede humanitária de troca de dados.

“O presidente Ivan Duque diz agora que é uma questão de orgulho nacional reinstaurar a fumigação aérea com aviões – não drones”, explica Villaveces. E sublinha: “Tendo em conta a falta de protestos numa audiência constitucional recente para permitir os voos outra vez, é muito provável que a aplicação aérea volte quando os processos de paz vacilarem e as plantações atingirem níveis recordistas”.

Sendo assim, consumidores de cocaína, como as pessoas que comem carne, devem ser culpados pelo dano ao meio ambiente causado pelo seu hábito? Steve Rolles, analista de políticas da ONG britânica Transform Drug Policy Foundation, afirma: “O consumo ilegal de cocaína não é possível eticamente. Mas, é errado atribuir a culpa aos consumidores. Todos esses problemas podem ser mitigados, se não eliminados, com um controlo apropriado num mercado legal”.

MDMA

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Um laboratório de MDMA na Holanda. Foto: Contraband Collection / Alamy Stock Photo

A ONU diz que a maioria do MDMA do Mundo é produzido por grupos criminosos na Holanda, que tipicamente usam químicos enviados da China para o porto de Antuérpia na Bélgica. O epicentro da produção é Tilburgo, na região do sul de Brabante.

Segundo a polícia holandesa, a produção de drogas em Brabante aumentou consideravelmente nos últimos 10 anos, graças a químicos que descobriram uma nova maneira de fazer MDMA, usando um precursor químico chamado glicinato pmk. Até Março deste ano, era legal comprar, vender e importar glicinato pmk, que era vendido por entre 60 a 80 euros o quilo. Cada quilo do químico pode produzir 500 gramas de MDMA e é vendido a pouco mais de um euro por grama por atacado – rendendo um lucro de quase 20 vezes aos criminosos.

A maioria dos consumidores de MDMA acham que a droga é inofensiva para o Planeta. Mas, os grupos criminosos de Brabante despejam regularmente os subprodutos tóxicos dos seus laboratórios em parques, ruas e florestas, além da beira de estradas. Para não despejar esses subprodutos venenosos à mão, as gangs amarram vários barris e baldes de lixo tóxico na traseira das suas viaturas com as portas abertas e a ponta da corda amarrada a uma árvore. Quando aceleram, os baldes são puxados e derramam milhões de litros de ácido clorídrico e sulfúrico e acetona que se vão infiltrar na terra, contaminando o solo, matando a vegetação e ferindo os animais que entrem em contacto com eles.


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Um polícia holandês que gere equipas que lidam com grupos ligados ao tráfico de drogas, que pediu para permanecer anónimo, revela que em 2018 as suas equipas tiveram que limpar locais de despejo de resíduos de MDMA (e, em menor número, anfetaminas) quase todos os dias por toda a Holanda. “Tivemos 292 locais de despejo no ano passado – e esses são apenas os que descobrimos. Alguns gangs, simplesmente, atiram os químicos pelo ralo ou na floresta e não deixam baldes para trás”. O solo continua contaminado como resultado e custa 50 mil euros limpar cada local.

Os grupos começaram até a deixar os químicos em ruas perto de esquadras, garante a mesma fonte. E acrescenta: “Em Abril, um gang despejou 1.600 litros de químicos numa rua paralela ao quartel-general da polícia perto de Eindhoven. Primeiro, tentaram deixar os barris, mas por alguma razão desistiram. Portanto, derramaram os químicos em três quilómetros da estrada. O cheiro era insuportável. Um colega ficou com bolhas pelo corpo só de colocar a fita de segurança da polícia à volta do local do incidente”.

Em Dezembro de 2018, um grande laboratório de MDMA que produzia drogas com um valor de rua de 3,5 milhões de euros por semana foi descoberto e desmantelado a 200 metros do gabinete de Jan Boelhouwer, Presidente da Câmara de Gilze, em Rijen. “Fiquei muito surpreendido”, diz à VICE. E acrescenta: “A produção de drogas sintéticas nesta parte da Holanda está totalmente fora de controlo. Os políticos em Amesterdão estão em negação sobre a escala do problema aqui”.

Os gangs usam vários métodos para se livrarem dos seus resíduos, com danos para a flora e fauna através da contaminação do solo. “O despejo que vemos em florestas é apenas parte disso. Os grupos criminosos abordam agricultores e fazem uma oferta: 'Damos-te cinco mil euros por mês para deitares os nossos químicos na tua lama dos porcos'. Se recusam, os seus filhos são ameaçados”, garante Boelhouwer. Além disso, já foram encontradas carrinhas modificadas com buracos para irem derramando discretamente os químicos nas ruas e estradas.


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Guy Jones, um químico da Reagent-Tests U.K., entende que isto é uma consequência das leis de drogas que obrigam os produtores a trabalharem de forma barata e em segredo. “Ter um processo de produção regulado poderia ajudar nesta questão. As farmacêuticas não despejam os seus resíduos nas florestas, porque não precisam”, salienta. E conclui: “Elas pagam a outras empresas para os descartarem legalmente”.

Em Março, a ONU proibiu o glicinato pmk. Como resultado, fornecedores chineses fizeram uma promoção relâmpago com 80 por cento de desconto por quilo. E, mesmo que esse precursor tenha sido proibido internacionalmente, novas opções ainda legais estão amplamente disponíveis no mercado pelo mesmo preço ou até mais baixo.

Este tipo de despejo nas florestas holandesas é um crime e precisa de ser visto no contexto histórico e legal apropriado. A tendência do uso de glicinato pmk foi desencadeada por uma ofensiva contra a produção de safrol no Camboja em 2008, quando as forças de drogas da ONU apreenderam e queimaram 33 toneladas de óleo de safrol – que oferecia uma das alternativas mais fáceis para produzir MDMA.

O óleo é destilado ilegalmente da raiz de uma árvore conhecida localmente como mreah prew phnom, a Cinnamomum parthenoxylon, que cresce nas Montanhas Cardamomo no oeste do Camboja. Essas florestas ancestrais são lar de mais de 50 das espécies mais ameaçadas do Mundo, incluindo o elefante-asiático, o tigre-da-indochina, o crocodilo-siamês, o urso-malaio, o gibão e o pangolim. As árvores são derrubadas, têm as raízes retiradas e destiladas em grandes caldeirões, aquecidos com madeira também retirada da floresta. São necessárias quatro árvores mreah prew phnon para produzir quase 700 litros de óleo de safrol. Seis árvores de outro tipo são cortadas e queimadas para processar uma árvore de safrol.

Esse mercado atingiu um pico em 2008, 2009, mas em 2015, 3.200 litros de óleo foram apreendidos na área, segundo os media locais. Funcionários da Conservation International confirmaram na altura que “ainda há óleo de safrol a vir de Phnom Penh”. Toby Eastoe, então coordenador de projetos da Conservation International, disse ao Phnom Penh Post: “Depois das apreensões, o processo mudou – agora, eles cortam as árvores e tiram-nas da floresta como se fosse qualquer outro tipo de madeira. As fábricas de safrol podem estar localizadas em qualquer lugar do país”.

A lógica circular da guerra às drogas é perfeitamente ilustrada por esse processo, segundo Guy Jones. “Leis anti-drogas geram sempre inovações em direcções negativas. Os químicos passaram para o glicinato pmk como resultado da ofensiva contra o safrol”, diz. E acrescenta: “Tiveram que passar de um processo químico de um passo para um processo de vários, significando mais resíduos, mais materiais crus e mais energia consumida”.

HEROÍNA

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Parafernália de consumo de heroína. Foto: Conrad Elias / Alamy Stock Photo

As papoilas de ópio crescem livremente em solo de baixa qualidade sem muita necessidade de manutenção, mas agricultores afegãos que queriam maximizar as suas plantações e lucro começaram a plantá-las em áreas desertas, onde exigem práticas de cultivo intensivo e desvio de água, resultando na salinização do solo onde poucas outras plantas podem crescer.

David Mansfield, consultor internacional de políticas de drogas, estudou 20 safras de ópio no Afeganistão. Ele diz que, no país, os cultivadores de papoilas lestão “a verdejar” o deserto – o que parece positivo quando se olha para a coisa assim. Mas, a história real não é tão simples.


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“No Afeganistão, vemos os lençóis freáticos a serem usados por cidadãos para a agricultura. Isso é mais intenso nas áreas antes desérticas do sudoeste, onde as plantações de papoilas se concentram”, diz o especialista à VICE. E realça: “Nessas áreas, mais de 300 mil hectares de deserto foram ocupados para produção agrícola em 15 anos. Essas plantações cada vez mais são irrigadas com poços artesianos movidos a energia solar, que estão a esgotar os lençóis freáticos. Com energia solar, os agricultores consideram a água 'grátis' e exploram-na ainda mais, usando energia solar de dia e combustível à noite para aumentarem o fluxo e terem mais terra para cultivar”.

Com novas áreas produtivas, Mansfield diz há, agora, vastas áreas de terra que foram salinizadas depois de parte da água de irrigação evaporar das plantações, deixando para trás terra braqueada e salgada. Herbicidas poderosos são usados normalmente nas plantações, geralmente por homens e crianças sem treino, que não usam proteção para trabalhar nos campos. Ele acrescenta que um aumento dos níveis de nitratos venenosos estão a aparecer agora nos lençóis freáticos.

E AGORA?

Se a pessoa está determinada a ter a consciência limpa enquanto apanha mocas, pode tornar-se auto-suficiente – cultivar os seus próprios cogumelos, canábis a céu aberto ou cactos psicoactivos se tiver muita, muita paciência. Comércio ético de casca de árvore com DMT existe, mas é preciso extraí-lo sozinho com químicos tóxicos e arriscar apanhar vários anos de cadeia. É ilegal, mas é possível e a Internet está cheia de guias e produtos para consumo ético.

Estimulantes são um problema maior. A opção mais ecológica seria usar drogas feitas na China como etilfenidato, fenmetrazina e os seus análogos, já que essas drogas são, geralmente, produzidas como actividade secundária por empresas farmacêuticas legítimas com padrões (mesmo que mínimos) de gestão de resíduos. Todas essas drogas são ilegais no Reino Unido e em boa parte do Mundo e sabemos pouco sobre os seus efeitos colaterais em comparação com as escolhas já estabelecidas, como anfetaminas e cocaína.

Como a pessoa escolhe drogar-se, comer ou viajar é uma questão complexa de padrões éticos pessoais. Mas, até que os julgamentos morais sem cabimento e ciência manhosa parem de sustentar as nossas leis de drogas – e os mercados ilegais sejam desmantelados e substituídos por mercados legais, comandados por especialistas em vez de criminosos – haverá sempre impactos evitáveis e prejudiciais e a culpa será sempre atirada para cima dos consumidores.

Os danos ambientais da produção de drogas são inegáveis e lamentáveis. Mas, como dizem os especialistas, a forma mais rápido de remediar isso é rescindir as nossas leis datadas de drogas e regular, monitorizar e controlar formalmente esses mercados tão lucrativos.

*Os nomes foram mudados para proteger a identidade das fontes.


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