Cultura

Todas as merdas que devias ter deixado em 2018

Segunda: youtubers a dizer "pessoallll!!" (ou "maltaaaaa!!" ou lá o que é que dizem). Primeira: nazis no Goucha e na vida em geral.

Por VICE Staff, e Sérgio Felizardo; Traduzido por Marina Schnoor
07 Janeiro 2019, 5:23pm

Elon Musk. Ilustração: Sam Taylor.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK e parcialmente adaptado à actualidade nacional.

O ano de 2018 foi do caraças, não foi? Aconteceram uma catrefada de coisas. Algumas foram boas, outras más e muitas foram totalmente bizarras. O nazi no Goucha, por mais bizarro que tenha sido, já aconteceu este ano (começa bem!), portanto para aqui não conta, mas conta para termos a certeza que isto só vai piorar.

A tentativa de normalização de gajos que têm o ódio como modus operandi com a desculpa abusiva da liberdade de expressão e a demonização do "politicamente correcto" já não é só uma coisa de atrasado mentais das caixas de comentários redes sociais. Passo a passo, a canalha estende os tentáculos e tenta agora a doutrinação das "donas de casa", das "senhoras lá de casa", dos reformados e pensionistas, do povo eternamente descontente, mesmo que não saiba bem porquê nem com quem. Descontente, no geral.


Vê o primeiro episódio de "Odiarás o Teu Vizinho"


Autoridade, um Salazar a cada esquina, o medo, "a esquerdalha que come criancinhas ao pequeno-almoço", a luta contra o que eles apelidam de "terrorismo ideológico" como força motriz da propagação desse mesmo ódio. E alguns a aproveitarem-se disso em nome das audiências. A estupidez justificada pela necessidade da tolerância. A democracia achincalhada por quem quer tudo menos a democracia.

2019 promete, pois, a enfatização de um caos por muitos desejado. Aqui abaixo podes ler tudo o que entra na categoria "coisas totalmente bizarras" que deveriam ter ficado em 2018 e nunca mais ser mencionadas. Infelizmente, é só um desejo.

A FUNÇÃO DE PARTILHA DO WHATSAPP

Quando era mais nova, a parte da internet que me deixava mais nervosa eram as correntes de e-mail. Ficava deitada na cama sem conseguir dormir, preocupada porque uma menina que morreu presa num arame farpado viria puxar-me o pé durante a noite. Achava que isso ia passar com o tempo, mas ainda recebo correntes de e-mail. Tu, como eu, deves ter familiares mais velhos que recentemente aprenderam a usar a função “partilhar” do WhatsApp. No meu caso, isso significa que o meu telemóvel é inundado por versículos da Bíblia, memes de há três anos e fake news “da polícia, repassem”. Mesmo já não tendo medo de ser morta por uma menina estilo Samara, tenho que aguentar a minha mãe e a minha tia a perguntar porque é que não parei um minuto para responder às suas mensagens. Portanto, pelo bem da minha união familiar, livrem-se dessa função, por favor.

@nanasbaah

PENSAMENTO COLECTIVO

Toda a gente pensa igual – ou, na verdade, sente que devia pensar como toda a gente, principalmente com base no medo. Graças à cultura do cancelamento, toda a gente espera que o resto do pessoal forme uma posição “certa” sobre a última manchete ou Celebridade Que Disse Merda. Eu preferia ver discussões online com base em diferenças reais como nos bons velhos tempos (o Twitter de 2013), em vez de indignação forçada quando a opinião de alguém é um bocadinho diferente da tua. Ficámos demasiado preguiçosos para procurar as nossas opiniões autónomas e, em vez disso, ficamos à espera que surja uma posição destrutiva.

@hannahrosewens

OS MEUS INIMIGOS

“Ah, vamos deixar as palhinhas de plástico em 2018!” – não. “Talvez devêssemos deixar a guerra e a fome” – pouco realista pá, não. Vamos deixar para trás toda a gente que se meteu comigo pessoalmente, para além de uma listinha de jornalistas e comentadores irritantes. Vamos deixar para trás o tipo que me fez perder o depósito de segurança quando me mudei de uma casa em 2015! Morre! E se não morreres sozinho, eu vou-te matar! 2019!

@joelgolby

MAUS MEMES

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Ilustração: Sam Taylor

Ficou extremamente evidente no decurso de 2018 que os memes são tudo o que temos. O meio ambiente está a morrer e o Mundo está basicamente a bater palmas. Os memes são a única coisa que nos resta. Então, porque carga d'água insistimos em insultar essa nobre forma de comunicação, quando somos capazes de fazer muito melhor? Nós do “o namorado dela aqui, seu merdas”, nós da foto do Ben Affleck a fumar, nós daquele tipo japonês da borboleta. Os memes tornaram-se a medida para nós próprios e, assim que deixarmos que eles ascendam ao nível de “Video killed the radio star”, provaremos que somos dignos do meio. Podem tirar-nos a dignidade, mas não nos podem tirar o nosso Johnny Yes Papa. Eu não vou deixar.

@hiyalauren

DESCULPAS DE CELEBRIDADES

De todas as polémica que os famosos criam para si mesmos – geralmente ao atacar alguém, ou a dizerem alguma coisa que não exigia a sua opinião – alguém na história da humanidade já deu alguma desculpa decente para qualquer merda que seja? Para além da Samantha Bee a conceder graciosamente que passou dos limites aos olhos de algumas pessoas quando chamou a Ivanka Trump de “vadia fraca”, alguém já disse alguma coisa que tenha merecido sequer um simples “sim, é justo”?

A maioria das desculpas públicas vêm de celebridades mulheres que, sem querer, disseram algo gordofóbico numa entrevista, ou de reincidentes que fazem pouco progresso para “não ofender as pessoas”, por isso era melhor, simplesmente, parar de prestar atenção a essa gente imediatamente. Ao mesmo tempo, qualquer pessoa que tenha algo realmente importante para dizer parece sair relativamente ilesa enquanto toda a gente no Twitter discute sobre o que a Lena Dunham não precisava de ter dito desta vez. Então, vamos simplesmente acabar com isto. As únicas pessoas de quem quero ouvir desculpas públicas este ano são operadoras de transportes coletivos, do 1% e da pessoa que me transmitiu clamídia. Quanto ao resto, parem de fazer e dizer merda. Silêncio é o mood de 2019.

@emmagarland

TRABALHAR NO ESCRITÓRIO

Claro, o trabalho em si precisa de acabar para salvarmos a humanidade e o Planeta, mas nos entretantos, alguém me pode dizer qual o objectivo do trabalho presencial? O escritório é só um lugar com iluminação fluorescente e uma máquina de Nespresso. Claro que às vezes precisas de ter uma reunião para planear coisas e falar de má vontade com os teus colegas, mas podias fazer isso num café qualquer. No resto do tempo, podíamos muito bem fazer o nosso trabalho remotamente, longe de pessoas que foram aleatoriamente escolhidas para passar a maioria das horas do dia connosco.

Os leitores que ainda falam cara-a-cara com pessoas no trabalho podem sentir que vão perder alguma coisa. Eles obviamente não têm Slack, que é o equivalente da interação real no trabalho que o MSN era para falar com miúdas na minha adolescência. Se vamos comunicar electronicamente na mesma, podemos perfeitamente fazer isso a partir do sofá de casa – além disso, não ter que apanhar transportes para o trabalho significa que tens mais tempo para estar com os teus verdadeiro amigos.

@simonchilds13

PETA

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Ilustração: Sam Taylor

É sempre a mesma coisa. Acordo um dia realmente comprometida em ser vegan e, em menos de um segundo nas redes sociais, vejo a PETA a mandar um “discriminação contra animais é tão mau como o racismo e a homofobia”. Sinto-me imediatamente pronta para pedir um Cheese-Tudo com ovo. Nunca entendi porque é que organizações como esta acham que vão convencer alguém a juntar-se à sua causa com este tipo de conversinha (fracamente sem graça, o que é pior). É muito mau e condescendente e, no final das contas, mina todo o vegetarianismo, faz com que os vegetarianos pareçam um bando de idiotas desinformados, quando só queremos que o dia acabe e talvez, tipo, comer umas batatas fritas. E eles fazem estas merdas umas três vezes por ano! Até mais! E é sempre um tiro no pé. PETA, vai-te foder.

@hiyalauren

YOUTUBERS A DIZER "PESSOALLLLL!"

Nem preciso de explicar.

@joelgolby

O PODER QUE 'FORTNITE: BATTLE ROYALE' TEM NA MINHA VIDA

Fortnite Battle Royale é um videojogo feito para putos de 12 anos que eu jogo com um foco e dedicação que esperarias de um atleta olímpico ou de um monge com voto de silêncio. Além disso, sou muito mau em Fortnite e nem acredito nas horas de pura merda da minha vida que perdi nisto. O meu priminho ganha um ou dois jogos por semana e manda-me mensagem sempre que isso acontece, enquanto eu, metade do tempo, ainda não tenho as reações suficientemente rápidas para construir uma rampa decente.

Sinto que Fortnite definiu 2018. A sétima temporada da quase história do jogo já começou e, mais uma vez, o mapa mudou e isso vai continuar em 2019, mas não se vai parecer tanto com a onda sísmica que foi o ano passado; o jogo vai-se tornar numa espécie de ruído de fundo na indústria multimilionária dos downloads grátis – mas, caramba, eu ainda quero as minhas horas perdidas de volta. Quero todo o espaço que isso ocupa no meu cérebro de volta! Quero que o Explore do meu Instagram pare de só ter clipes de gente a rodopiar! Queria não saber o que é um Lucky Landing, ou quem é o Ninja, ou o que significa uma lhama no contexto do jogo! Queria ter lido um livro que fosse em 2018!

@joelgolby

"GHOSTING"

Menos no sentido do acto em si – porque apesar de não ser a coisa mais simpática de se fazer, às vezes é a única alternativa, a menos que curtas dizer às pessoas que esperas nunca mais ter que voltar a interagir com elas –, mas a reacção negativa a isso.

No ano passado, toda a gente ficou furiosa com o facto de sofrer o tal “ghosting”. Aplicações de encontros começaram uma ofensiva contra a prática, com avisos para não demorar mais de alguns dias a responder. A reacção das pessoas ao ghosting tem sido uma loucura. No começo do ano passado, fizeram ghosting a uma mulher e, em vez de só mandar uma mensagem básica e esquecer o assunto como toda a gente faz, ela mandou uma gravação de voz ao tipo e exigiu outro encontro.

O que quero dizer é: se te dás a esse trabalho, ou fazes papel de admin depois de cada encontro, só torna mais claro o porquê de te terem feito ghosting em primeiro lugar.

@nanasbaah

ELON MUSK

Elon Musk teve um ano e tanto em 2018. Mandou um carro para o espaço. Vendeu 20 mil lança-chamas da sua marca. Fez as acções da própria companhia ddescanbarem depois de dizer que ia privatizar a Tesla por 420 dólares por acção, numa tentativa de fazer a sua namorada - que é a Grimes - rir. Chamou um mergulhador herói da caverna da Tailândia de pedófilo, escreveu tweets sobre vender “meias com bolsos para protector labial e cartões”, enquanto supostamente estava em ácido, com a Azealia Banks presa nalgum lugar da sua casa e fingiu que não sabia o que era erva, para depois dar umas passas num charro gordinho no programa de Joe Rogan, com uma t-shirt do Occupy vestida.

2018 foi, acima de tudo, o ano de gente inacreditavelmente rica se safar com este tipo de coisas. E, apesar de me ter dado um certo prazer ver alguém com uma network de 22,1 mil milhões de dólares a tweetar sobre calçõezinhos de madrugada, este gajo é louco. Ele é um episódio do Workholics que ganhou vida. Um post cheio de dislikes no r/AWLIAS. Um homem com uma visão de vendedor de carros usados e todo o dinheiro do mundo, a ser elevado e destruído pelo seu próprio culto da personalidade. Pelo bem dele, não podemos deixar isto continuar para lá de Janeiro.

@emmagarland

MÚSICOS QUE ENCORAJAM TATUAGENS FARSOLAS DOS FÃS

Uma coisa mais de nicho, mas não menos importante do que as outras. É só passares pela página do Twitter de qualquer banda e vais ver um monte de retweets de fãs adolescentes sem noção a partilharem as suas novas tattoos. Essa criançada inocente vai a um estúdio qualquer que nem pede identidade e tatua alguma letra ou logotipo da banda, com as linhas a sangrar e cores a vazar por todo o lado. Há artistas que até publicam tweets: “Pessoal! Alguém aí tem tatuagens com as nossas músicas? Publiquem aqui que vamos partilhar! Significa muito para nós!”. Dois anos depois, descobrem que a banda estava a pedir nudes a meninas menores de idade ou foi filmada a dizer algo homofóbico e esses putos acabam com uma homenagem permanente a um pedófilo ou homofóbico.

Respeito adultos com tatuagens feias. Eu tenho tatuagens de adolescente que te dariam um aneurisma de vergonha alheia, por isso sei do que estou a falar. De certa forma, dão-te personalidade. Mas, de outra: é uma puta de uma vergonha. Sei lá que frase motivacional, um dano parcial ao meu corpo razoavelmente fixe, péssimas decisões. Uma cagada mesmo. Músicos, por favor, parem de encorajar os vossos fãs a fazerem tatuagens feias.

@hannahrosewens

LISTAS TIPO ESTA

2016 foi o primeiro ano que me lembro do presente ser referido como um tipo de piada interna. As pessoas diziam “isso é tão 2016” quando outra celebridade morria, ou “vai-te foder 2016” quando elegeram Donald Trump. Havia um monte de posts nas redes sociais do final de 2015 a querer “deixar este ano merdoso para trás”. Esta é uma nostalgia meio irónica de uma realidade mais benigna recente a que vamos voltar rapidamente. Afinal de contas, David Bowie ainda estava vivo em 2015. Mas, isso é um fatalismo perigoso.

Não houve nenhum ano da história recente em que tudo não estivesse uma merda – em que não tinhas que desperdiçar a tua vida num trabalho sem noção para ter acesso a necessidades básicas. Se queres um ano em que as coisas eram menos más no geral para algumas pessoas, seria 2007, antes da crise financeira, quando as imobiliárias enfiavam menos a faca e os políticos não tinha degradado tanto a rede de segurança social. E, mesmo esse conforto relativo, era construído num sistema que explorava toda a gente e já estava tombar para o outro lado do abismo.

Essa ideia de que podemos deixar coisas em 2018 é muito 2016. A nossa realidade podre reproduz-se num ciclo que precisa de ser quebrado por acção pensada, não por um desejo de começo de ano novo.

@simonchilds13


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