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Ouça '15 years of Noise', Coletânea do Selo do Anderson Noise

“Não entendo é como que o EDM, que é barulhento, tem fãs que falam mal de techno”.
Créditos: Divulgação.

Se você manja alguma coisa sobre techno, já ouviu o nome Anderson Noise por aí. Como um dos pais do gênero no Brasil, em seus 26 anos de carreira ele acumula grandes contribuições para a cena da música eletrônica nacional, como a criação da Radio Noise - emissora virtual que transmite programas semanais em 25 rádios de 14 países - e do selo Noise Music, que completa gloriosos 15 anos em 2014. A festa de debutante não poderia passar despercebida e, por isso, o produtor e DJ decidiu lançar uma coletânea comemorativa, chamada 15 Years of Noise, que conta com a participação de 34 artistas em 21 faixas inéditas. Entre os escolhidos para integrar o lançamento, o de número 60 pelo selo, estão Renato Cohen, Victor Ruiz, Velkro e Alex Stein.

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Como somos muito legais, disponibilizamos abaixo o streaming completo dessa relíquia do techno, que você pode comprar aqui. Aproveitei o momento para conversar com o Anderson por Skype e, além de descobrir que ele tem um filho quase da minha idade, ser chamada de gatinha e discutir sobre a necessidade da intervenção do público no line-up de grandes festivais, fiz algumas perguntas sobre o selo, EDM e sobre as próximas festas de comemoração dos 15 anos de muito Noise. Se liga:

THUMP: O selo Noise Music ganha sua festa de debutante este ano, com direito a coletânea comemorativa repleta de nomes importantes da cena eletrônica. Nesse contexto, você se coloca mais como o próprio aniversariante ou como pai orgulhoso?
Anderson Noise: Eu acho que se eu me colocasse sempre como aniversariante, teria muitos aniversários. Da rádio, do label, da minha carreira… Esse ano fiz 26 anos de carreira, 15 como DJ, 12 de rádio. Essa é a semana 608 da rádio, inclusive, toda semana tem um programa. Se não é meu, é de convidado. Acho que sou um pai orgulhoso.

Como você consegue fazer isso tudo?
Às vezes eu me pergunto isso também. Tem que ter muita boa vontade.

Como foi o processo de seleção dos artistas e das tracks que compõem o álbum?
Esse álbum ficou mais brasileiro. Eu acho que nos últimos cinco anos eu comecei a trazer o selo mais pro Brasil, antes tinha muito artista internacional. Nessa compilação eu priorizei mesmo os artistas brasileiros, mas entraram os japoneses do Techriders e o italiano Davide Marchesiello. Entraram porque, além de serem artistas do selo, as tracks são boas, eu gostei e falei: "meu, vamo que vamo". A seleção dos brasileiros foi muito pela disponibilidade também. Teve um atrasinho de um mês, mas foi legal porque todos os artistas que eu chamei aceitaram. Fiquei bem satisfeito com o resultado final, são todas faixas inéditas. Comecei a conversar com as pessoas e a articular as coisas em novembro, mas foi em janeiro, depois da virada do ano, que eu passei a me dedicar em tempo total. Aconteceram dois lançamentos enquanto eu estava trabalhando em cima da coletânea, então fiquei um pouco nessa confusão de dividir o tempo.

O primeiro lançamento do Noise foi em 1999, no formato vinil. Atualmente a liberação e venda dos álbuns é feita pela internet e no formato MP3 e WAV, certo? Você se considera um saudosista em relação a esse processo ou se adaptou perfeitamente?
Os lançamentos são feitos da seguinte forma, atualmente: seleção de música; depois mando pro Kako, do Kakofoni, ele é quem faz a arte pra mim. Aí passo para a distribuidora, que manda o projeto pra mais de 70 lojas online do planeta, das grandes às pequenas. Pra mim, o ponto alto da label era a época do vinil. Era uma época em que não era qualquer selo que poderia fazer uma lançamento, tinha que ter toda uma estrutura por trás. Hoje qualquer pessoa faz uma música em casa, com esse tanto de programa que tem. É muito fácil fazer um lançamento em digital, tem gente que nem bota numa gravadora, numa loja, mas faz tanto barulho no Soundcloud, no Facebook, que chama a atenção. Até o tempo que se demorava pra fazer o vinil era muito prazeroso, porque eu venho de uma época em que era vinil ou tape deck, então não dava pra copiar uma música e tocar ela com a mesma pressão que ela tinha no vinil, né, tocar com a fita cassete. Hoje todo mundo copia. E o processo de promoção, também, era algo mais exclusivo. Você tinha que mandar aquele vinil pro DJ, o que custava dinheiro e tempo pra fazer. Hoje a gente dá risada, você termina uma música, bota ela na internet, é tudo muito imediato. Mas antes era assim, um DJ tinha aquela música. Vou escutar esse cara porque ele toca esse som. Hoje acabou, não tem mais isso. Voltando a sua pergunta, eu tenho saudades sim da época do vinil, era uma época de verdade. Hoje a cena, essa coisa de DJ, é um pouco de mentira. Porque o computador faz tudo, o cara não precisa entender tanto ou esperar tanto tempo pra pessoa se assumir como DJ, como produtor. É o que todo mundo quer ser hoje e, olhando por cima, fica um pouco desvalorizado.

Você se deixou influenciar por alguma nova vertente da música eletrônica para incrementar o gênero techno, ao qual você se mantém fiel? O EDM e o trap, por exemplo, estão atraindo muitos fãs ultimamente. Existe alguma característica desses estilos que você pensaria em adaptar para o seu próprio?
Ah, acho que não tem nada a ver com meu trabalho. A única coisa que eu não entendo é como que o EDM, que é barulhento, tem fãs que falam mal de techno. EDM é muito barulhento. Toda vez que eu escuto essa música tenho a sensação de que estou num parque com um sorvete na mão e sabe aquela roda gigante com o som ligado? É a sensação que eu tenho, é igualzinho a música de parque, só que mais barulhento. Não consigo entender…

O Noise Music Showcase é uma festa de comemoração do selo que contará com várias edições, sendo que a primeira, em BH, já foi um sucesso. O que você está preparando para as próximas? Você pretende manter as edições em Minas ou podemos esperar alguma edição em SP ou RJ também?
Esse projeto veio pra ser uma comemoração, mas o que estou vendo é que pode ser - o que eu acho que vai ser mesmo - é que vão ser festas que vão rodar e acontecer por mais tempo aí. Acho que tá aberto pra acontecer em qualquer lugar do mundo, a qualquer hora, então não tem uma vida útil não. Até agora a gente tem marcado só BH, mas estamos tentando ver outros lugares. A ideia é fazer os eventos para levar esses artistas que estão contribuindo para o crescimento do Noise Music. Estou sem tempo para dialogar diretamente com SP ou RJ, mas acho que vai acabar rolando naturalmente. Existe um pouco de bloqueio de algumas casas, por ser uma festa de artistas só do label, às vezes eles pedem por algo mais comercial. Ele tem total direito de escolher e eu também tenho, então fica mais difícil de viabilizar.