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Edição Papel Para Bunda

Cafofos de Conflito

As histórias que cubro podem ser tão extraordinárias quanto aterrorizantes, mas a pergunta que mais ouço é: "Onde você dorme quando vai para esses lugares?".
6.1.12

Hotel Japan

Como jornalista freelancer especializado em Oriente Médio e Ásia Central, é comum passar por situações do tipo: “Caralho, quase caguei nas calças, eu poderia ter morrido”. As histórias que cubro podem ser tão extraordinárias quanto aterrorizantes, mas a pergunta que mais ouço é: “Onde você dorme quando vai para esses lugares?”. Na maior serenidade eu respondo: “No Motel 6, se encontrar algum. Senão, me dou ao luxo de ficar no La Quinta”. Se a pessoa me olhar com cara de que não entendeu, provavelmente quer dizer que não estou lidando com um babaca, então digo que estou brincando e conto sobre alguns lugares em que já fiquei durante minhas viagens por regiões de conflito. HOTEL JAPAN
Quetta, Paquistão ($ 8 pernoite, peixe tropical incluso)

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O Japan é meu hotel preferido no mundo. No check-in, Muhammad, o atendente, informou que se eu fizesse a reserva para a semana toda poderia ficar no “quarto com os peixes”. Foi bacana, até eu perceber que ele teria de entrar todo dia no meu quarto às sete da manhã para alimentá-los.

Quetta fica perto da fronteira entre Afeganistão e Paquistão, em uma área onde o governo de Islamabad proibiu a entrada de jornalistas e que, pelo que dizem, é lar de Mullah Omar, atual líder caolho do Talibã. A cidade também é um caldo cultural pútrido de sunitas, baluches marxistas, guerreiros xiitas e punjabis cristãos, e todos se odeiam. Durante o dia, é razoavelmente tranquila, mas de noite é normal escutar três tiros na sequência: dois disparos na cabeça e um no peito. No dia seguinte, durante o café da manhã com chá verde e sopa de lentilha, a conversa geralmente é assim: “Ontem mataram o Muhammad sei lá das quantas, chefe tribal dos sei lá o quê”. Essa normalmente é a minha deixa para vazar e tentar entrevistar o próximo Muhammad da minha lista antes que ele leve uns tiros.

Hotel Sabeel HOTEL SABEEL
Bagdá, Iraque ($50 pernoite pago com antecedência, café da manhã e wi-fi inclusos)

Embora Bagdá ainda esteja longe de ser a área mais segura do Iraque, o risco de ser sequestrado diminuiu nos últimos dois anos. Com isso em mente, em fevereiro passei algumas noites no Sabeel, confiante de que eu não morreria. Bagdá pode não ser tão perigosa quanto já foi, mas acho que a cidade nunca vai conseguir superar o baixo astral da foto daquela soldado apontando o dedo como se fosse uma arma para as genitais de prisioneiros nus com sacos enfiados na cabeça.

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Assim como em Quetta, você é acordado por tiroteios durante a noite e eles podem significar qualquer coisa, desde homicídio “seletivo” até a polícia usando métodos improvisados de controle de pragas para conter a população de cachorros de rua. As coisas não vão voltar ao normal tão cedo por aqui. Um sinal disso é o fato de os jornalistas ainda serem aconselhados a mudar de hotel com frequência para evitar serem alvos de sequestradores.

Casa de hóspedes do governador da província de Helmand

CASA DE HÓSPEDES DO GOVERNADOR DA PROVÍNCIA DE HELMAND
Lashkar Gah, Afeganistão ($50 pernoite, café da manhã e jantar inclusos)

O melhor de ficar aqui é que o governador da província mais fodida do país está, literalmente, no quarto ao lado. Isso faz com que seja bem fácil conseguir uma entrevista com ele. A desvantagem é que ele é um dos principais alvos do Talibã. Pelo menos os hóspedes ficam no subsolo, o que diminui as chances de você ser morto por um ataque de morteiro.

Há uma quantidade significativamente menor de tropas no Afeganistão hoje em dia. Os canadenses foram os últimos a sair e a coalizão passou o controle de Lashkar Gah, capital da província de Helmand, para o exército afegão. E conforme a OTAN se retira, o Talibã retorna e os fazendeiros voltam a criar campos enormes de papoulas. Em outras palavras, acabou o horário de visitas. Estou planejando uma última visita antes que os fundamentalistas voltem e fechem o país para o mundo por mais uma década.

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Hotel Mustafa

HOTEL MUSTAFA
Cabul, Afeganistão (US$20 pernoite)

Até que a imprensa seja expulsa do Afeganistão, continuarei me hospedando nesse hotel lendário. Tem uma familiaridade reconfortante nas janelas fechadas com barras e nas portas de ferro trancadas a cadeado. Ele é até recomendado pela Lonely Planet – pelo menos segundo uma placa na entrada. Localizado no centro, fica a poucos metros da Rua da Galinha, onde você pode passar horas olhando para suvenires afegãos, como burcas, tapetes com motivos de RPG, Kalashnikovs e relógios digitais russos dos anos 80.

Antiga residência VIP de Gadaffi

ANTIGA RESIDÊNCIA DE GADAFFI
Nalut, Líbia (grátis com tudo incluso)

OK, não tinha água nem luz nesse lugar e fui acordado a noite inteira por lançamentos de foguetes, mas como eu poderia deixar passar a oportunidade de dormir em uma cama em formato de galeão? De todos os insurgentes do mundo, os rebeldes líbios ganham nota dez pela hospitalidade com jornalistas estrangeiros – talvez para refutar toda a propaganda que o Gaddafi fez dizendo que são todos da Al-Qaeda e/ou viciados em drogas. Ainda assim foi estranho ser o único hóspede em um prédio originalmente projetado para acomodar até 500 amigos do regime de Gaddafi. Depois de duas noites de solidão interplanetária fui para a Central da Imprensa de Nalut, onde dormi aconchegado com os escombros de foguetes Grad e Katyusha lançados nas semanas anteriores. E tinha acesso à internet por satélite de graça. Boa, rebeldes líbios!

Eclectica Hotel

ECLECTICA HOTEL
Vanq, República do Nagorno-Karabakh (gratuito para estrangeiros)

Por um custo relativamente baixo e praticamente nenhum risco, não tão é ruim visitar um dos “conflitos congelados” do leste europeu. Os visitantes ainda ganham um carimbo de visto no passaporte de uma nação que oficialmente não existe. Depois do colapso da União Soviética, dezenas de países novos brotaram na Eurásia. Alguns são semi-oficiais (a Abecásia, por exemplo, é reconhecida pela Rússia, Nicarágua, Venezuela e pelas ilhazinhas Vanuatu e Nauru, do Pacífico) e outros, como Nagorno-Karabakh, são ignorados por todo mundo.