Como é ser o artista de rua mais amado e odiado do centro de São Paulo
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Como é ser o artista de rua mais amado e odiado do centro de São Paulo

Com vocês, Faísca, o enrolador de multidões e atravessador de facas de bom coração.
27 July 2016, 10:00am

Não se surpreenda se você, um curioso nas ruas do centro de São Paulo, trombar com uma aglomeração de pessoas intrigadas com um homem pequeno e descabelado com pinta de maluco. "Eu vou saltar minha gente, é o puuuulo do Tiiiiiiigre Selvageeeem!!!", ele berra, forçando uma voz desafinada e diante de um tripé com um aro cercado por treze afiadas facas de cozinha e um facão de cortar cana.

O Tigre mostra as garras. Foto: Guilherme Santana/VICE

Faísca, o Tigre Selvagem, faz careta, esboça uma pose de fisiculturista e diz que está possuído. Ele se abaixa como um corredor esperando o tiro de largada. Sem camisa, descalço e vestindo apenas a calça jeans surrada, as cicatrizes nas costas indicam que a ação é arriscada.

O povo curioso. Foto: Guilherme Santana/VICE

Ele está colado na multidão, prestes a saltar no meio do aro e o pequeno vão entre as facas quando, de repente, toma um susto e se levanta. "Assim não dá, minha gente! Você apertou a minha bunda, homem?". O homem da plateia, confuso e de braços cruzados, responde que não. As pessoas começam a xingar e exigir. "Pula, porra! Tô esperando faz meia hora!", diz um engravatado. "Pula, seu mentiroso!", resmunga a quarentona. "Vai! Eu tenho que ir trabalhar e já dei dois reais!", protesta o motoboy, seguido por dezenas de pessoas entre a raiva e as risadas.

Muito força nessas horas. Foto: Guilherme Santana/VICE

"O cara apertou a minha bunda, pô! Agora perdi a concentração", rebate o Faísca, debaixo de novos xingamentos. "Vamo povo! Todo mundo quer ver eu me estrebuchar, mas valorizar a arte de rua ninguém quer, né?", ele aponta para o saquinho de arrecadação. Algumas pessoas se convencem e jogam desleixadamente moedas pelo chão.

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O dia de trabalho de João do Espírito Santo Lima — "Eu pulo como um Tigre, sou rápido como uma Faísca" — começa cedo, às 7h da manhã. Ele, a esposa Miraneide e os cinco filhos vivem em um quartinho de cortiço de 11m², com paredes azuis desbotadas e alguns poucos pertences. "Aqui no bairro é bem tranquilo e não tem nada desses problemas da cidade", ironiza o Faísca sobre seu endereço na Rua Helvetia, mais conhecida no jargão popular como Rua da Cracolândia.

Faísca e seus meninos. Foto: Guilherme Santana

Ainda um tanto sonolentos, Faísca, Miraneide e Pajé (nome artístico do filho de 12 anos que pretende seguir os rumos do pai) saem em direção aos logradouros mais movimentados da região central, enquanto as outras crianças ficam entre a escola e a creche.

"Que horas são?", pergunta o Faísca para Miraneide. "Quase oito", responde a esposa. "Então vamos pra Rua Barão de Itapetininga, que lá tá com sombra agora", replica o marido, bastante conhecedor daquelas bandas da cidade.

Do menor pro maior: Pajé, Miraneide e Faísca. Foto: Guilherme Santana/VICE

Chegando ao local, Pajé começa a fazer piruetas, plantar bananeira e gingar capoeira, já chamando a atenção dos transeuntes. Enquanto isso, o pai do pequeno menino com rosto de índio e longo cabelo preto monta o aro no tripé e começa a arrumar o espetáculo.

Manda muito nas piruetas. Foto: Guilherme Santana/VICE

Quando Faísca pega as facas e o facão de cortar cana, e começa a encaixá-los no aro, pronto, já está formada uma aglomeração de pessoas. "Ele vai mesmo pular no meio disso?", pergunta uma mãe, aflita, com o bebê no colo.

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Marcas do ofício. Foto: Guilherme Santana/VICE

Já passou pouco mais de uma hora. Muitos que deixaram — ou não — algum trocado foram embora, vencidos pela impaciência. Mas, para cada pessoa que parte, a roda parece ganhar mais um ou dois curiosos em seu lugar. E o show do Tigre Selvagem prossegue.

Para segurar os ânimos, não basta ficar só de conversa fiada. Mas Faísca é ligeiro e tem as cartas na manga. "Olha só, meu povo, vou ensinar como lustrar o nariz, a garganta e a boca em uma só tacada", ele anuncia, tirando do bolso da calça uma longa tira de saco plástico. A galera parece não estar muito empolgada. Faísca percebe e logo enfia a ponta da sacola na narina. Ele inspira o ar com força e a ponta some, passa pela traqueia e a sacola sai pela boca. Pasmo geral. "Ai, que nojeira!", reclama a loira platinada, destoando dos que aplaudem a façanha.

O fã do Bob curtiu. Foto: Guilherme Santana/VICE

Em seguida, após dar mais uma enrolada entre a anedota e o besteirol, ele tira um coco da mala. "Agora, é o teste pra ver se estou bem da cabeça!", grita. Faísca coloca o coco no chão e começa a dar cabeçadas no fruto duro feito um tronco.

Cerca de dez cabeçadas depois, que parecem não surtir efeito, Faísca fica de pé, segura o coco com as mãos e o esforço continua. A tarefa é difícil, cansativa. Ele pausa alguns segundos, respira profundamente e grita "agora vai!!!". Com mais algumas pancadas, o coco quebra. Faísca, com a testa avermelhada, parece feliz com o resultado, e as pessoas também, mas, após a admiração inicial, as reclamações voltam.

Quebra-coco. Foto: Guilherme Santana/VICE

"Pula desgraçado! Pula! A gente não tá aqui pra ver você quebrar a cabeça!", exclama um homem alto e largo como um armário. "E eu só vou pagar depois que você pular! Como vou dar dinheiro por algo que eu não vi?", argumenta uma mulher baixa. "Então você quer que eu morra primeiro, pra receber depois?", retruca o artista de rua mais amado e odiado do centro de São Paulo. "Eita morte barata", ele lamenta, apontando para as moedas que já acumulou. "Olha, não dá pra comprar o caixão, mas isso aqui já ajuda", corresponde um senhor de idade, entregando uma nota de R$5. "Muito obrigado", responde Faísca, com sinceridade.

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Criado ao lado de sete irmãos na pequena cidade de Araguaína, no Tocantins, João ainda era criança quando decidiu que seria artista de rua. "Minha infância foi divertida. Meu negócio era pular. Pulava das construções, das árvores, dos postes, de tudo o que aparecia na minha frente. Eu também adorava um programa do Guinness Book que passava na TV, com os caras fazendo um monte de proezas e quebrando recordes, e aquilo me inspirou a ser o que eu sou hoje", relembra o artista.

O aprendizado era na base da observação. Tudo bem de rua. Um dia, ele viu na praça um homem enfiando objetos no nariz e tirando pela boca. João logo pegou um grão de feijão e fez o mesmo. Quando chegava algum artista de rua, ele corria atrás. Assim, aprendeu trapézio, como mastigar vidro e outros números. Com os bons malandros, conheceu a capoeira. Quando tinha rodeio, logo arranjava um trabalho de palhaço que distrai o touro. O tempo passava e o leque de habilidades só crescia, mas o que surpreendeu mesmo o moleque João foi um pessoal da Bahia que apareceu certa vez na cidade.

"Eu nunca tinha visto nada igual. Aqueles caras saltavam por entre as facas! Juntava um monte de gente! Achava o máximo", diz, com empolgação. "Comecei com facas de plástico, mas o povo não animava comigo e os baianos começaram a caçoar de mim. Aí eu falei: 'brevemente vocês vão ver que eu não vou ter adversário." Então, ele dedicou-se aos treinos, dessa vez usando facas de verdade. Quando ganhou confiança, ressurgiu trazendo uma inovação: o facão de cortar cana no meio do aro, que diminuiu em menos da metade o espaço da travessia, findando, de fato, a concorrência.

Instrumentos de trabalho. Foto: Guilherme Santana/VICE

Quando atinou na arte de pular facas, João adotou seu nome de rua: Faísca, O Tigre Selvagem. Ganhou público e fama em Araguaína. "Aos 12 anos de idade, eu já era profissional", afirma. Pouco tempo depois, a cidade ficou pequena pra ele. "Um dia, falei lá em casa que ia dar uma volta. Voltei dois anos depois. Minha família ficou bem brava, me chamou de louco. Mas passei só pra dar um oi e cair na estrada de novo", explica Faísca.

Virou mochileiro. Foi de norte a sul, de leste a oeste pelo Brasil. De praxe, as roubadas aconteciam. No Pará, foi interrogado na delegacia por causa de um padre que se sentiu ofendido com "o sujeito que falava do demônio e queria saltar um circulo cheio de facas na frente da igreja". Em outra ocasião, após enrolar o povo por muito tempo, um homem o imobilizou com força: "Vamos linchar esse desgraçado! Ele pegou nosso dinheiro e não vai pular!". Já nas cidades do interior, onde os circos ainda são tradição, Faísca viajou com diversas trupes, onde fazia de tudo, até número de enterrado vivo. "Mas no circo eu não me adaptei. Gosto mesmo é da profissão de pular na rua... pular como um Tigre, rápido como uma Faísca".

Faz-me-rir. Foto: Guilherme Santana/VICE

São Paulo era a meta. Público numeroso, ruas fartas, alta circulação de grana, era o que pensava o Tigre Selvagem. Mas, ao chegar na maior metrópole da América Latina, a realidade foi outra. "Nas cidades pequenas, a plateia é menor, mas não é mão de vaca. Eles valorizam quando um artista de rua aparece", observa Faísca. "Já em São Paulo, o pessoal tem a cobra no bolso, porque todo dia vem artista do mundo todo, e assim o povo enjoa fácil."

Entre saltos e riscos, Faísca, afinal, ganhava pouco até para as despesas mais básicas. O jeito foi morar no próprio ambiente de trabalho. "De dia, eu era artista de rua, de noite, eu morava na rua. Já dormi na Av. Paulista, no Viaduto do Chá e num monte de lugar tranqueira". Ele segurava a bronca. Afinal, fazia o que sempre quis. "Pra mim, a melhor parte sempre foi ver o povo sorrir. Mas, depois, percebi que não era só pular as facas; isso nem é tão difícil. O segredo é segurar as pessoas. Quanto mais risada, mais elas ficam e mais dinheiro elas dão". Após aquela temporada em São Paulo, Faísca voltou pra estrada. Foi ganhar experiência e anos depois iria retornar — dessa vez, acompanhado.

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Um jovem de cabelo tingido de vermelho, e que se identifica como punk, está bravo. "Pô cara, eu só queria ver ele varar as facas, só que vai fazer duas horas que o filho da p%#$ tá falando que vai saltar. Agora, vou ficar até o final só torcendo pra ele se machucar inteirinho. Juro, quero ver sangue!", ele diz, sentado no chão com uma cerveja na mão.

Não demora e Faísca prepara a próxima surpresa. Ele se aproxima do aro e começa a remover as facas. "Porra, tá tirando porquê? Você não disse que ia saltar?!", grita o jovem sanguinário. No embalo, a galera ao redor também xinga, ameaça. Antes que alguém parta pra cima, um aviso: "vou cumprir a promessa minha gente! Mas quero mostrar o que dá pra fazer com uma faca. Recomendo que quem estiver com criança, que cubra os olhos dela".

O povo se acalma. Ninguém tapa os olhos dos menores, achando que é balela. Faísca pega uma das facas e, devagarinho, enfia dentro do nariz a lâmina inteirinha. Tem gente que vira o rosto, alguns ficam boquiabertos. O faquir (a quase extinta profissão dos que vivem às custas da auto-tortura) enfia outra faca no nariz, dessa vez bem rápido. Depois enfia outra. E mais uma. E lá vai a quinta faca. E não para. Termina com sete laminas de 11cm cada em direção ao cérebro. É mais punk que o punk. "Caralho! Isso foi sinistro!", o cabeleira vermelha arregala os olhos, dando um longo gole de cerveja. Moedas e mais moedas são jogadas no chão.

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Tá suave. Foto: Guilherme Santana/VICE

Novamente na estrada, Faísca fez muitos amigos, gente que oferecia casa e mesa para o artista. A mais importante dessas pessoas ele conheceu no município de Tailândia, no Pará. Na verdade, foi Miraneide que quis atrair o inusitado homem que quebrou a rotina do lugarejo. "A primeira vez que vi o Faísca foi numa apresentação em um colégio. Ele me conquistou na base da risada, foi amor à primeira vista, e eu que fui atrás dele", assegura a esposa. "Ele disse que iria cuidar de mim e da minha filha do meu primeiro casamento e, desde então, estamos juntos há 14 anos".

Ao lado da companheira, Faísca seguiu viagem e, quatro filhos depois, uma nova trupe estava formada. Com as crianças crescidas, criaram o circo próprio. Era chegar no lugar, estacar as varas, erguer a lona e anunciar pro povo. Cada dia, uma cidade diferente. Pra somar no espetáculo, às vezes, Faísca até encontrava seu irmão de sangue, o Fumaça, também artista itinerante e de habilidades ímpares.

Após passar por diversos lugares, a família estacionou, enfim, em São Paulo. As coisas foram melhores dessa vez e Faísca já tinha o formato ideal para as apresentações: piadas, provocações, flagelos e, por último, o maldito gran finale. O povo ficava bastante tempo, soltava mais dinheiro e ele arranjou um teto para a família.

Conforme a esposa, na cidade grande, a responsabilidade com os filhos ficou maior. "Dentro de casa ele é todo brincalhão, mas também é o carrasco. Dá bronca em mim, dá bronca nas crianças, mas é porque ele se preocupa com a gente", explica Miraneide. "Ele é um homem muito trabalhador e otimista. Nunca deixou faltar comida e, quando promete algo, faz de tudo pra cumprir".

Jovem aprendiz do faquirismo. Foto: Guilherme Santana/VICE

As crias piram nas aptidões do pai, e sobre o filho mais velho seguir na carreira de pulador, Miraneide é diplomática. "Eu queria que o Pajé fizesse outra coisa da vida. Mas, se essa for a vontade dele, vou apoiar, até porque o Pajé leva jeito. Ele já faz o pulo de facas, só não se apresenta ainda porque é menor de idade". E reclamação do marido, Miraneide só tem uma mesmo: "É que eu fico irritada porque ele demora muito pra saltar. E eu tenho que ficar lá segurando a lateral do círculo; o braço dói. Mas de resto, somos uma família feliz. Enquanto estivermos juntos, estamos bem. Ao menos, alegria nunca faltou pra nós", conclui.

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Fumaça, que estava de passagem por São Paulo, veio dar um confere no show do irmão. Faísca aproveitou a visita e tirou uma corda de muitos metros da mala. "Gente, esse é o meu irmão, Fumaça. Ele também enfia faca no nariz, come equipamentos eletrônicos e faz um monte de coisa maluca. Mas agora vai mostrar que também é escapista", alardeia. "Preciso de alguns voluntários para amarrarem o Fumaça, e ele vai sair em menos de 10 minutos sem usar as mãos. Se ele não conseguir, devolvo o dinheiro de todos", arremata o irmão sacana.

O Fumaça ficou tranquilão. *Foto: Guilherme Santana/VICE

Vários marmanjos se apresentam. Faísca escolhe três homens fortes, seguro de que Fumaça não vai por em risco a grana suada. Após dez minutos e dezenas de laços e nós, Fumaça está apertado do pescoço aos pés. "Valendo!", grita Faísca. Fumaça começa a rebolar. Requebra, se remexe todo. Ele não pode usar as mãos. O povo fica estasiado, achando que vai ganhar. Apesar do cansaço da dança do escapista, o primeiro laço se solta. A cintura vai trabalhando. Outro laço cai. A corda vai afrouxando e, ao final de oito minutos, Fumaça está livre, fácil-fácil; a plateia, frustrada mas rindo; e os três homens fortes, desmoralizados. Tudo não passava de mais uma tática pra ganhar tempo. O ato rende mais alguns trocados.

O Tigre de olho na onça. Foto: Guilherme Santana/VICE

"Tá, já deu! Até eu que parei pra vender água pro povo já tô de saco cheio! Pula logo, meu!", exclama um mascate. "Vai! Pula!", a morena. "Para de enrolar!", o oriental. "Seu cafajeste!", a mãe com dois filhos. "Olha aqui! Se você for macho mesmo, tá aqui R$50 pra você pular agora! Quero ver! Aposto que você não tem coragem", instiga um homem segurando a nota atrás do círculo de facas. Faísca fica atiçado, molha o beiço e puxa dois sujeitos ao lado: "Ei vocês, vêm cá, rápido, segurem o aro pra mim!". Cada um segura o aro de um lado, e o tripé faz o apoio por baixo. O homem da nota demonstra receio, mas mantém a pose. O Tigre Selvagem se abaixa, está com os olhos fixos na onça pintada. Todo mundo fica quieto, parece que agora vai!...vai!!...vai!!!...Mas não vai, porque, do nada, dois homens-placa que estavam ali começam a trocar socos e pontapés, interrompendo o espetáculo. (O apostador guarda o dinheiro e sai, de mansinho).

Rolou até porrada. Foto: Guilherme Santana/VICE

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Entre os espectadores que aguardam o fim do duelo dos homens-placa, está Rogério Evangelista, um senhor bem apessoado de 57 anos, loiro, olhos verdes. Atuando como auxiliador dos artistas de rua da região, ele costuma armar algumas temporadas em outras cidades para o pulador de facas. Funciona assim: Rogério planeja viagens para cantores de pequenos públicos de sertanejo, cobrando a sua parte, mas aproveita e leva o Faísca de graça, na camaradagem.

"Há cinco anos eu vi o Faísca pela primeira vez e percebi um talento logo de cara. O salto que ele faz é inédito no Brasil por causa do facão grande. Mas, de vez em quando, é bom ele passar algumas semanas fora, porque aqui em São Paulo já está ficando manjado", admite Rogério, que ultimamente levou a atração para o Rio de Janeiro e Minas Gerais junto com um tal de Alemão do Forró.

Enquanto esperava para encontrar um cantor das redondezas, Rogério estava prestigiando o amigo de viagens. "Eu sou fã do Faísca, e não só pelo fato dele arriscar a própria vida pelo seu ofício", diz Rogério. "Ele mora em condições muito humildes e, mesmo tendo pouca coisa, ajuda as pessoas. Volta e meia, o Faísca vê um artista de rua, pega um pouco do dinheirinho que ganhou, e colabora com os caras. Às vezes, quando vê uma pessoa que mora na rua, ele faz a mesma coisa. Com o tempo, descobri nele uma grande pessoa."

No meio do povo também estava o mágico Marcos Rodrigues, que aguardava o fim do show do Faísca para se apresentar naquele mesmo lugar. Atuando há quatro anos nas ruas, Marcos vê no Tigre Selvagem uma referência e tanto na área do entretenimento popular. "O Faísca é um cara que dá a alma pelo seu trabalho", observa. "Ele é um ótimo artista porque tem o feeling de enrolar o povo até o último instante e ganhar dinheiro suficiente para o salto valer a pena. É muita técnica, é muita sabedoria e muita sintonia", observa o ilusionista, sem antes estender a voz: "Pula, Faísca!!!". Faísca olha e dá risada, enquanto reagrupa as pessoas com o fim da briga dos homens-placa. (Deu empate e não houve grandes feridas).

***

Duas horas atrás ele disse que iria saltar entre as treze facas de cozinha e o facão de cortar cana. Da plateia inicial, resta apenas um casal de silenciosos moradores de rua, o garoto punk e um punhado de gente insistente ao lado dos curiosos que chegaram depois. Faísca já quase rachou o crânio, lustrou a garganta, chegou perto de se auto infligir uma hemorragia interna e depois aprisionou o irmão. Agora, não há mais subterfúgios. Tem gente xingando como nunca. "Mentiroso!". "Falastrão!". "Pinóquio!". "Impostor!". "Cuzão!", daí por diante. "Vocês ficam me injuriando, mas aposto que é só eu saltar que todo mundo vai embora e não tá nem aí", responde o alvo.

Faísca, vendo-se cercado de gente brava, conta discretamente o dinheiro acumulado. Arqueia as pestanas. Tem o feeling: "Muito bem, meu povo! Queria agradecer a paciência e a presença de todos vocês! Peço desculpas pelas brincadeiras e se ofendi alguém. Mas esse é o meu ganha pão e a minha arte, então não posso sair daqui de mão abanando e nem enganando vocês! Agradeço quem contribuiu e também quem não contribuiu mas se divertiu. E chega de enrolação. Agora vai!!! É o puuuulo do Tiiiiigre Selvageeeeem, minha gente!!!". A galera comemora.

Preparar... Foto: Guilherme Santana

O artista faz muque, faz careta, puxa um alongamento rápido, estrala o pescoço, balança as pernas e solta um catarro no chão. A multidão incentiva. Alguém puxa o coro e alguns cantam em conjunto: "Pulaaa!!! Pulaaa!!! Pula..."

Faísca se abaixa. Pajé ali no canto, olho atento. Miraneide e um voluntário estão segurando as laterais do circulo de facas. Seu olhar está concentrado, os músculos do corpo tensionados. Ele grita de novo: "Vamo galera!!! Quero todo mundo incentivando!!!", e bate com as mãos no chão. "Pulaaa!!! Pulaaa!!! Pula...", continuam. Faísca está na adrenalina. Fica num vai não vai. Vai não vai. Vai não vai, quando, de súbito, sai correndo na direção do famigerado círculo de facas.

Os passos são largos, precisos e contados, estilo João do Pulo. O último passo é um grande impulso, há cerca de um metro de distância das facas. O silêncio baixa no ambiente. O Tigre Selvagem estica os braços, junta as pernas, resguarda o rosto. Decolou e parece uma flecha no ar. A cabeça passa primeiro, quase de raspão entre as facas. O torço despido vem depois, preenchendo milimetricamente todo o vão. As pernas, por último, seguem em um movimento suave. Faísca mergulha na pedra portuguesa como se não fosse nada e dá uma cambalhota pra amortecer a queda. Sai sem nenhum arranhão. Foi tudo tão rápido que até parece ilusão.

Aleluia. *Foto: Guilherme Santana/VICE

Ele levanta com um sorriso de ponta a ponta. O povo comemora, festeja. Faísca fala consigo mesmo: "Caramba, essa foi perfeita...". Sai no meio das pessoas enfiando as facas no nariz, pra ver se rende uns trocados finais.

E agora? Vai fazer o que, Faísca? "Agora vou passar no mercado pra comprar a comida das crianças e levar pra casa" ele responde, ofegante e ainda com algumas facas no nariz. "Mas amanhã tô na rua de novo, depois de amanhã também, no dia seguinte vou fazer a mesma coisa e por aí vai, ganhando um dinheirinho aqui, outro ali... Tô sempre dando os meus pulos, né?". Mas ele mal termina a declaração quando percebe que, ao redor, já não havia plateia. Todos foram embora, assim, ligeiros como um tigre, rápidos como uma faísca. A rua volta a ser o que era antes: apenas um lugar de passagem. E no caminho de casa, ele também volta a ser o João, apenas mais um nome comum no meio da populaça.

Foto: Guilherme Santana/VICE

*Esta matéria é sobre um dia de trabalho do artista João do Espírito Santo, o Faísca, mas algumas das fotos foram feitas pelo repórter em outros dias e locais.

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