O "Pesadelo da Imigração" na Inglaterra Só É um Pesadelo Para os Imigrantes
A Lei de Imigração quer dificultar a vida de pessoas que moram ilegalmente no Reino Unido e quer que o mundo inteiro pense duas vezes antes de desfrutar das doces liberdades britânicas.
Uma oficial do UKBA (UK Border Agency) numa batida em propriedades alugadas ilegalmente em Newham. (Foto por Natalie Olah).Theresa May diz que quer fazer da Inglaterra um “ambiente hostil” para imigrantes ilegais. Ela quer “dificultar” a vida de pessoas que moram ilegalmente no país e quer que o mundo inteiro saiba que se você quer vir desfrutar de todas as doces liberdades britânicas, é melhor pensar se vale mesmo a pena.
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Falando francamente, a Lei de Imigração de May foi criada para ser um enorme chute no saco. Se realmente for aprovada, a legislação vai exigir que as pessoas passem por verificações de imigração antes de conseguir um emprego, alugar um apartamento ou ter acesso à saúde pública. Os advogados de imigração criticam a iniciativa, afirmando que isso vai tornar a vida de todo mundo um grande inferno burocrático. Maior ainda para os imigrantes, claro.“A Lei de Imigração é outro ataque às famílias que vivem no Reino Unido há anos”, disse o grupo Detention Action. “Eles já perderam o direito a um advogado quando o governo decidiu que eles não tinham mais o direito de viver aqui. Agora, eles serão deportados antes mesmo de ter a chance de explicar que têm filhos e companheiros britânicos e que vivem aqui há anos ou décadas. Famílias serão separadas sem direito a julgamento.”Alguns meses atrás, escrevi sobre o tuíte “não há lugar para se esconder” do Ministério do Interior, que foi o começo de uma escalada da retórica anti-imigração. Desde então, passei algum tempo com ex-requerentes de asilo e uma pessoa atualmente detida, Laurent,* uma pessoa que está detida atualmente e que competiu pela Guiné nas Olimpíadas de 2012. Depois de se envolver numa briga com o chefe da federação olímpica, ele e o resto do time da Guiné receberam a notícia de que seriam presos se voltassem a seu país. “Não sou só eu, todos nós seremos presos. Eles vão fazer algo ruim comigo. Com certeza — 100%… Os britânicos não entendem isso”, ele diz.
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As autoridades disseram que Laurent passaria rapidamente pelo sistema, mas ele está no centro de detenção desde que as Olimpíadas acabaram em agosto do ano passado. Agora, apesar de dizer que tenta manter a cabeça baixa, ele testemunha brigas e sofre provocações regularmente por causa de seu status como atleta olímpico. E a situação dele dificilmente vai mudar, já que o desespero e a incerteza que ele sente na detenção são espelhados na Guiné — o país não é mais controlado por um regime militar, mas tensões sectárias e revoltas políticas continuam. Laurent diz que gostaria de voltar a seu país, mas está convencido de que o governo vai colocá-lo na cadeia.
O controverso tuíte do Ministério do Interior do Reino Unido: “Imigrantes ilegais não terão onde se esconder com a nova #LeideImigração". O governo usando o poder das redes sociais para apavorar os imigrantes. (Imagem via)Deixando de lado os problemas ideológicos do pensamento de May, tais medidas vão mesmo funcionar? Tony Smith é consultor de segurança de fronteiras e ex-diretor da Agência de Fronteiras do Reino Unido (UKBA). Ele já viu tentativas similares de lidar com a imigração ilegal, quase sempre malsucedidas, e acredita que a fraude sempre encontra um caminho. “Sanções empregatícias mostraram que é relativamente fácil conseguir algum tipo de documento para passar pelas verificações dos empregadores”, ele disse. “O mesmo acontece com senhorios ou exames médicos.”
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O Ministério do Interior não respondeu a meu pedido de comentário. Apesar de essas políticas estarem ganhando os corações dos malucos fascistas por toda parte, o ministério está sob pressão no momento. Um relatório recente sobre o estado do sistema de concessão de asilo no Reino Unido, preparado por um comitê selecionado pela Corregedoria, revelou que alguns requerentes de asilo esperam há 16 anos por uma decisão e levantou preocupações sobre as “péssimas” condições de moradia enfrentadas pelos requerentes, bem como a pressão colocada nos candidatos gays para provar sua orientação sexual. Isso mostra que enquanto o governo promove sua retórica intolerante para ganhar votos nas eleições de 2015, o que o sistema de asilo realmente precisa é de uma boa dose de humanidade e eficiência.Um funcionário público me disse recentemente que May é conhecida como “Darth Vader” entre seus colegas, e é fácil entender o porquê. A linguagem dela é a do medo. Sua legislação de imigração, publicada algumas semanas atrás, vai se tornar lei na primavera do ano que vem, assumindo que seja aprovada pelos parlamentares. O que parece inevitável. Políticos de todas as orientações têm medo de mostrar qualquer coisa diferente de uma postura linha-dura sobre imigração e serem taxados de covardes, e acabar sendo escorraçados de Westminster por Nigel Farage montado num buldogue.A lei é outra indicação de que enquanto as portas da Inglaterra continuam sempre abertas para pessoas com dinheiro — investidores imobiliários, grandes corporações tentando escapar dos impostos, estudantes chineses — o sofrimento das pessoas pobres que apodrecem nos centros de detenção não é uma preocupação real.
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Cerca do Centro de Imigração Colnbrook. (Foto cortesia da Detention Action)O principal problema identificado pelos detentos com quem falei também foi abordado pelo relatório do comitê da Corregedoria. A questão é melhor resumida no título do novo documentário de Alexis Wood sobre o sistema de detenção: How Long is Indefinite? (Quanto Tempo é Indefinidamente?). Quem está preso pelo menos sabe quanto tempo terá que ficar na cadeia. Nos centros de detenção do Reino Unido, as pessoas não fazem a menor ideia. Elas podem ficar lá por três meses, ou 15 anos.Hafez,* um iraniano que ficou na detenção por dois anos, usou a analogia de um naufrágio. Enquanto estávamos sentados num café em Harrow on the Hill, Londres, ele me disse: “A pessoa que está no oceano não perde totalmente as esperanças se consegue ver a ilha para onde está nadando. É assim na prisão. Detenção é diferente: você está no oceano, mas não consegue ver a ilha para onde está nadando”.Hafez era ativista no Irã, onde, ele diz: “Você tem liberdade de expressão, mas depois de se expressar, você não tem mais liberdade”. Quando ele queimou uma bandeira iraniana no meio de um protesto contra o governo, um amigo seu com contatos dentro do governo deu a dica: eles estavam vindo atrás de Hafez. Ele escapou, pagando traficantes para tirá-lo do Irã e levá-lo para o Paquistão, e de lá para a Índia.Quando veio para a Inglaterra — no caminho, pelo menos ele esperava, para o Canadá — ele foi parado no aeroporto de Manchester. Ele lembra de ter sido tomado pelo pânico enquanto tentava escolher o oficial de imigração de aparência mais simpática. Ele optou pela única mulher e assim que entrou na fila, percebeu seu erro: “uma mulher, nesse tipo de atmosfera, sempre será mais dura que os homens, para provar que pode fazer aquele trabalho”.
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Ele foi jogado na prisão de Strangeways, Manchester, por tentar entrar no país com um passaporte falso (que era, claro, o único jeito de sair do Irã). Comunicativo e inusitado, ele fez amigos numa das mais notórias prisões britânicas. Depois de seis meses, ele foi transferido para um centro de detenção. “Eu não sabia como era o lado de fora, porque ainda não tinha visto nada”, ele relembra.Hafez se refere a esse tempo de detenção como “dois anos de escuridão”. Roger,* que veio para a Inglaterra do Camarões, também ecoou esse tipo de pensamento: “Há muita tensão e as pessoas brigam por causa disso. Você fica muito estressado e deprimido”. Quando estava na África Ocidental, Roger fez parte de uma manifestação pacífica contra o governo do presidente Paul Biya, que está no poder há mais de 30 anos. Ele preferiu fugir do país a enfrentar a prisão. Enquanto estava na detenção no Reino Unido, sua esposa foi torturada, estuprada e, por fim, morta em Camarões. O Ministério do Interior sabia disso, mas não quis aceitar as provas fornecidas por ele. Os guardas tinham “prazer” em empurrá-lo de um lado para o outro, ele disse. Ele teve a deportação marcada duas vezes, mas com a ajuda da Anistia Internacional, da Medical Justice e de um parlamentar local — ele conseguiu o asilo.Hafez fala de maneira triste, porém poética, sobre seu tempo na detenção. Quando diz que “às vezes, eu queria ser um papagaio, para voar dali”, ele soa como se estivesse num filme iraniano vencedor da Palma de Ouro. Roger é mais direto. Ele fala sobre violência e fome. Para ele, a comida era a pior parte: “Consegui um trabalho na cozinha”, ele conta, “quando vi a comida, eu disse: 'Essa comida é realmente preparada por humanos e para humanos?' Os cozinheiros não dão a mínima, eles não comem isso. A carne chega congelada e eles não se preocupam em descongelá-la. Eles só a jogam na panela e começam a cozinhar”.
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(Foto cortesia do Detention Action.)Para todos os detentos com quem falei, a atmosfera nos centros de detenção se mostrou insuportável. Roger contou sobre um homem do Sri Lanka que deu uma cabeçada na parede no dia em que devia ser deportado, uma tentativa de não ser mandado de volta. “A cabeça dele abriu. Ele foi levado para um hospital. Não sei o que aconteceu com ele depois”, disse Roger. “Só vi uma briga entre um detento e um guarda. O detento acabou sendo sedado. Eu tinha medo o tempo todo. Eu vivia com medo.”As histórias sobre o sistema de asilo que ouvi são subjetivas, por terem sido contadas como vistas pelas pessoas que passaram por isso. Há sempre a preocupação — como foi dito por certos requerentes de asilo mexicanos — de que as pessoas que vem para a Inglaterra buscando asilo sigam caminhos que sabem ser efetivos. E, claro, nem todo mundo vem para cá para ser um cidadão modelo. Mas acredito no que essas pessoas me contaram sobre suas vidas, e confio nas pessoas e organizações que asseguraram a honestidade delas.“Quando você entra no lixo, não dá para sair de dentro sem feder”, disse Hafez sobre seu tempo na detenção. “Claro que a Inglaterra não pode deixar qualquer um entrar neste país, mas eles deviam pelo menos dizer quanto tempo você vai ficar detido, porque é isso que te mata — de verdade.”Hafez saiu do centro de detenção, mas o centro de detenção não saiu dele. Quando está no trabalho, ele com frequência se pega indo até o Google Maps. Ele encontra o centro de detenção onde foi mantido e fica pairando sobre ele, vigiando.