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Notas de um Cara na Líbia VI - Totalmente Recuados

Hoje saímos do hotel em meio a rumores de que a frente de batalha tinha se deslocado para os arredores de Ajdabiya. Rumores são normais por aqui.

Hoje saímos do hotel em meio a rumores de que a frente de batalha tinha se deslocado para os arredores de Ajdabiya. Rumores são normais por aqui. Ouvimos metal da Líbia e o hino nacional. Tínhamos dois latões de combustível no porta-malas, e eu me sentia bem sabendo que estavam lá. Chegamos na cidade, reservamos um hotel e seguimos em frente.

Um amigo ligou na noite passada e me disse que atiradores de elite em Ra's Lanuf tinha disparado contra alguns dos jornalistas que deixavam seus hotéis naquela manhã. A frente de batalha está agora em algum lugar a leste de lá, entre Ra's Lanuf e Brega. Fico feliz por termos deixado o local na hora em que o fizemos. Nosso novo desafio é não ultrapassar a frente de batalha que está em constante mudança, o que nos colocaria em perigo verdadeiro de encontrar um posto de controle das tropas de Gaddafi. Eu comecei a reconhecer a cor verde, de Gaddafi, como um sinal para sair correndo na direção oposta.

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Nos dirigimos para Brega, uma cidade fantasma. Não haviam rebeldes, nem postos de controle, e não tínhamos ideia de onde estava a frente de batalha. Quando a jornalista veterana disse: "Só quero ir para a frente de batalha", eu queria chegar pertinho e socar a cabeça dela. Mas deve estar certa, afinal ela já se meteu em uma série de zonas de conflito e ainda está andando por aí, procurando a próxima grande batalha.

Passamos por jornalistas de TV em seus coletes azuis na entrada oeste de Brega. Rebeldes nos disseram que ouviram explosões em Al-Uqayla, uma cidade logo adiante. "Onde está o Sarkozy?", um rebelde perguntou. Os rebeldes aqui talvez não tenham muito treinamento ou armas, mas eles têm um grande coração. A jornalista veterana perguntou se eu estava bem para prosseguir. Murmurei alguma coisa e continuamos.

Ambulâncias, seguidas por picapes com metralhadoras montadas, passaram por nós rumo ao leste. Não queria continuar, mas também não queria voltar. Estava preocupado em parar, sair e conversar com os rebeldes do lado de fora, mas foi o que fizemos. Estava numa espécie de competição de quem coloca mais o pau na mesa com a jornalista veterana, e ficou evidente durante todo o tempo de que é ela que tem um pau maior ali.

Os rebeldes falaram da mesma maneira de todos os outros rebeldes que já conhecemos: "Não podemos vê-los, mas podemos ouvir as bombas", disse Tahar Araft.

Mísseis passaram atrás de nós, voando para o sul através do deserto. Outro comboio de carros, voltando para o leste e apertando pelos dois lados da estrada, passavam por nós. Conversamos com um casal de fotógrafos espanhóis que foram achavam que as forças de Gaddafi estavam a 15 km de distância, e que suas bombas e mísseis estavam chegando ao seu destino a apenas 3 km. As explosões eram fortes e a frente de batalha estava em completa retirada. A empolgação e a idéia de que os rebeldes poderiam chegar a Surt tinham evaporado. Um rebelde se inclinou para fora da janela e pediu para a gente ir embora. Praticamente corremos de volta ao carro e discutimos sobre quem seria o próximo a vestir o colete a prova de balas e o capacete. Como sempre, tentei dar para o motorista, mas ele recusou.

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Nesse momento ninguém estava dirigindo rumo ao oeste. Estávamos em um comboio de carros indo para o leste em uma estrada de duas pistas, todos bombando a 100 km/h. Passamos correndo por Brega – os rebeldes estavam cedendo território rapidamente. Eu tinha que mijar, então pensei nos dois quartos do hotel que eu estava pagando naquela noite para não deixar minha mente pensando na minha bexiga cheia e outras coisas.

Ajdabiya havia se tornado o novo ponto de recuo. Paramos e vimos um flash e uma explosão em uma encosta à cerca de 3 km de distância. As forças de Gaddafi pareciam estar se movendo no mesmo ritmo que nós. Corremos de volta pra outra direção.

Eu estava perdendo rapidamente a vontade de estar naquela merda. Eu vi uma picape estacionada na acostamento da estrada. Ao lado, um homem estava de joelhos e rezando em direção ao deserto. Atrás dele, um garoto estava urinando em uma cerca de arame.

De volta ao hotel em Ajdabiya eu falei com uma jornalista da Al Jazeera. Ela descreveu ser pega no meio de um fogo cruzado entre rebeldes e as tropas de Gaddafi. Ela se deitou no chão da picape e xingou seu próprio trabalho: "Por que fazemos isso?", ela perguntou.

Comemos uns sanduíches frios de frango e batatas fritas semi-cozidas no hotel. O motorista foi botar combustível e eu aproveitei pra tirar uma soneca. Estávamos sem energia, mas a jornalista veterana ainda estava brincando distraidamente com a TV. Ela pensou em voltar pra frente de batalha por um tempo, e depois a energia voltou. Fiquei assistindo Drake e Nikki Minaj – a chocantemente avançada careca do Drake, os seios formidáveis da Minaj e sua cabeça balançante.

Eu estava quase dormindo quando ouvi vozes no corredor. Os jornalistas estavam indo embora. "Eles estão nos portões no oeste", disse um cara que estava guardando seus equipamentos. Fizemos as malas e fomos pra fora. A retirada estava em pleno vapor.