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Os Acampamentos Nervosos de Israel

No último mês, israelenses da classe média estão saindo de casa e acampando nas ruas para protestar contra as altas absurdas nos preços dos aluguéis e o custo de vida extorsivos.

No último mês, israelenses da classe média estão saindo de casa e acampando nas ruas para protestar contra as altas absurdas nos preços dos aluguéis e o custo de vida extorsivos. Tudo começou na Praça Habima, no centro de Tel Aviv, mas as pessoas em outras partes do país rapidamente embarcaram na ideia, e a classe média recebeu o apoio de imigrantes desempregados, estudantes e sindicatos de trabalhadores.

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Agora é possível ver barracas montadas ao lado de mansões Bauhaus de 18 milhões de Shekel no Boulevard Rothschild, e as ruas de toda a cidade israelense foram tomadas por um fluxo de pessoas sentadas em cabanas e gritando sobre os crescentes custos obscenos de tudo no país.

Os protestos pegaram o governo despreparado. Os anos que passaram focando nos amigos americanos e inimigos árabes deixaram os serviços sociais às moscas, e o bem-estar privatizado, assim como os esquemas de saúde mental levaram muitos israelenses além do que eles estavam preparados pra chegar. A imagem de centenas de milhares de pessoas marchando pelas ruas de Israel é tão sem precedentes que essa semana o governo foi forçado a considerar a anular seu recesso anual de verão.

Falei com Oren Ziv e Keren Manor, dois membros de um coletivo de fotografia chamado Active Stills pra saber mais sobre os protestos que eles passaram o mês passado inteiro documentando.

VICE: Oi gente. Por que há tantos israelenses escolhendo viver nas ruas no momento?
Oren Ziv: Basicamente, os problemas sociais no país se tornaram insuportáveis para muitos israelenses. Muitos estão protestando contra a moradia, o desemprego, os custos de vida, especialmente no centro de Israel. Há também muitos problemas com os direitos dos trabalhadores, os impostos, o preço do combustível… A vida das classes baixa e média se tornou muito difícil.

Há quanto tempo esses protestos estão acontecendo?
Oren: Bem, não aparecemos do nada, como a mídia gosta de dizer. Por exemplo: os médicos estão em greve e protestando diariamente há oito meses. Mais frequentemente, as menores uniões de trabalhadores estão instigando seus membros a protestarem há um ano, fazendo pequenas manifestações e greves. O problema só chamou a atenção da mídia quando a classe média nas áreas mais nobres de Tel Aviv começou a protestar e acampamentos começaram a aparecer. Por um certo tempo o governo não estava entendendo o que estava acontecendo, então não reagiram muito.
Keren Manor: Foi uma grande surpresa pra todos aqui, porque os israelenses tendem a ser bem apáticos quanto ao que acontece ao seu redor. Essas grandes marchas inspiraram muitas pessoas a se envolver.

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Houve boatos no começo dessa semana de que Benjamim Netanyahu havia cancelado o recesso de verão do Knesset. Isso mostra o quanto o governo se chocou com esses protestos?
Oren: Questões sociais estão no final da lista de interesses do governo de Israel há décadas – a ocupação e os conflitos com a Palestina e outros países sempre tiveram preferência. Desde 1948 estamos sob uma lei de estado de emergência que se renova a cada seis meses, e isso assusta facilmente os israelenses ao fazer com que pensem que as questões sociais são as últimas coisas com as quais devem se preocupar. As pessoas estão fazendo piada agora que o governo vai começar a bombardear o Irã para que as pessoas parem de protestar! Obviamente isso nunca aconteceria, mas mesmo que acontecesse, seria tarde demais; há acampamentos e protestos por todo o território de Israel. Depois de ver o acampamento em Rothschild, as pessoas ficaram pensando: “Se eles podem fazer aqui, então podemos fazer em qualquer lugar”.

O governo está negociando com os manifestantes para achar uma solução?
Oren: Bem, no começo o governo estava rindo e falando aos manifestantes que eles são apenas jovens mimados da classe média que deveriam construir acampamentos ao sul do país e serem patriotas pelo menos uma vez na vida, mas o problema nisso é que não há trabalho para os jovens fora das grandes cidades. Então primeiro eles pensaram que era uma brincadeira ou uma modinha, mas hoje ouvimos dizer que o presidente, o Shimon Peres, convidou os “líderes” dos protestos para uma reunião para conversar sobre os problemas.

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Isso parece promissor, não é?
Oren: O problema do governo é que eles não fizeram nada no começo e agora eles deixaram a situação ficar tão feia que eles estão lutando para acabar com o movimento. Agora qualquer pessoa com problemas sociais está se juntando aos protestos, que estão ficando cada vez maiores. Israel – e especialmente Tel Aviv – é um dos lugares mais caros de se viver no mundo, porque há muitos judeus ricos que compram casas de verão por aqui e que só usam durante alguns meses do anos. Isso faz o preço dos aluguéis e os preços dos imóveis subirem. Israel pode ser um país rico, mas o salário mínimo aqui é de apenas £4.75 por hora [mais ou menos R$ 12], e os impostos são mais elevados do que a maioria dos países europeus. Então em uma família onde os dois pais trabalham, eles ainda têm que batalhar para comprar uma casa. A classe média está falindo.

Então o que o governo pode fazer para resolver o problema?
Oren: Semana passada mais de 150 mil pessoas estavam protestando em Israel, e para um país de apenas 7 milhões de habitantes, isso corresponde a muitas pessoas. Acho que isso chocou o governo ainda mais, então agora estão falando de negociações. Mas as pessoas não querem que sua qualidade de vida melhore. Elas querem que o sistema de justiça social por completo se torne mais justo para todos.
Keren: As pessoas estão começando a fazer conexões entre o governo e a elite rica de Israel. Há aproximadamente 20 famílias que controlam toda a mídia do país – os jornais, as TVs e estações de rádio – e as pessoas estão ficando cansadas desses monopólios e suas ligações com os partidos do governo.  As pessoas estão pedindo que os impostos sejam mais justos, e as classes altas que fogem do pagamento impostos sejam levadas a justiça. Eles também querem o fim de serviços sociais privatizados porque as pessoas não conseguem mais pagá-los.

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Uma das grandes razoes dessa privatização, e consequentemente o alto custo de vida, é que grande parte do orçamento do estado se destina a manter as ocupações e pagar os acampamentos militares. Logicamente, isso significa que o estado tem pouco dinheiro para gastar com outras coisas.

Então as preocupações do governo com a Palestina são responsáveis por essa situação?
Oren: Claro que há uma conexão -- apesar de países como a Espanha e a Grécia não terem grandes orçamentos de defesa, eles ainda lutam para financiar adequadamente os serviços sociais. Em Israel a situação é ainda mais extrema por causa das ocupações. A razão pela qual não se vê os que moram nessas ocupações não é porque eles não são convidados, mas porque eles têm moradia subsidiada na Cisjordânia, onde o transporte público custa metade do preço. Os impostos também são reduzidos, além de serem focados em segurança – eles têm que pagar soldados, trocar tanques que explodem e armas que eles usam, e têm que construir mais paredes.

Realisticamente, esse movimento poderia derrubar o governo?
Oren: Bem, eles estão em apuros por causa do movimento. Sabem que não há como atacar os acampamentos e seus ocupantes porque vai ficar feio pra eles. Em Israel não temos invasões em massa ou a cultura de festas de rua, e ninguém faz reuniões grandes sem antes ter permissão, mas agora estamos vendo esses acampamentos surgirem com cozinhas comunitárias, que é algo muito novo no país. Não há muitas greves ou protestos em grande escala, então ver pessoas aparecendo nas ruas e tendo discussões democráticas pra variar é algo grande.

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Acho que o movimento já está derrubando o governo – por exemplo, semana passada o partido do governo, o Likud, foi aos bairros pobres de Tel Aviv, onde tradicionalmente tem uma base grande de eleitores, para encontrar com as pessoas que os apoiam. Em vez disso, eles encontraram grandes grupos de pessoas locais bloqueando as estradas e berrando “Por sangue e fogo, tiraremos vocês do poder”. Sem esse apoio, realmente vejo que Netanyahu perderá poder nas próximas eleições. Idealmente, no entanto, preferimos partir para uma grande mudança social do que apenas mudar de regime.

Você vê esse movimento como parte da Primavera Árabe?
Oren: Não há como ignorar a Primavera Árabe. Ela está acontecendo por todos os lados e está constantemente na mídia. No começo os israelenses estavam preocupados que a revolução no Egíto levaria à instauração de um regime islâmico, mas agora vemos que isso não vai acontecer. Hoje muitos estão comparando os acampamentos em Tel Aviv aos acampamentos erguidos no Tahir Square no Cairo – é a mesma atmosfera de comunidade e a mesma sede de mudança. A diferença é que em Israel nós temos muito mais direitos e não vemos a mesma oposição violenta do governo, então é muito mais fácil protestar sem se machucar ou ser preso pelo regime. Por enquanto. não vimos necessidade de protestos violentos.

Na realidade, a comparação correta seria com a "Real Democracia, Já", na Espanha. Um grande número de manifestantes israelenses estava na Espanha na época e trouxeram muitas das ideias de lá, portanto é por isso que temos os mesmo acampamentos, as mesmas discussões de comunidade, e uma necessidade enorme por um protesto pacífico. Mas com certeza há uma certa inspiraçãoo na Primavera Árabe. Vemos banners que dizem “Mubarak, Assad, Netanyahu”, ou pessoas que gritam “Tahir é aqui”.

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Como a polícia reagiu aos protestos?
Oren: No começo eles não se importaram e deixaram os acampamentos se formarem, porque tecnicamente é uma questão municipal, não uma questão policial. Geralmente em lugares como a rua Rothschild, eles não encostaram em ninguém, mas nos bairros de classes mais baixas, foram mais agressivos. A polícia foi especialmente agressiva perto da rodoviária central, onde há um acampamento constituído principalmente por imigrantes ilegais e sem-teto, e onde muito tráfico de drogas acontece. O acampamento foi desfeito três vezes em uma semana pelo governo municipal, com a ajuda da polícia.

Semana passada, na primeira grande manifestação, as pessoas estavam entoando “Nós amamos a polícia”, porque a polícia não tem como formar uma união de trabalho, e eles sofrem dos mesmo problemas dos manifestantes. Mas quando a polícia tentou liberar as ruas, alguns manifestantes foram presos, então as pessoas tentaram bloquear os carros de polícia e a estrada. Normalmente, se eles fossem palestinos ou ativistas de esquerda, eles teriam sido atacados imediatamente, mas a polícia deixou isso passar por uma hora antes de começarem a atacar as pessoas. Tel Aviv não é como a Europa, as pessoas não jogam pedras ou bombas caseiras na polícia, não temos a mesma mentalidade. Na verdade, até rolaram algumas situações nas quais pedras foram jogadas. Quem dirá o que acontecerá quando os protestos crescerem?

Qual sua opinião das leis anti-boicote passadas pelo governo de Netanyahu mês passado, que proibia os israelenses de apoiar boicotes internacionais contra seu próprio país?
Keren: É só mais um exemplo de como esse governo está se tornando menos democrático. Assinando uma lei como essa, Israel está mostrando seu verdadeiro caráter para o mundo e para o povo de Israel. Infelizmente, é apenas uma de muitas dessas leis anti-democráticas que foram feitas. Outro exemplo seria a lei que diz que mais de três pessoas se reunindo num lugar público é consideram uma “reunião ilegal”. Outra é a lei Nabka, que previne que instituições ensinem ou falem sobre o Nabka, ou “A Catástrofe” [uma frase palestina que descreve o nascimento do estado de Israel]. Essas leis mostram o direcionamento que Israel está tomando.

Isso te assusta?
Keren: Me acostumei a viver dessa fora, mas muitas pessoas ainda são muito apáticas pela opressão do estado de Israel, e não percebem em que tipo de país moram. A democracia aqui é muito frágil. Hoje é a democracia, mas amanhã, quem sabe?

FOTOS POR OREN ZIV E KEREN MANOR, DO ACTIVE STILLS
ENTREVISTA POR HENRY LANGSTON
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR