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Como o Brasil Criou um dos Mais Completos Mapas de Animais Ameaçados de Extinção

Essa é a primeira vez que algum país faz uma avaliação tão grande das suas espécies ameaçadas de extinção.
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​O mico-leão-dourado ainda está na lista de ameçados de extinção. Crédito: Ta​mbako The Jaguar/Flickr.

​Em dezembro de 2014, o Instituto Chico Men​des de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) divulgou a nova Lista de Es​pécies Ameaçadas de Extinção. 1.173 espécies de animais foram classificadas como ameaçadas de extinção, divididas em três categorias: Criticamente em Perigo (CP), Em Perigo (EP) e Vulnerável (V). Para ser considerada ameaçada de extinção, resumidamente, a população das espécies deve estar declinando ou seu habitat sendo destruído por alguma causa. A lista ant​erior de espécies ameaçadas, elaborada no início dos anos 2000, apresentava 627 espécies. O novo número é bem maior que o anterior e parece assustador, mas ele tem uma razão de ser. Para essa lista inédita foi utilizada uma nova abordagem.

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O professor Marcio Martins, do Instituto de Biociências da USP, foi um dos coordenadores de táxons do projeto das duas versões da lista. Ele contou que vários pesquisadores enviavam listas de espécies que poderiam estar ameaçadas com uma argumentação anexada. Os argumentos eram avaliados em workshops entre os coordenadores e especialistas. "Essa lista partiu de sugestões de espécies candidatas", resume o professor.

Quando ela foi publicada, os pesquisadores acharam que ainda dava para melhorar.

Esse casal fofo de papagaio de peito roxo também corre o risco de sumir do mapa. Crédito: Mazé Parche​n/Flickr

Para a nova lista, utilizando os critérios da União Internacional para Conservação da Na​tureza (IUCN), foram avaliadas 12.256 espécies de animais por mais de 1.300 biólogos e especialistas espalhados pelo Brasil. Esse trabalho todo começou em 2009. Foram avaliados todos os vertebrados presentes na fauna brasileira e uma parte dos invertebrados.

Foi realmente um grande trampo: o ICMBio ofereceu um apoio logístico e técnico e o governo entrou com a grana, enquanto os pesquisadores fizeram as avaliações.

Essa foi a primeira vez no mundo que algum país fez uma avaliação tão grande de espécies ameaçadas de extinção

O trabalho foi dividido em duas fases. Na primeira, foi feito um grande levantamento de dados sobre cada espécie na literatura da área e muitos especialistas foram consultados. Dessa forma, foi traçado um panorama da distribuição geográfica dos animais pelo Brasil. A partir disso, a equipe entrou na segunda fase do trabalho, que consistiu em mais de 70 workshops, em que os cientistas se reuniam e avaliavam cada uma das espécies de cada grupo de animais, considerando todos os dados levantados, fazendo um cruzamento de informações. Os especialistas de um grupo checavam o trabalho dos outros grupos e trocavam ideias entre si, para que tudo ficasse muito bem embasado.

Espécie de tubarão chamada tubarão limão que também aparece na lista das espécies ameaçadas. Crédito: Mathieu Bertrand​ Struck/Flickr

Essa foi a primeira vez no mundo que algum país fez uma avaliação tão grande de espécies ameaçadas de extinção. O professor Marcio afirmou que um esforço maior que esse só é feito para a lista mundial. "E se você comparar os números brasileiros com a lista mundial, a gente vai ver que o Brasil avaliou agora 20% de tudo que a lista mundial havia avaliado. Então é um número absurdo, foi um esforço muito grande", conta.

Apesar disso, ele acha que as duas listas não devem ser comparadas, porque dessa vez foram avaliadas todas as espécies. "Então espécies que a gente nem desconfiou que poderiam estar ameaçadas, acabaram resultando como ameaçadas. Uma coisa que é importante quando divulgam essa lista nova é que o número aumentou, mas ele não porque a situação piorou muito, mas porque a nova abordagem foi muito mais ampla, muito mais inclusiva do que a anterior", ele explica.

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O professor Roberto Reis, da PUC do Rio Grande do Sul, também foi um dos coordenadores de táxons da nova lista. Ele fez parte dos estudos sobre o grupo de peixes brasileiros. Durante a fase de workshops, ele me contou que os pesquisadores dessa área concluíram que 10% dos grupos avaliados estavam em algum grau de ameaça de extinção. Surpreendentemente, esse número não é considerado alto. "É considerado mundialmente um número bem baixo, o normal nos outros continentes é entre 25% a 30%", ele afirma.

Espécie de peixe anual ameaçada da família Rivulidae. Crédito: ​Clinton & Charles Robertson/Flickr

Roberto me contou que essa lista de espécies de peixes ameaçadas de extinção está sendo contestada por pescadores, porque, por lei, espécies categorizadas como ameaçadas têm sua pesca, captura ou caça proibidas.

A treta aqui é que algumas das espécies listadas são de importância comercial e agora estão proibidas de serem pescadas. Como o governo vai resolver isso ainda é um mistério. "Tem a possibilidade de mudar a legislação para que aquelas espécies que estejam no grau mais baixo de ameaça – que é a maioria dos casos das espécies que são pescadas comercialmente – e que foram listadas, possam ser manejadas de algum jeito. Então elas podem vir a ser pescadas com algum grau de controle para a população", sugere o professor.

Outra missão que o governo vai ter que enfrentar agora que a lista foi divulgada é trabalhar para que essas espécies não sejam extintas. "Um tipo de uso muito importante dessa lista é pelas autoridades de licenciamento ambiental", diz Roberto. Além disso, o governo deve preparar Planos de Ação Nacional para salvar essas espécies, que são feitos por áreas em que elas se encontram.

Depois de quatro anos de trabalho de pesquisa, o trabalho agora é de preservação para que essa bicharada não suma do mapa brasileiro.