De Outro Mundo

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De Outro Mundo

Um conto visual com sexo, maconha e robôs em uma Nova Iorque futurista. Spoiler: os yuppies deram lugar a riquinhos mais rebeldes.

A ficção científica é uma mídia bastante visual: mesmo na folha de papel, o gênero cria cenários, cores e visões que nos levam a um transe imaginativo. Nós da Terraform temos sorte por trabalhar com excelentes artistas gráficos como Koren Shadmi, um morador de Brooklyn nascido em Israel, autor de várias graphic novels. Essa é sua história visual — algo entre uma graphic novel e um conto ilustrado — sobre sexo, drogas, disparidade econômica e babás robóticas em uma Nova Iorque futurista.

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— Os editores


Meu pai ficou rico antes de eu nascer. Rico, não — mega-rico. Ele foi um dos primeiros a se aproveitar da onda de desregulamentação fiscal dos anos trinta, transformando a modesta herança do meu bisavô em um império multibilionário. Na minha infância, sua empresa não parava de expandir; ele tinha uma política de compra e assimilação, e quase meio milhão de Indignos trabalhavam em sua companhia. Ele queria aumentar esse número para um milhão antes do seu aniversário de sessenta anos. Um babaca completo.

Final do inverno, a Baixa Manhattan congelada. Eu descia a rua Liberty a caminho da escola. Bob estava logo atrás; seus descongeladores, ligados no máximo, faziam-no zumbir com mais força naquela manhã. É incrível como uma máquina tão pesada quanto Bob, sempre munido de dois mini-revólveres, consegue andar tão rápido na calçada congelada. Tive de me acostumar com o desgraçado. Desde que meu pai o comprou há alguns anos, Bob me acompanha em todos os segundos do meu dia. Todos sabem que a Baixa Manhattan é segura. A Guarda Nacional está em todas as esquinas. Mas meu pai, assim como os pais de meus amigos, não gosta de correr riscos. Alguns anos atrás, um Indigno invadiu um dos arranha-céus e atirou em um acionista e suas três filhas. Agora todo mundo anda por aí com um Bob.

Para Bob, aquele era um dia como qualquer outro, e ele me seguia conforme sua programação idiota mandava. Mal imaginava que eu guardava uma surpresinha para ele. Eu havia lido as instruções centenas de vezes desde depois de comprar o negócio na deep web, assegurando-me de que havia montado o equipamento direito. Eu estava nervoso, confesso. Havia só uma chance, nada mais. Se eu fizesse merda, estaria fudido. Parei de sopetão e gritei: "Bob! Tem um cara com uma arma bem ali!", enquanto apontava para a fachada de uma loja abandonada logo à frente. Em um piscar de olhos Bob saltou para me proteger, seus LEDs vermelhos piscando por toda sua superfície, suas armas carregadas e empunhadas, um leque de escudos de titânio em riste como uma serpente. Enquanto Bob escaneava a loja, tirei um pen drive da mochila e espetei a minúscula peça o mais rápido possível em seu pescoço. Em menos de dois segundos, Bob caiu no chão. Conferi sua cabeça para ter certeza: nenhuma luz acesa no ferro-velho. Eu estava livre.

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O taxista me deixou em Mott Haven — bairro onde, segundo Carlton, a rave aconteceria. Ainda estava cedo, então resolvi dar uma volta. A rua estava lotada de Indignos e tudo parecia uma merda. Vários micro-cassinos e lojas de vaporizadores por todos os lados. O lixo cobria tudo, do gelo aos bueiros. As pessoas pareciam miseráveis e imundas. Eu estava preparado; havia trocado meu casaco térmico da Armani por roupas sujas de Indigno já no táxi. Dei meu casaco para o taxista. Se ele o vendesse, ganharia um equivalente a um ano de comida para sua família.

Entrei no que parecia ter sido, em algum ponto da história, o parquinho de uma escola pública. Alguns adolescentes fumavam no canto. Três garotas e um cara. Puxei papo com eles. Eles ficaram meio desconfiados, mas quebrei o gelo no momento em que peguei meu baseado e ofereci um pouco. Eles não sabiam, mas isso era erva de primeira — 55 gramas poderiam pagar um ano de aluguel. Uma das garotas era bem bonitinha. Seu nome era Martha. Ela tinha cabelos vermelhos, grandes olhos cinzentos e, até onde eu podia ver, um corpo bonito. Era difícil ver algo debaixo daquelas roupas baratas. Perguntei sobre a festa. Eles estavam planejando ir.

Mais tarde, Martha e eu andamos até uma pizzaria. Comprei duas fatias, e ela as engoliu de uma vez. Meu Deus, nunca conheci alguém tão sem educação. O óleo escorria pelos seus dedos e pelo canto da sua boca — nojento mas um pouco excitante. Ela parecia um pouco desconfiada da minha generosidade. Expliquei que havia roubado a carteira da minha tia. Se meu pai me visse naquele momento com uma Indigna, comendo comida de Indignos, ele iria surtar. Essa ideia foi o suficiente para me encher de prazer.

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Ainda tínhamos tempo antes da festa, então fomos para o apartamento dela. Era uma espelunca. Ela e seus dois irmãos dormiam em uma beliche tripla enfiada em um quarto menor do que o armário do nosso mordomo. Era impossível se esticar naquela cama minúscula, e ela me disse que dormia em posição fetal, o que nem era tão ruim. Acendi outro baseado para a gente. Ela disse que meu bagulho era "de outro mundo". Estávamos ficando bem doidos. Ela trancou a porta e tiramos nossas roupas. Eu estava certo sobre seu corpo. Ela tinha umas feridas nas coxas, mas era bem gostosa. Eu só havia visto de perto outra garota pelada — Katia DuPont, nem de longe tão gata, com quem fiquei algumas vezes até ela me dar um fora. Fiquei um pouco deprimido depois disso, o que fez meu pai me arranjar com a filha de um sultão de Dubai. Ela até que era bem gata, mas eu mandei ele se fuder, e ele nunca mais mencionou o assunto. Para resumir, eu estava necessitado. Eu e Martha transamos naquele quarto do tamanho de um armário. Foi incrível.

Quando acordamos, já era noite. Martha disse para eu me vestir. Saímos pela escada de incêndio e tomamos o rumo do cais. Um vento gelado soprava da água, e eu tremia sob meu casaco. Martha não pareceu se importar. Ela segurou minha mão e me guiou até o que parecia ser um depósito. Na porta, um cara grande e gordo perguntou qual era a senha. Martha respondeu: "Mixaria", e nós entramos.

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Havia mais de cinco mil Indignos lá. A festa tinha luzes, lasers e máquina de fumaça, e a música era tão alta que eu podia sentir meus pulmões vibrar. Eu já havia assistido cenas parecidas em seriados do século passado, mas aquilo era de verdade. O ar cheirava a suor e drogas. Martha me levou até seus amigos que dançavam ao lado de uma caixa de som gigante. Todos ficaram felizes ao me ver e me perguntaram se eu tinha mais daquela maconha sensacional. Eu não tinha. Comecei a dançar com a Martha bem pertinho. Podia ver o espectro de luzes coloridas nos seus olhos. Enquanto ela sorria, sentia seu corpo tocando o meu de novo, de novo e de novo.

De repente ouvi uma rajada de tiros e vários gritos. Todo mundo começou a correr. Martha gritou para seus amigos, agarrou minha mão e me arrastou até a saída. Saímos do prédio e começamos a correr em direção a um container próximo à água. Corri o mais rápido que pude, mas a mão da Martha escorregou da minha e tropecei. Foi então que ouvi um som familiar vindo das minhas costas.

Um zumbido ensurdecedor. Martha e seus amigos caíram um a um. Continuei deitado, cobrindo minha cabeça com as mãos. Bob andou até Martha, estirada ao chão, quase morta. Ele parou em cima de seu corpo. Sem dúvida esperava alguma ordem. No próximo segundo, Martha estava em chamas. Bob usava um lança-chamas que eu nem sabia existir. Martha parou de se mover. Bob então fez o mesmo com seus três amigos. No fim, ele se virou e andou em minha direção.

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Derrotado, levantei-me. Um fio metálico saiu do braço de Bob e se enroscou no meu. O peito do robô se iluminou com o rosto de meu pai. Ele parecia mais do que decepcionado. "Você conseguiu dessa vez, moleque. Vai ficar de castigo por um mês. Vamos conversar direito quando eu chegar em casa", disse.

Abri minha boca para retrucar. "Agora não, estou embarcando. Falamos amanhã", e desligou. Fechei meu casaco, abaixei meu boné e comecei a seguir Bob, rumo às luzes de Manhattan.

Tradução: Ananda Pieratti