Sociedade

Como tratar um barman, segundo os próprios barmen

"Amigo, podes parar de assobiar que aqui não há nenhum cão". A vida dos profissionais dos copos não é pêra doce.

Por Liz Tracy
16 Março 2017, 2:14pm

Ilustrações por Brandon Celi

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

O pessoal que nos atende nos bares vê de tudo. Durante o expediente, tanto podem ver gente à porrada, como a apaixonar-se. Vêem pessoas num primeiro encontro e casais antigos a acabarem a relação. Às vezes vêem alguém a comemorar uma promoção, outras, servem alguém que acabou de ser despedido.

Resumindo: o barman é o mestre de cerimónias de um dos circos humanos mais bizarros da Terra. Não é fácil. O que para o resto da humanidade é só uma noite de farra, para eles é trabalho. Como qualquer profissional, querem ser tratados com algum nível de respeito, independentemente do porquê de estares no seu local de trabalho, ou quanto bebeste. Por isso, falámos com profissionais de longa data, para tentarmos descobrir o que os deixa de cabeça perdida e o que os deixa satisfeitos. A receita para uma noite agradável e uma interacção perfeita é simples.


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Não sejas "aquele" gajo

"Não sejas idiota. Há sempre aquele tipo no meio de um balcão apinhado a estalar os dedos, ou a acenar com o dinheiro na mão quem nem um maluco. Vai chamar-me de "querida" ou "menina" e pedir-me o número de telefone depois de dar uma miséria de gorjeta de por cinco rodadas de bebidas diferentes.

É o gajo que precisa da tua atenção imediata, mas ainda não decidiu o que quer beber quando é atendido. É o gajo que fica chocado, porque precisas do seu cartão de crédito para abrir a conta, ou que fica ofendido quando lhe pedes o BI. Pode mesmo insultar-te ou dizer que quer falar com o gerente (estás a olhar para ela, querido!) se não for atendido como um príncipe árabe. Basicamente: não sejas esse gajo. Qualquer pessoa, a trabalhar em qualquer profissão, merece ser tratada com respeito. Incluindo a 'bartender'". — Caty, há 13 anos atrás do balcão

Sê criativo

"Os bons barmen vêem-te com os olhos da nuca. Mas nem todos são óptimos. A maioria quer que esperes pacientemente até que o contacto visual seja feito. Sê simpático, mas não demasiado familiar. Somos todos seres neste Planeta e cada pessoa vive uma experiência de consciência subjectiva, mas não ouses dizer nada machista, racista ou homofóbico sobre os meus clientes, ou colegas de trabalho.

Se tens mesmo de me dar uma alcunha, pelo menos sê criativo: "Docinho de Abóbora", "Querido Queridíssimo", "Capitão McWhisky" e "Deus", são muito melhores que "Campeão", "Chefe", ou "Mano". Nem vou bater na tecla do "não sejas mal-educado". Geralmente, o bom comportamento é recompensando num bar. Paciência e paz rendem um serviço melhor, sem mencionar um bom lugar de estacionamento no grande drive-in kármico do Céu". — Brad, há 15 anos atrás do balcão

O balcão não é a tua tomada pessoal para recarregar o telemóvel

"Os 'bartenders' costumavam tratar dos clientes de uma forma que hoje em dia já não existe. Eram psicólogos, confessores, um homem ou mulher comum que podia ajudar-te com qualquer coisa enquanto te servia uma bebida. Isto porque toda a gente frequentava um bar: advogados, médicos, mecânicos. O barman ligava as pessoas. Agora são os telemóveis que o fazem e não há uma noite sem que alguém peça para recarregar o telefone atrás do balcão. Tudo bem, fico feliz em ajudar.

Mas também não é preciso depois andar a ver o telemóvel de cinco em cinco minutos. A pessoa deixa o telefone a carregar uns minutos, pede para ver e fica a pensar porque é que a bateria só está a 10%. Fora isso, há uma coisinha que pode ser-te muito útil. É uma boa ideia saberes o que gostas antes de pedir. Há uma rapaziada hoje em dia que pede "uma IPA" e depois reclama que é muito amarga. Se não tens a certeza se gostas do que vais pedir, porque é que, antes, não lês um pouco sobre o assunto no teu telemóvel?". — Nicky, há 20 anos atrás do balcão

Deixa as tuas suposições à porta

"Estou neste negócio há 20 anos, portanto sei o que estou a fazer. Tirei um curso universitário, mas acho que muitos clientes julgam que não. As pessoas têm os seus preconceitos com a indústria de serviços. Acham que, se trabalhas nisto, é porque alguma coisa não saiu conforme o planeado. Mas esta é a profissão que escolhi. Aliás, que muita gente escolheu. A maioria das pessoas com quem já trabalhei também escolhe e também andou no ensino superior.

É isto que eu sempre quis fazer e gosto de fazer e me divirto a fazer. No entanto, por vezes há quem se sinta superior. Perguntam: "O que é que fazes para além disto? Qual é o teu emprego verdadeiro?". É este. Esta é a minha carreira. É isto que quero fazer. Tenho dois filhos. Posso ficar com as crianças durante o dia. É importante para mim poder passar tempo com elas. Trabalho três noites por semana e ganho o suficiente. Só queria que os clientes não viessem logo à partida a pensarem que somos burros". — Jen, há 20 anos atrás do balcão

Aqui vai uma dica: gorjeta

"Dá gorjeta! Por vezes, as pessoas não recebem salário fixo e dependem das gorjetas. Qualquer gorjeta, mesmo para uma cerveja, ajuda. Especialmente, se estás a fazer cocktails sofisticados, que - entre medir os ingredientes, sacudir, trocar o gelo sacudido por gelo novo, enfeitar - levam alguns minutos.

Se pedes cinco cocktails (faz as contas) vai demorar um bocadinho, portanto não fiques a olhar de trombas para mim, ou a ser insistente, ou não optes por não dar gorjeta num pedido deste género se achas que demorou demais. É super irritante e deixa-te de mau humor para o próximo cliente. Pode estragar-te o dia, porque estás a dar no duro para agradar às pessoas e sabes que vais para casa sem nada no bolso. Ninguém é obrigado a dar gorjeta, mas deverias pensar no quanto trabalhamos arduamente para te servir". – Machi, há 10 anos atrás do balcão

Bebe uma dose de bom senso

"É uma questão de tratar as pessoas com decência e respeito. Não tenho paciência com quem não tem educação, ou não diz "por favor" e "obrigado". O mesmo vale para quem se acha superior e te trata como se fosses a sua putinha, só porque te deu gorjeta.

Tenham bom senso. Já vi umas coisas... já vi gente adulta com um cooler na mesa a servir os próprios martínis nos nossos copos. Já apanhei gente a fazer os próprios cocktails. Levavas a tua própria comida para um restaurante? Não faças isso". — T.S., há 25 anos atrás do balcão

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