análise

A Páscoa também é deste Jesus

Dez razões pelas quais o homem que masca chicletes como se não houvesse amanhã é importante para os portugueses (e para o Universo em geral).

Por Carlos Reis
22 Março 2017, 11:07am

Imagem principal: foto por utilizador Alface via Wikimedia Commons

A Páscoa está aí à porta e, por motivos religiosos e as mini-férias de muitos, faz parte do panorama mediático dos próximos tempos. Por aqui, levamo-la a outra dimensão. Ao contrário do que aconteceu com os Beatles em formato "mal entendido", Jorge Jesus é, por este dias, no nosso País, mais famoso que o outro. Desde que se passou para o rival da Segunda Circular, não houve semana em que não se falasse sobre os seus discursos, atitudes e decisões. Fora ou dentro do campo.

Como tal, apresentamos-te algumas das razões que nos levam a vê-lo como personalidade impactante, sem ser pelo 4-4-3 ou outras afinidades futebolísticas. Estes são os 10 mandamentos que aprendemos com JJ (directa ou indirectamente) e que devias seguir.

FALA CORRECTAMENTE A LÍNGUA MATERNA

Ao longo dos anos, Jesus tem dado vários pontapés na gramática da língua portuguesa. Por isso, os media fazem parangonas, as redes sociais rejubilam e até José Mourinho o criticou. Essas gaffes fazem-nos pensar que, se não queremos acabar num meme,  nunca devemos dispensar falar o português correcto, mesmo que alguns nos queiram impingir o acordo ortográfico. Falar bem, é bonito e sexy.

AFASTA-TE DOS MEXERICOS

Com o tempo de antena despendido à volta de Jesus e das estorietas resultantes do seu Mundo, há pessoas que debatem horas a fio algumas das suas polémicas. O lado positivo é que, mais vale isso, do que mexericar o que é que o nosso vizinho fez, vestiu ou comprou. Se for para falar da vida dos outros, é preferível que seja sobre os "grandes" do showbizz. Sim, Kim Kardashian e quejandos.

NUNCA SEJAS SUBMISSO AO PATRÃO

Numa sociedade em que existe a ideia de que os empregados têm receio em fazer frente ao patrão (inclusive sobre coisas básicas em que discordem) e onde existe muito "sorriso amarelo" no ar, é curioso ver o que se passa na relação entre ele e o Presidente do Sporting, Bruno de Carvalho. Definitivamente, "o" submisso não mora aqui. Quanto ao sorriso, é outra conversa.

TER INVEJA É COISA FEIA

Por vezes, dá a sensação que a Porto Editora devia ter nos seus dicionários uma secção só dedicada a Jorge Jesus. Uma das últimas expressões que soltou para os "haters" ou os "lovers" comentarem, foi a "palavra" "cotovelite". Tudo porque, uma vez mais, o tinham criticado e, de seguida, ele devolveu à sua maneira. O Camões, agora, deve torcer pelos leões.

SABER MUDAR DE OPINIÃO É SALUTAR

Em algumas das afirmações que tem feito (sobre o sistema táctico, contratações, etc.), é visível que a idade não perdoa. Com 62 anos, o treinador que já foi capa da GQ, parece confirmar que mudar de opinião, ou admitir o erro, é coisa para outras gerações. Discordamos. Se há coisa que a vida nos ensina é que todos os dias estamos a aprender, mesmo com as nossas falhas. Ser casmurro é muito 1971.

DEIXA O RESSENTIMENTO EM CASA

No início do ano passado, em plena conferência de imprensa após o jogo com o Setúbal, JJ disse que Rui Vitória não era seu colega. Esta declaração, provocada por uma pergunta de um jornalista, adicionada à estória do "ferrari", ou o "software" deixado para os lados da Luz, revela que os últimos dias passados na estrutura de Luis Filipe Vieira o afectaram no plano psicológico. Indiscutivelmente, devemos deixar qualquer ressentimento bem escondido no sotão lá de casa.


Vê também: "Como os narcisistas tomaram conta do Mundo"


O QUE VALE O DINHEIRO NO PAÍS DOS PEQUENINOS

O salário de milhões é referido como pornográfico, mas se o futebol rende tanto é normal que os seus intérpretes recebam boa parte dos dividendos. Todavia, à parte desta constatação, o fundamental é sabermos o porquê de termos salários tão baixos e de forma generalizada e, ao mesmo tempo, pagarmos quase tudo como um europeu de primeira. Será a produção média do português muito inferior comparativamente ao trabalhador no Norte da Europa? Será que os nossos milhentos casos de corrupção explicam tudo? É perguntar ao José Gomes Ferreira.

RESERVA ESPAÇO NA VIDA PARA O CINEMA

Recentemente, quando confrontado sobre o que correu mal frente ao F.C. Porto, Jesus mencionou que um jogador leonino não tinha levado o "guião correcto" para o relvado. A partir daí, choveram análises e também o uso de léxicos relacionados com a sétima arte. Esperemos que alguns tenham aproveitado para deixar a bola de lado e dar um salto ao cinema. Neste mês de Março estreiam dois filmes de excelência: o brasileiro Aquarius, realizado por Kleber Mendonça Filho e o sueco Um Homem Chamado Ove, de Frederick Backman.

RIR DE NÓS PRÓPRIOS É O MELHOR REMÉDIO

Com tantos atropelos no português, ou por causa das tentativas de falar espanhol, são muitos os pretextos que nos levaram a gracejar. O ideal é que ele também se ria de si próprio. Achar piada aos nossos defeitos é saudável. Nem todos temos que ser bonitos, o cérebro da turma, ou o craque na peladinha.

UM POUCO DE HUMILDADE FAZ SEMPRE FALTA

Na conhecida frase em que proferiu o célebre "limpinho, limpinho", enquanto líder no Benfica, Jorge Jesus sentia-se intocável e, consequentemente, transparecia arrogância. Tivesse ou não razão na altura, ou actualmente por se sentir prejudicado, aprendemos que a arrogância pode ser madrasta. Já esta época, disse que qualquer equipa treinada por ele, em Portugal, só podia ser a melhor. Pois, "bardamerda" para a humildade! Às tantas, Jesus deve andar a ouvir o clássico álbum de 1994, Definitely Maybe, dos manos Gallagher (músicos com arrogância escrita na testa). O que não chocaria, com o significativo desejo de encontrar o oásis, em meio ao deserto de títulos – designadamente da principal equipa de futebol - que se atravessa para os lados de Alvalade.