Situacionistas, o novo vídeo de skate do diretor Murilo Romão, dá sequência à sua predileção pela temática inspirada na crítica do espaço urbano. A cada trabalho, Murilo lança um olhar diferente sobre a interação dos skatistas com a cidade a partir de teses de grandes mentes. Para fazer o Flanantes, por exemplo, ele buscou na poética do jornalista literário João do Rio o gosto pelo hábito de vagar contemplativamente pelas ruas; já em Sob a Aparente Desordem, pegou impulso nas ideias da urbanista Jane Jacobs e o seu elogio ao uso compartilhado das calçadas. Na obra que tem estréia nesta segunda (27) aqui em VICE Sports, a referência em alusão ao movimento situacionista apresenta-se como um desdobramento natural da linha de pensamento do diretor.
Publicidade
É sabido que os cabeças da Internacional Situacionista, como Asger Jorn, Gilles Ivain, Guy Debord, Constant e Raoul Vaneigem acreditavam que o uso participativo do ambiente urbano poderia revolucionar a vida cotidiana contra a alienação e a passividade. Daí o link que o Murilo encontrou com o skate. "No geral, o vídeo levou mais ou menos uns seis meses pra ficar pronto, mas a ideia era antiga", conta. "Desde o Flanantes eu já conhecia essa onda dos situacionistas." O diretor aproveitou uma viagem de trabalho à França, berço do situacionismo, no ano passado, para captar algumas coisas. "Comecei a fazer os primeiros takes de skate lá, por Paris e Lyon, cenas que abrem o vídeo, confirmando o meu método de edição estritamente cronológico", observa.Murilo não se ateve tanto a roteiros. Na real, a maior parte das cenas ele apenas saiu filmando e encaixando. Somente em passagens bem pontuais é que seguiu um plano básico: "Como na parte noturna vinculada à festa da Metanolna Trackers. Aquela passagem teve que ser imaginada com um tempo de antecedência porque sinto falta dessa junção dos movimentos, sendo que muitos skatistas estiveram presentes na ocasião."
Rodolfo Gabriel e MuriloRomão. Foto: Fernando GomesAlgumas sequências se destacam pelo fator casual, como a cena em que o Daniel Marques pula um gap acompanhado pela câmera em movimento. "Primeiro eu estava filmando sem o skate e pulei junto na zoeira. A imagem ficou boa, então resolvemos insistir na ideia", detalha Murilo. "Incentivei ele a acertar rápido a fim de que meus joelhos não começassem a doer por causa da repetição do impacto seco, levando em conta a minha preocupação em tremer a câmera o menos possível." Dessa vez, além do costume de retratar os seus skatistas mais chegados, Murilo Romão aproveitou outras viagens para fazer algumas pontes. Temos, assim, um vislumbre do elevado nível do atual skate de rua em Salvador, por exemplo, com as sessions de Felipe Oliveira, Célio Kodai e Rodolfo Bigode.Mesmo que nem sempre a fotografia seja irretocável do ponto de vista técnico convencional, os títulos do selo Flanantes – que é também o nome do coletivo audiovisual em que Romão atua ao lado de outros parceiros, como o animador André Porto – valorizam sempre a tentativa de passar a emoção do skatista na busca do acerto. Então as cenas escolhidas são frequentemente aquelas em que os caras estão mais empolgados e no gás. Isso faz uma sutil, porém marcante diferença no ritmo do filme para quem o assiste. Dá um sentido de fluência. "Outra coisa que busquei explorar de maneira um pouco mais evidente em alguns momentos são os códigos da cidade que direcionam ações coletivas, como faixas de pedestres, placas, tartarugas etc. Códigos dos quais, mesmo inconscientemente, nós, skatistas, estamos sempre desviando."Assista ao vídeo: