

Transgender Dysphoria Blues
Total Treble Music
Nota prévia: para mim, os Against Me! terão sido porventura das bandas punk mais entusiasmantes da última década e meia. Fugindo à fórmula algo simplista e repetitiva regularmente associada ao punk rock dito tradicional (o que não quer dizer necessariamente mau), estes tipos sempre fizeram o suficiente para me despertar curiosidade e atenção em relação ao que aí estava para vir. Fizeram-no com os quase clássicos
Against Me! Is Reinventing Axl Rose
e
Against Me! as the Eternal Cowboy
, fizeram-no com a evolução de
Searching for a Former Clarity
, e até o fizeram com
New Wave
e
White Crosses
, discos nos quais se era notório o peso de se encontrarem agora com uma major — a Sire — e onde já tinham um som mais limpinho a fugir cada vez mais daquele punk "puro" do início. Apesar de por vezes acusados de se terem vendido às grandes editoras, bastava ser um bocado crescidinho para saber olhar para além disso e encontrar belas malhas nos últimos dois discos — embora também haja um par de canções absolutamente azeiteiras, mas
what the hell
. Aplaudia a estrutura pouco convencional das letras, o entusiasmo por detrás daqueles riffs e a energia que emanavam, fazendo com que, independentemente do disco que ouvia, pudesse dizer que ainda curtia à brava os Against Me! sto é, até
Transgender Dysphoria Blues
.
Algures em 2012, Tom Gabel, líder destes gajos, assumiu-se como transgénero, disse que ia passar a chamar-se Laura Jane Grace e a viver como mulher, e que o próximo disco da banda lidaria com este assunto. Não é a notícia mais usual do mundo mas pouco importava musicalmente, excepto talvez na questão da voz, que podia trazer uma mudança algo brusca no som tão característico. Isso acabou por nem ser uma questão já que a voz até se manteve praticamente igual. Por aí, tudo bem.
O problema está em tudo o resto. Transgender Dysphoria Blues é uma valente cagada sem pinga de originalidade, interesse ou ponta por onde se lhe pegue, para além da mensagem que, na maior parte do disco, procura transmitir em relação à circunstância acima referida. Musicalmente falando, só consigo disfrutar minimamente da faixa que dá o nome ao disco e pouco mais, onde se encontra algo de semelhante ao que me prendia nestes tipos. De resto, não passa de uma colecção de malhas desinspiradas, repetitivas ou verdadeiramente desconfortáveis. Vejamos "Unconditional Love", um exemplo de punk azeiteiro elevado ao máximo; "Two Coffins", uma fraca desculpa de balada instropectiva sem qualquer nexo; "Drinking With The Jocks" será a canção com mais atitude do disco, mas todo o seu
statement
passa despercebido numa melodia que não desperta interesse nenhum; ou "My Dead Friend" que nos faz pensar que afinal os My Chemical Romance sempre deixaram algum tipo de legado. Disto tudo resulta em
Transgender Dysphoria Blues
, que além de ser um mau disco de Against Me! é também um péssimo disco de punk rock. Escolham a desculpa que queiram: acomodaram-se, desaprenderam, confiaram demasiado que a mensagem bastaria para meter cá fora dez canções que não valem por duas. No final de contas, é uma absoluta desilusão e dificilmente voltarão a despertar o meu interesse com música nova.
Para os registos históricos,
Transgender Dysphoria Blues
possivelmente terá o seu papel como um testemunho na primeira pessoa acerca de um tema tão fracturante quanto o cantado em quase todo o disco. Para quem leva a música pelo seu valor nominal e para quem segue o que estes tipos fizeram na última década, não será mais do que uma estrondosa queda a pique.