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cenas

Nove meses a morar com um drogado

E não foi uma experiência fixe.

Por J.J. Mueller
19 Outubro 2012, 10:00am

O nome do autor e todos os nomes nesta história foram alterados.


O INÍCIO
Não sabia que o Clark era viciado em heroína até vir morar comigo. Aliás, só tinha estado pessoalmente com ele uma vez. Falávamos online — ele adicionou-me no Facebook e, todos os meses ou assim, enviávamos vídeos parvos um ao outro. É assim que se conhecem os companheiros de casa no século XXI. Precisava de alguém para dividir a renda do apartamento, ele já não queria morar na casa antiga e os astros alinharam-se. Num piscar de olhos, ele já estava no meio da minha sala a desempacotar carradas de roupas, bugigangas, objectos de decoração e tralhas variadas. Também tinha umas malas encadernadas a couro, o estilo de coisa que imagino que o Humphrey Bogart utilizaria nas suas viagens de comboio inter-continentais. O apartamento ficou a ganhar com a sua presença, porque o Clark sabia melhor do que eu como tornar uma casa num verdadeiro lar.

O PRIMEIRO MÊS
Ele até podia ter bom gosto em malas, mas era um homem com hábitos peculiares. Ouvia uns discos estranhos, tinha uma fixação esquisita por cabides e curtia andar às voltas pela baixa, a gravar conversas alheias com um microfone. Começou uma espécie de campanha a favor da street art, tipo Banksy, por toda a cidade. Isto foi fixe, deu alguma personalidade à casa, mas fui-me apercebendo de que o Clark tinha fronteiras diferentes das minhas no que dizia respeito ao consumo de drogas. Contava-me, sem grandes merdas, que tinha mandado heroína na semana anterior e que isso era apenas mais uma das cenas das quais ele andava a tentar livrar-se. Dizia que heroína é uma seca e que, na perspectiva dele, é uma droga híper-idealizada. Não conheço ninguém que tenha, alguma vez, idealizado a heroína. O Clark dizia que tinha de largar a cena suavemente e que "desta vez é que era". Não sei falar sobre esse tipo de assuntos, então só sorria e dizia: "Sim, percebo o que queres dizer." Mas não, não percebia. De todo.

O SEGUNDO MÊS
Notas musicais ruidosas a saírem do quarto do Clark às quatro da manhã. E risinhos, também. Nunca conheci nenhum dos amigos do Clark, mas eles são pessoas esotéricas. Um dos gajos, o Jeremy, quase não tinha dentes e usava gravatas por cima de camisolas de alças. Eu pouco via o Clark durante o dia, nesta altura — só sabia que ele estava no quarto quando ouvia uma tosse forte. Havia, claramente, alguma coisa errada a acontecer ali, mas nem queria pensar muito nisso. Comecei a trancar a porta do meu quarto.

O TERCEIRO MÊS
Entrei na minha sala um dia e encontrei o Clark a rasgar pilhas e pilhas de fotografias antigas a preto e branco. Eram retratos de velhinhos com carantonhas cerradas, que estavam a olhar para a câmara sem o mínimo sentido de humor. Perguntei ao Clark onde é que ele tinha encontrado estas fotos e ele explicou-me que tinha ido ao caixote do lixo de manhã e apontou para um monte de antigos livros bolorentos. Uma vez mais, não fiz perguntas. Ele e os amigos tinham começado a desenvolver um comportamento estilo seita (gritavam coisas como "BORG! BORG!" até às seis da manhã). Às vezes, encontrava-os a pastar nos bancos de jardim, lá pelo bairro. Acho que todos moravam numa mansão abandonada que ficava alguns quarteirões abaixo. Eles abancavam lá, mandavam cenas e depois vomitavam por trás de um grande carvalho.

O QUARTO MÊS
Percebi que o Clark não estava com um aspecto saudável. Estava pálido, com as pupilas dilatadas e não tomava banho há dias. Contava-me as mesmas histórias constantemente. Não sabia bem o que podia fazer por ele, enquanto amigo e colega de casa, o que me fazia sentir um bocado mal. Não devia ter deixado as coisas chegarem a este ponto, os amigos não deixam os amigos chegar à fossa, certo? Decidi que ia fazer uma mini-intervenção. Não há propriamente uma boa maneira de fazer com que a outra pessoa perceba que é viciada em heroína, por isso, acho que tive sorte quando o Clark disse:

"Ouve, meu. Acho que ando completamente viciado em heroína."
"Eu sei." (E, mais uma vez, estava à nora.)
"Mas vou sair disto. Desculpa por qualquer stress que te tenha causado..."
"Obrigado, meu. Fico contente por teres sido tão honesto comigo."

E brindámos a dias mais felizes.

O QUINTO MÊS
As coisas melhoraram. Tentei passar mais tempo com o Clark. Andávamos a comer juntos, a estudar juntos, a sair juntos — estava a tentar ser a almofada entre ele e o vício. Nunca estive viciado em nada, então não percebo como é que funciona, mas ele parecia feliz. Levá-lo a um concerto dos Wu-Tang era o mínimo que podia fazer. A casa estava, lentamente, a tornar-se um sítio mais habitável.

O SEXTO MÊS
O Clark tinha começado a passar imenso tempo com um puto chamado Evan. Digo "puto" porque ele parecia mesmo ter p'raí uns 16 anos. Era porco e estranho à volta das pessoas. Parecia um agarrado, mas não um daqueles violentos. Dormia lá em casa mais vezes do que as que eu gostaria. O gajo tentava ao máximo estabelecer uma amizade comigo, mas não fazia bem o meu género. O Clark jurava-me que estava só a tentar tomar conta do puto para o ajudar a ultrapassar o vício. E sublinhava que "não estava mesmo a consumir heroína outra vez". Certo. Umas semanas depois, os amigos duvidosos do Clark começaram a aparecer novamente. Pior: tinham desenvolvido o desconcertante hábito de entrar em minha casa pela varanda. Vestiam roupas esquisitas, não tenho a certeza se alguma destas pessoas tinha uma cama onde dormir. Apercebi-me lentamente de que a minha casa estava a tornar-se no destino final para os novatos e deviantes.

O SÉTIMO MÊS
Um dia cheguei a casa e encontrei um gajo velho que mais se parecia um contínuo desempregado de uma escola. Estava a ter uma grande conversa com o Clark e a primeira coisa que ele me perguntou foi se eu tinha erva. Ele não terminava frases e nem sequer tinha muito a dizer. Tentei fazer conversa, mas não consegui, especialmente porque não conseguia deixar de pensar: "Por que é que este homem está em minha casa?" Ele foi-se embora e o Clark pediu-me desculpa. Fingi que não me importava com todos estes estranhos em minha casa. Depois de todo este tempo, será que ainda estava preocupado por não ser um gajo fixe?

O OITAVO MÊS
Eram duas da manhã. Comecei a ouvir passos e o tic-tac de patas caninas no hall de entrada. Era o Gerald, um dos amigos mais imprevisíveis do Clark, que ainda por cima tinha engraçado comigo. Como de costume, o Clark não estava à espera dele.

"Onde está o J.J.?"

Eu estava na minha cama, de boxers, com a minha namorada quase a adormecer. Destranquei a porta do quarto e fui até à sala.

"Então, Gerald, tudo?"

"Estou prestes a ir para a guerra, meu", disse-me ele com uma faca de cozinha na mão.

O Gerald nunca tinha os pés na terra, mas consegui perceber que estava particularmente alheado nessa noite. Há várias maneiras de reagir quando um tipo irracional tem uma arma na mão dentro de tua casa. Podemos, por exemplo, gritar: "CARALHO, SAI DA MINHA CASA!" Mas eu não fiz isso. Só sorri e disse: "Percebo." Não percebia nada, claro. Mais um pormenor: o Gerald estava sem camisa, a agarrar a faca na horizontal, perto do peito. Começou a avançar na minha direcção e eu comecei a sentir-me desconfortável. Queria recuar. O Gerald reparou nisso, riu-se e disse: "Não te preocupes, meu. Não vou matar-te." Voltei à minha cama e tentei explicar à minha namorada — que continuava quase adormecida — o que se tinha passado na sala. Ela virou-se para o lado e bocejou. "Por que é que moras aqui?" Não tinha uma resposta aceitável para esta pergunta. Naquele momento, apercebi-me de que já não me sentia seguro na minha própria casa.

O NONO MÊS
O Clark convidou alguns dos seus amigos para passarem o fim-de-semana. Um deles era um velhote gay chamado Ryan, que ele conhecia da sua terra natal. Parecia normal, tirando o facto de curtir andar com putos viciados na casa dos vinte. Nem quis saber o que se ia passar em minha casa, então fui para a rua. Umas horas depois liguei ao Clark e ele estava a meio de uma discussão acesa com o amigo. Explicou-me que estava preso pelo lado de dentro de casa e que ia sair pela varanda para chegar ao carro. Que me explicava tudo mais tarde. Pouco tempo depois, estava eu já sentado no lugar do passageiro, e o Clark estava à beira de um ataque de choro. O Ryan era um dealer seropositivo e esteve a andar pelo meio da casa com uma ferida em carne, a sangrar pela pia. Claro que isto fez o Clark sentir-se um bocado nervoso e pediu ao Ryan que colocasse um penso, ou assim. O velho gay não achou piada à retórica e passou-se: "Achas que sou um monstro!" Destruiu a cozinha e tenho a certeza de que roubou todo o nosso serviço de loiça. A esta altura eu já estava habituado a este género de incidentes, mas depois aconteceu algo de inesperado. Nos semáforos, mesmo antes de nossa casa, o Clark olhou-me nos olhos e disse: "Peço imensa desculpa por fazer-te aturar todas estas merdas, meu." Esta foi, provavelmente, a primeira vez que ele foi realmente honesto comigo desde que começámos a morar juntos. Nem o culpo, para ser sincero: o vício da heroína é o verdadeiro responsável por este chorrilho de mentiras. Está, literalmente, no sangue dele. Dormi em casa da minha namorada nessa noite, mas senti-me melhor com este pedido de desculpas.

O FIM
As últimas semanas em que morei com o Clark foram muito boas. Rimos juntos, falámos juntos, comemos juntos, saímos juntos. Ele ainda estava muito viciado, mas isso não parecia afectá-lo como antigamente. Depois desapareceu. Avisou-me que ia a casa passar o fim-de-semana e, uns dias depois, disse-me que já não voltava. Alguém que gostava dele fez o que eu deveria ter feito há séculos (antes de o Ryan ter partido a nossa cozinha, antes de o Gerald me ter apontado uma faca de cozinha) e mandou o Clark para uma clínica de reabilitação. Uns dias depois, o pai do Clark foi até à nossa casa para empacotar todas as cenas dele. Como devem imaginar, foi tremendamente estranho para mim partilhar o mesmo espaço que um pai que está a contemplar a gravidade do problema de heroína do filho. Senti que estava a perguntar-se sobre o porquê de eu nunca o ter avisado sobre isto. Comecei a pensar nisso, também. É tão fácil relaxar e dizer a nós mesmos que este não é um problema nosso, que as pessoas fazem as suas próprias escolhas e que têm de viver com elas. Depois, olhamos para um progenitor triste a tratar das roupas do filho, à procura de trapos no meio do lixo. Foi aí que, talvez pela primeira vez, percebi a profundidade da doença do meu colega de casa e alegado amigo. Podia ter feito melhor.

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