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Como foi solucionado o mistério das rochas que andam sozinhas no deserto

Depois de 70 anos de dúvidas, cientistas descobriram que as "rochas andantes" do Death Valley, na Califórnia, movem-se graças a uma conjugação de factores ambientais únicos.

Por Kaleigh Rogers
05 Maio 2017, 11:20am

Foto via Wikipedia

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Já viste uma pedra a andar? A andar de forma independente - não depois de ser pontapeada, ou arremessada - numa superfície plana, por livre e espontânea vontade. Já viste? Com excepção de certas experiências psicadélicas, é seguro dizer-se que não, nunca viste tal espectáculo. Mas essas pedras existem e há décadas que têm intrigado cientistas.

Racetrack Playa é uma vasta e árida planície, localizada no centro do Parque Nacional de Death Valley, na Califórnia, Estados Unidos da América. A região, antes coberta por água, é hoje apenas um leito vazio, cercado de colinas rochosas. Este local, um dos mais quentes, secos e com uma das menores altitudes na América do Norte, é conhecido pelas suas "rochas andantes": pedras que cruzam a planície, aparentemente sozinhas. Só em 2014, cientistas descobriram como as pedras deslizam de um sítio para outro. A resposta é uma combinação incomum e única de gelo, vento e sol.

É raro ver as pedras em acção, mas os sinais são claros. Atrás das pedras é possível ver rastros longos e sinuosos escavados na areia. A determinada altura, cientistas utilizaram aparelhos GPS para rastrear os movimentos das pedras e provaram que elas realmente se movem. De acordo com Richard Norris, oceanógrafo da Universidade da Califórnia, em San Diego, e um dos investigadores que desvendou o mistério, o movimento das pedras foi registado pela primeira vez no início do século XX, mas no decorrer das décadas seguintes, ninguém foi capaz de explicar o fenómeno.

Foto via Wikipedia

"O primeiro estudo científico foi feito em 1948 e depois dele vieram muitos outros", conta Norris. E acrescenta: "A cada 10 anos, em média, havia alguém a publicar uma nova investigação sobre as pedras, mas, claro, ninguém baseava a sua carreira científica nesses artigos. Era só um mistério divertido".

Norris conheceu as pedras deslizantes quando era criança. O seu tio, um geomorfologista da Universidade da Califórnia, em San Diego, levava os seus alunos para viagens de estudo a Racetrack Playa e Norris e o seu primo acompanhavam-nos. Depois de adultos, ambos cientistas, decidiram resolver o mistério.

Investigações anteriores tinham levantado hipóteses sobre o movimento das rochas. Alguns cientistas acreditavam que eram arrastadas por ventos excepcionalmente fortes, enquanto outros defendiam que, ocasionalmente, eram envoltas por gelo, o que as deixaria escorregadias. Entre as teorias, havia também algumas ideias menos científicas, entre elas a da levitação acústica - a crença de que o som pode levitar objectos pesados.


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Para chegar a uma conclusão, Norris e o seu primo fixaram aparelhos GPS customizados em pedras que eles próprios levaram para Death Valley (o Serviço Nacional de Parques não permitiu que manuseassem as pedras que já estavam no local). De seguida, instalaram uma estação meteorológica no local e... esperaram.

Dois anos passaram, mas finalmente, as rochas moveram-se. Por acaso, Norris e o primo estavam presentes no momento em que isso aconteceu. Algum tempo depois, os investigadores revelaram as suas descobertas num artigo publicado na revista científica PLOS One. A dupla descobriu que quando a temperatura cai após uma tempestade, a água congela, formando uma fina e enorme camada de gelo ao redor das pedras, que por sua vez escorregam das encostas até à planície. Ao amanhecer, quando o sol começa a derreter o gelo, basta uma pequena brisa para o mover e com ele, claro, as rochas.

"O gelo tem a espessura do vidro de uma janela. E, embora seja muito fina, essa camada de gelo é enorme. É movida pela brisa e pode arrastar objectos muito grandes - o que inclui pedras", explica Norris.

Embora os resultados tenham espantado Norris e muitos outros cientistas, servem também para explicar fenómenos semelhantes observados em outras partes do Mundo. "A ciência é fantástica", conclui Norris.