Meu TOC me deixa ansiosa com sujeira. É assim que faço sexo

“Talvez não importe que minha calcinha encoste no sofá. Talvez algo ruim vai acontecer, talvez não. Vou lidar com isso depois.”
MS
Traduzido por Marina Schnoor
14.9.20
My OCD Makes Me Feel Freaked Out About Cleanliness. Here's How I Have Sex: illustration of two people in bed
Ilustração por Cathryn Virginia.

As pessoas costumam usar a frase “transtorno obsessivo-compulsivo” (TOC) como uma abreviatura jocosa para ser excessivamente particular ou fresco com alguma coisa, colocando o transtorno como um conjunto inócuo de ansiedades.

Mas TOC não é brincadeira. É uma condição de saúde mental que mais de 2% das pessoas experimentam em algum ponto. O transtorno pega pensamentos aleatórios que passam pela cabeça das pessoas — aquele medo irracional de ter feito algo errado, ou alguma fantasia espontânea bizarra — e em vez de permitir que eles desapareçam rapidamente, o TOC força esses pensamentos para o primeiro plano da mente em espirais angustiantes. Como essas obsessões não respondem bem à razão, pessoas com TOC desenvolvem rituais para tentar conseguir uma alívio dessas ansiedades. Mas esse alívio é passageiro, e as pessoas acabam presas nesse ciclo de obsessões e rituais. Muitas se tornam dependentes de uma lista crescente de compulsões, que podem se tornar a própria fonte de ansiedade e vergonha.

Embora muitas pessoas com TOC desenvolvam obsessões e rituais similares (se preocupar com contaminação ou se ferir ou ferir outras pessoas são especialmente comuns) todo mundo experimenta o transtorno de maneira única em sua seriedade, complexidades contextuais e fluxos e refluxos na vida.

O TOC muitas vezes afeta negativamente a vida sexual das pessoas. A ansiedade e depressão que vêm disso, ou a medicação usada para tratar o transtorno, podem limitar a libido. Rituais demorados e obsessões constantes acabam roubando o tempo de intimidade das pessoas, ou acabam com o clima. Constrangimento e vergonha podem levar as pessoas a esconder sua condição, obsessões e rituais do parceiro, criando tensão e confusão.

Obsessões e rituais podem invadir o sexo também. Pessoas com obsessão por contaminação falam sobre se fixar na suposta sujeira dos genitais ou fluídos corporais, e colocar limites rígidos em como elas fazem sexo. Alguns estimam que pelo menos uma em cada dez pessoas com TOC vai em algum ponto desenvolver obsessões sobre o sexo, questionando constantemente sua sexualidade ou temendo que possa estar desenvolvendo impulsos prejudiciais e construindo rituais em seus relacionamentos, hábitos de masturbação e hábitos de pornô para testar ou se certificar de seus desejos. Medo de ser incompreendido — ou até perigoso — obrigam algumas pessoas com obsessões sexuais a evitar intimidade totalmente. Muitas vezes, parceiros românticos que encaram as realidades do TOC consideram a condição demais para aguentar.

Muitas pessoas com TOC podem desenvolver vidas sexuais satisfatórias e relacionamentos fortes. Tratamentos estabelecidos podem ajudar a diminuir o poder das obsessões e a falar sobre a condição com o parceiro. Médicos estão cada vez mais conscientes e conseguem ajudar os pacientes a navegar pelos efeitos colaterais da medicação para TOC.

Na última década, pessoas com TOC começaram a compartilhar publicamente suas histórias de como o transtorno se manifesta em suas vidas sexuais. Mas vários indivíduos com quem a VICE falou disseram que ainda há relativamente pouca informação sobre como parceiros de pessoas com TOC podem interagir com obsessões e rituais, e ajudar no tratamento.

A VICE falou com Petra, que tem TOC severo, e seu parceiro neurotípico Quinn, sobre as experiências deles com a condição na vida sexual. (Os nomes foram mudados para proteger a privacidade dos entrevistados.)

A entrevista foi editada para maior clareza.


Petra: Na faculdade, eu estava morando sozinha pela primeira vez e tinha tempo para minha mente mergulhar nas coisas. De repente desenvolvi uma obsessão escrupulosa com base em religião [por causa da minha criação e fé mórmon]. Comecei a me preocupar com coisa como “Posso gravar CDs com música que baixei da internet?” Joguei fora todos os meus CDs gravados e comprei cópias novas. Não fiquei com muitas pessoas na faculdade porque não achava que alguém ia querer ter um relacionamento comigo. Depois que minhas obsessões começaram a se desenvolver, fiquei com um cara, e lembro de estar sempre me sentindo culpada, tipo, “Passei dos limites? Tenho que contar isso para o líder da igreja?”

Quinn: E ela está falando de coisas como só beijar.

Petra: Sim, ou tirar uma soneca na cama dele. No Mormonismo, não podemos ficar no mesmo quarto que o sexo oposto. Essas obsessões acabaram com o relacionamento.

Minha mãe é enfermeira, então liguei pra ela perguntando o que estava acontecendo comigo. E ela disse: “Saia dessa. Ore mais. Essas coisas não importam”. Foi difícil. Eventualmente, procurei a clínica da minha faculdade e eles me diagnosticaram com TOC, mas não explicaram nada sobre o transtorno. Só me receitaram remédio [SSRI] e disseram: “OK, vai viver sua vida”. Minhas obsessões melhoraram um pouco depois disso.

Conheci o Quinn nessa época. Namoramos à distância pelos primeiros três anos, o que me ajudou a partir para um relacionamento físico. A gente se conhecia tão bem depois de três anos que eu não estava tão preocupada com o que ele pensaria de mim. Mas não fizemos sexo antes do casamento.

Quinn: A Petra não me disse que tinha TOC. Ela disse: “Tenho ansiedade e tomo remédios pra isso”.

Petra: Eu tinha até esquecido que me diagnosticaram com TOC.

Quinn: Tive um relacionamento antes de conhecer a Petra com uma garota que tinha questões de saúde mental. Eu não estava preparado pra isso. Minha mãe também tem transtorno bipolar severo, então eu sabia como era difícil. Lembro de pensar: “Nunca mais vou namorar outra garota com problema de saúde mental depois disso é demais pra mim”. Alguns amigos nossos falavam sobre as “peculiaridades” da Petra, como ela era obcecada por seguir as regras perfeitamente. Então, quando ela disse que tinha ansiedade, pensei: “Ah, não — quero mesmo ter um relacionamento com alguém que tem esse problema?” Sei que parece horrível, mas fiquei pensando se conseguiria lidar com isso. Mas ela era tão charmosa e legal que decidi que valia a pena tentar.

Eu não sabia nada sobre TOC, só que eu tinha namorado uma mulher na faculdade que tinha uma mãe com o transtorno, que lavava as mãos até ficar em carne viva. Então, se a Petra tivesse dito que tinha TOC, acho que eu não saberia o suficiente para colocar mais estigma nisso do que coloquei na ansiedade.

Petra: Depois que casamos, meu TOC não afetou o sexo no começo. Quinn não era mórmon antes e ele já tinha feito sexo. Fiquei com medo que ele estivesse me julgando e que eu não era boa de cama — não falamos muito sobre isso. Esses pensamentos podiam ou não estar relacionados com o TOC. Eu ainda estava tomando remédios, o que ajudava.

Sempre estive mais no lado assexual do espectro, então senti algo como “Vou fazer sexo, mas não preciso disso”. A gente fazia sexo uma ou duas vezes por semana. Ele é mais sexual que eu.

Quinn: É, acho que [esse desequilíbrio no desejo] provavelmente é muito comum nos relacionamentos. Mas tudo estava bem. Ela nunca curtiu ser espontânea. Ela dizia coisas como “Estou assistindo um programa agora, deixa pra depois”.

E em certo ponto, eu disse: “Você quer marcar um dia para fazermos sexo?” E deu certo pra nós. Mas quando ela engravidou, ela tinha muito mais tesão.

Petra: Eu não sabia o que a medicação poderia fazer com o bebê, então parei de tomar e nunca voltei. Isso provavelmente aumentou minha libido. Tivemos dois filhos. Aí tive um aborto espontâneo e meu TOC voltou com tudo. Mas não era mais escrupuloso. Comecei a me preocupar com contaminação fecal por causa dos meus filhos pequenos. Eu surtava quando eles faziam necessidades na calça ou na cama. Comecei a lavar tudo com alvejante o tempo todo. Eu não conseguia brincar de colorir com eles porque achava giz de cera sujo, porque eles eram crianças sujas. Eu também não sabia que tinha endometriose, então estava sempre me sentindo mal e tinha medo de deixar outras pessoas doentes.

Quinn: E em certo ponto, perguntei: “Será que você tem TOC?”

E ela disse que achava que não, porque não lavava as mãos toda hora. Achamos que era só algum tipo de ansiedade.

Petra: É, você pensa que TOC é lavar as mãos toda hora e querer tudo organizado. Só quando comecei a fazer terapia depois descobri que o transtorno toca outras partes da sua vida, e isso pode mudar a qualquer momento com base no que passa pela sua cabeça.

Depois da matéria fecal, fui para “Todos os fluídos corporais são sujos. Nossos genitais são sujos”. Foi um início rápido. Comecei a ter que fazer sexo não nos lençóis onde iríamos dormir, mas em outros por cima deles. Se o Quinn tocava em algo que eu considerava sujo, mesmo roupa suja para lavar, eu dizia: “Você não pode deitar na cama comigo até lavar as mãos”. E ele dizia: “Não vou fazer isso”. E a gente brigava.

Quinn: O transtorno tem todo tipo de efeito estranho. Tenho uma memória forte dessa época de passar por ela e tocar com o braço as costas dela — o que era comum pra nós. E ela explodiu. “Por que você fez isso? Como você ousa fazer isso!” E eu pensei, tipo, “Por que você considera essa parte do meu corpo suja?”

E eu pensei “Espera um pouco, quê? OK, estamos em outro nível agora”. Nesse período inicial, quando o TOC começou a aparecer, o clima era muito tenso — não só na área sexual. Ninguém conseguia fazer nada certo em casa.

Petra: Se alguém sentava na minha cadeira, eu surtava.

Quinn: Ninguém podia se divertir.

Petra: Não tinha mais romance.

Quinn: Sim, o clima ficou pesado por alguns meses. Era muito trabalho para fazer apenas o básico. Se a gente estava se beijando ou acariciando e eu tocava a parte de fora da calcinha dela, ela dizia: “Vai lavar as mãos”. Ou “OK, mas não toque mais no meu cabelo”, porque ela não queria ter que lavar o cabelo depois. Se sem querer eu tocava o cabelo dela, ela dava um suspiro e o clima acabava na hora. Fiquei muito preocupado em tocá-la nos lugares errados, ou se estávamos tirando a roupa, com dobrar a roupa de baixo e colocar no lugar certo. Se a gente discutia sobre o lugar da roupa, eu não estava mais no clima. Às vezes ela ficava decepcionada. Era como 100 cortes de papel na nossa intimidade.

Petra: Essa é outra coisas sobre pensamentos intrusivos: eu tinha esses senso de dever, tipo, eu tinha que fazer ele gozar ou algo assim, e se ele não gozava, eu tinha fracassado, era tudo culpa minha.

Quinn: Mesmo se era o meu corpo, minha culpa. E a gente brigava, tipo, “OK, vou dormir na sala”. E ela dizia: “Não, você precisa lavar as mãos e voltar pra cama”. Acho que ela sentia que era dever dela como esposa ficarmos no mesmo quarto.

Petra: Isso.

Quinn: Eu sentia que nunca ia aprender todas as regras dela para o sexo. Sempre tinha alguma nova.

Petra: Em algum ponto, comecei mesmo a lavar as mãos toda hora, e caiu a ficha. Comecei a ler sobre TOC e pensei: “Essa sou eu”. Aí li meus diários antigos e percebi que eu tinha esquecido que fui diagnosticada dez anos atrás. “O que faço agora?”

Fiquei num estado tão ruim que nem conseguia ligar para um terapeuta, então o Quinn fez isso por mim. Achamos alguém que tinha vaga numa terapia em grupo naquela noite. Quando ouvi outras pessoas contando suas histórias, pensei: “Todas essas coisas são TOC e eu não percebi”. Depois, o terapeuta me explicou a condição. Comecei a tomar remédio porque terapia de exposição, onde eles te desafiam a fazer coisas que você não gosta para afastar obsessões e ansiedades, era difícil demais pra mim. Fiquei muito deprimida. Me senti suicida por uma semana. Eles aumentaram minha dose, e aí consegui começar a terapia.

Quinn: Depois de um ano ou dois ela disse que estava bem depois de tomar os remédios.

Petra: Pensei: “Posso parar agora. Sei o que fazer”. Foi um desastre. Tive outro surto. Uma amiga teve que me levar para o hospital. Ela disse: “Você precisa voltar a tomar os remédios _agora_”. Mas nossa vida sexual nunca parou totalmente.

Quinn: Temos um compromisso, então estamos dispostos a trabalhar isso. Tem sido difícil. Na terapia, nos ensinaram que preciso recusar alguns dos rituais dela, o que às vezes cria muito conflito entre nós.

Petra: Isso corta o clima.

Quinn: Nunca conseguimos nos livrar de algumas das preocupações.

Petra: O lugar da roupa de baixo e a regra dos lençóis ainda valem. Mesmo agora, se você precisa arrumar a calça, eu digo: “Que nojo, vai lavar as mãos”.

Quinn: Sei que as preocupações com contaminação estão passando na cabeça dela quando estamos sendo íntimos agora através de pequenos movimentos, como quando ela arruma alguma coisa [para não tocarmos em nenhuma superfície suja]. Pode ser uma distração. Ainda tenho que tomar cuidado com coisas que posso fazer sem querer. Sei que a medicação pode ser um problema para a libido dela, mas às vezes ainda levo para o lado pessoal, tipo, “Ela não me quer”. Às vezes eu digo: “É porque não sou atraente pra você?”

Petra: Aí eu me sinto ainda pior. Recentemente comecei a tomar Wellbutrin além de Prozac, o que acho que ajudou muito minha libido.

Quinn: Com coisas como não tocar o cabelo dela quando estamos sendo íntimos, tenho tentado recusar. Ficamos confortáveis em falar sobre isso quando não estamos fazendo sexo, tipo, “Ei, por que você liga para os lençóis onde fazemos sexo?” Conversamos sobre coisas que são sintomas de obsessões e como podemos abordá-las. Tipo, posso sugerir: “E se da próxima vez, eu jogar as roupas ali?” Na metade do tempo é OK. Na outra metade é, tipo, “O que foi que eu fiz?” É um processo.

Parece tudo muito mecânico e não divertido, mas realmente ajuda. Ela está disposta a me ouvir quando abordo alguma coisa. Sexo com hora marcada nos ajudou, porque quando a Petra se sente ansiosa, o padrão é que ela não vai querer tirar tempo para fazer sexo, porque é sujo.

Petra: A terapia me ajudou muito a me abrir para conversar. É uma questão de quebrar hábitos, o que o TOC não quer que você faça. Agora ele pode dizer: “Olha, acabamos de lavar os lençóis, você quer transar neles?” E eu respondo que sim. Ou posso pensar: “Talvez não importe que minha calcinha encoste no sofá. Talvez algo ruim aconteça, talvez não. Vou lidar com isso depois”. Você aprende a estar consciente do TOC e dizer não pra ele.

Quinn: Temos picos e vales, mas estamos num ponto onde podemos trabalhar essas coisas. Como o fato da Petra não se sentir confortável em fazer ou receber sexo oral porque vê isso como sujo.

Petra: É, quer dizer, você faz xixi pelo pênis.

Comecei abordando questões de contaminação porque era o que causava mais problemas na minha vida. Passamos para abordar a questão de ser escrupulosa e outras pequenas obsessões. Tipo, quando levo tempo demais pra gozar, e digo: “Vamos fazer outra coisa. Não quero desperdiçar seu tempo”. Nunca senti que eu merecia isso. E não quero perder o controle do meu corpo.

Quinn: Estamos trabalhando nisso faz tempo. Desde que casamos, sempre pergunto: “Como posso te dar mais prazer?” E ela diz: “Do que você está falando? O único jeito de me dar mais prazer é se terminarmos mais rápido”.

Petra: Acho que se está demorando demais é porque devo estar fazendo algo errado.

Quinn: Além disso, nada mais do que cinco minutos e ela começa a ficar suada e desconfortável, pensado que estamos sujando as coisas ao nosso redor. Mas também somos ensinados a ter vergonha de sexo na religião, tipo, “Não se masturbe”. Acho que a Petra fica desconfortável em se tocar.

Petra: Sim. Mas me toquei de algo recentemente e percebi que não importa que eu não seja perfeita, ou que não vou atingir os níveis mais altos do paraíso no Mormonismo. E aí tudo começou a mudar. Foi aí que percebi que estava fazendo coisas durante o sexo porque acreditava que tinha que fazer. Ainda nos consideramos mórmons. Finalmente, aos 36 anos, estou aprendendo a ser eu mesma sem esses muros de ser escrupulosa. Estou percebendo que sexo pode ser prazeroso pra mim também, e talvez eu possa me afirmar mais. E que posso usar um vibrador e não me sentir uma pessoa ruim se me masturbo.

Quinn: Vamos ver como as coisas se desenrolam com o tempo.

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